Delinda Brilinger de Fáveri, Arno de Fáveri, Lourdes Bonotto de Fáveri e Vitória Olivo Bonotto. Vila Maria, 1971/Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (32) – ou as asas costuradas pela primeira professora!

Postado em 18/10/2020, 10:46

 

Domingo, dezoito de outubro de dois mil e vinte. A vida na clausura se renova: no Dia das Crianças, os miúdos romperam as cascas dos ovos e piaram! Mamãe galinácea protege-os com as asas e, ainda nos ninhos, eles pulam e ensaiam os primeiros passos rumo à liberdade. Laura e eu saboreamos a vinda dos pequerruchos fofinhos, a maioria amarelinhos e todos com olhos vívidos e pios felizes! Crescerão. As fêmeas nos darão ovos de gema amarelo-laranja e galados pela corte dos machos, e algumas decidirão pele maternidade. Mais tarde irão todas para a panela, como também os galos… é o destino das galinhas, minha filha. Ou será que morreriam de velhice? Quanto tempo dura uma galinha sem que se interrompa o curso da vida? Não sei…

Foto: arquivo pessoal

Guevara e Tchê os olham com gula, os danados. Costumam pegar passarinhos, mamangavas, grilos, e os miudinhos são presas fáceis. Ficarão os piu-pius resguardados num cercado até que possam se defender. Aliás, meus felinos destruíram o canteiro de rabanetes e fizeram da terra fofa seus banheiros. Bem, é também da natureza dos gatos. Ainda não consegui saber se a Tchê está mesmo grávida, mas como sempre acontece por aqui, a natureza faz seu caminho: “Ah, deixa, se ela estiver mesmo, na hora nascem os filhotes e a gente fica sabendo” – então vamos esperar, mãezinha.

Esta semana passou num risco: o pedreiro começou a fazer o muro, levei minha mãe à médica, brinquei com a pequena Laura e curti com ela sua bike no entremeio dos muitos afazeres domésticos. No dia quinze, lembrou minha mãe, era dia dos professores: me deu uma flor colhida do jardim com o abraço macio, foi lindo!

Conversamos sobre nossas infâncias na escola: “Meu primeiro professor foi o Valentim Spillere. A família dele era de Morro do Aléssio e ele se hospedava na casa dos Fontana durante a semana. Ele ia dar aula de muletas e era bonzinho e amável”, recordou a mãe. “Entrei na escola com dez anos porque antes não tinha professor. Fiz um ano de escola e eu tinha um caderno grosso onde anotava tudo! Para ir estudar era longe e eu andava doze quilômetros entre ida e volta.” Essa memória ainda lúcida marcou sua infância, e hoje, setenta e dois anos depois, seus olhos reviram o passado na busca dessa imagem do primeiro professor!

Minha mãe fala do lugar onde nasceu e estudou: Vila Maria, interior de Nova Veneza, sul de Santa Catarina. Nesse mesmo lugar eu nasci e estudei até o terceiro ano primário numa escola isolada rural multisseriada. Era uma casa pequena de madeira bem simples, e ocupava o canto de um terreno de lavouras no centro da Vila. Não havia banheiro – aliviar-se era numa casinha minúscula com um assento sobre uma fossa, igual à que havia em nossas casas.

Eu percorria os mesmos doze quilômetros e pela mesma estrada de chão e pedras que minha mãe caminhara vinte anos antes. Ah, como lembro de minha primeira professora, Lourdes Bonotto: ela dava conta de quatro turmas ao mesmo tempo e na mesma sala de aula, uma heroína! Recordo que dividia a lousa preta com giz branco em quatro partes e escrevia tarefas para cada série. Em seguida, circulava entre as carteiras, que eram de madeira e compartilhadas, explicava as dúvidas e segurava na mão dos menores. Éramos, na quase totalidade, filhos e filhas de colonos. Vez por outra ingressavam na escola alunos vindos de outras vilas, filhos de agregados que vinham morar nas propriedades maiores

Na sala de aula, além das carteiras que abrigavam uns vinte alunos, havia uma mesinha onde a mestra punha seus cadernos, o giz e o apagador. Do outro lado havia uma pequena estante com livros de histórias infantis. Assim que dominei a arte de decifrar palavras, li todos eles abduzida pelas imagens e contos cujas personagens, hoje sei, eram sempre brancas e com representações que induziam prescrições de gênero, como nos contos de Cinderelas.

A professora entendeu que eu queria mais e prometeu: assim que fosse para Nova Veneza, que era a sede do município, traria mais livros. Ela trouxe, e li todos! Bem mais tarde fui saber que eram contos dos Irmãos Grimm, originalmente escritos sem inglês no início do século 19.

Foi um tempo feliz de minha vida. Já contei como professora Lourdes desenhou um mapa na lousa e as caravelas de Cabral… ali sonhei-me historiadora! Durante os folguedos do recreio corríamos feito cabritos e fazíamos brincadeiras de roda e pega-pega. Uma vez eu estava brincando de pegar com colegas, e um menino ousado se jogou na minha frente de modo que tropecei e me embolei com ele pela grama. Foi uma zombaria geral: eu era uma menina e era esperado que tivesse bons modos, o que significava brincar só com meninas. Este fato rendeu falatórios pela Vila e minha mãe foi chamada para conversar. Eu chorava porque sabia que não tinha culpa, ele que tinha se jogado na minha frente, e a mãe me defendeu. Tem coisas que a gente não esquece porque marcam e ficamos remoendo.

Toda gente da Vila se conhecia e sabia-se de tudo o que acontecia pela redondeza.  Aos domingos as famílias tinham o hábito de ir, a pé ou de aranha – carroça – para os terços ou missas. Era comum que, depois do ritual religioso, das prédicas e cantorias a Nossa Senhora Auxiliadora, as pessoas se reuniam para conversar. Os homens reuniam-se na venda, ou jogavam bocha ou truco, e em geral ficavam até bem mais tarde nos seus convescotes masculinos rindo alto, bebendo e jogando.

Nessas ocasiões, “as mulheres acordavam muito cedo para ordenhar as vacas de leite antes de sair para a Igreja, e sempre tinham pressa de voltar para fazer a comida”. Mesmo assim “algumas aproveitavam  para comprar  sal, trigo, querosene, açúcar, linhas de costura ou algum tecido”, e era quando “conversavam e se inteiravam dos acontecidos na comunidade, ficavam sabendo dos partos, noivados, doenças, lavoura e horta, criações, costuras e contando as peripécias dos filhos na escola”, lembra a mãe. As notícias circulavam.

Tanto na época em que minha mãe frequentava a escola e mais tarde quando eu estudava, professoras e professores eram uma referência, eram respeitados na comunidade e, por ofício, tinham ciência de tudo o que acontecia no dia a dia de seus pupilos. Se as mulheres eram mais controladas do que os homens, sobre as professoras recaía ainda mais a cobrança do recato, de acordo com os costumes aceitos socialmente. Tinham por dever serem exemplares.

Das mulheres esperava-se, e cobrava-se, compostura e que fossem honradas e contidas nos seus desejos – evidentemente, o exercício da sexualidade só era aceito com o casamento. Os homens escolhiam se casar com moça de boa família, dentro dos preceitos do catolicismo. Da noiva esperava-se que levasse o enxoval – roupas, talhas, lençóis, utensílios de cozinha e a peça que não podia faltar: a máquina de costura.

Sobre os homens não havia o mesmo tipo de controle e nem as mesmas rígidas regras e cobranças com o corpo e a sexualidade. Era assim. Esses costumes eram guiados pelo catolicismo fervoroso que punia qualquer mulher que caísse na tentação da carne. Na cultura, as prescrições de gênero se reproduzem, estabelecendo funções e condutas diferentes para eles e para elas.

Foto: arquivo pessoal

A professora Lourdes era de uma família conhecida por todo o vilarejo e também fora dele. Seus pais eram proprietários da venda – casa de comércio – e lhe oportunizaram os estudos. Formada, passou a ministrar aulas e casou com meu tio Arno – irmão de meu pai – e tiveram dois filhos. Sinto tanto que tia Lourdes e tio Arno nos deixaram tão cedo. Tanto, tanto. Dela, guardo o sorriso e os cuidados, tanto quanto a oportunidade que tive de ler que ela me deu quando trouxe mais livros para que eu pudesse sonhar!  Numa fotografia, a única que possuo, está feliz e sorridente ao lado do noivo/marido junto com a sogra, Delinda Brilinger de Fáveri e da sua mãe, Vitória Olivo Bonotto, ambas já viúvas. É uma imagem rara, captada em frente da igreja de Vila Maria. O ano era 1971.

Essa referência à minha primeira professora é uma ode a elas: quantas delas passaram pela experiência de lecionar em escolas rurais e, com os escassos materiais de que dispunham, davam conta da arte de propor caminhos a tantas crianças na profissão de ensinar e educar? Quantas se embrenharam pelos rincões do rural profundo e ali depositaram sua força para costurar asas em pequenos seres que, como eu, sonhavam com um mundo de conhecimento e com uma futura profissão? Quantas foram deslocadas da cidade para vilas do interior com a função de ‘abrasileirar’ pequenos ítalo-germânicos que sequer falavam português, durante o Estado Novo?

Eu não teria feito de um papel em branco um desafio, não fossem professoras e professores na minha vida. Desde segurar um lápis, soletrar, escrever, ler, interpretar, pensar, decidir, argumentar foram aptidões que devo às mestras e aos mestres. Como não os valorizar? O dia dos mestres são todos os dias. “Os melhores professores que tive, aqueles que mais me ensinaram coisas realmente importantes, sempre foram poetas, ainda que não o soubessem” – mesmo, Viegas Fernandes da Costa. Aprendi a tecer poemas como arma das mulheres que não eram ouvidas, e fiz deles luta pela Educação e pelo Feminismo.

Nestes tempos obscuros, a sanha de um governo que almeja excluir a maior parte da população do acesso à educação pública, universal e gratuita é potencialmente criminosa. Negar recursos permanentes para a educação fundamental, para escolas técnicas e para a educação superior é desmerecer os desafios a serem enfrentados no presente e no futuro. Professores e professoras exercem seu ofício com ética e responsabilidade: lidam com vidas e abrem caminhos para que estas reflitam e façam escolhas.

A obstinação em defesa do neofascismo, do terraplanismo e do fundamentalismo revela-se nas raízes ideológicas contra a Educação brasileira. Desqualificar docentes como profissionais, retirar seus direitos e perseguir os que lutam por melhores condições de trabalho e por dignidade é um agravo imperdoável. Este embuste que massacra a classe trabalhadora docente se nega a reconhecê-la como imprescindível para a construção de uma sociedade mais justa e para o preparo das gerações futuras, é uma afronta e uma agressão a toda Nação.

Dedico esta crônica às professoras e aos professores que, mesmo com tantas adversidades, acreditaram, e continuam a acreditar ser possível um mundo melhor através da educação inclusiva e emancipadora – viva Paulo Freire!

De ontem e de hoje, cinco gerações:  Antonieta de Barros, Valentim Spillere, Lourdes Bonotto de Fáveri, Claudete Mittmann e Luciane Carminatti – meu respeito e gratidão!

#Educação #Professoras #Professores #DefendaaEducaçãoPública

Marlene de Fáveri, 18 de outubro de 2020. Turvo/SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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