Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (27) – ou de poetas, poesia e sonhos de revolução

Postado em 13/09/2020, 11:09

Domingo, treze de setembro de dois mil e vinte. É dia treze 13, número da cidadania! A semana começou com o dia da Pátria, o que era respeito e pertencimento, hoje tem sentido ocre. Matam o gosto que tínhamos de sermos brasileiras, brasileiros. São tantos os atos corrosivos e devastadores praticados por este governo que nos envergonha, beirando mais de 130 mil corpos que eram vidas, os tais lesa-pátria ainda chamam a doença de ‘gripezinha’. Um acinte. Repito: um nacionalicídio.

Na clausura, e porque sair de casa em Florianópolis é arriscar-se, nesta semana dediquei-me aos meus escritos, guardados em mil páginas ou mais, numa tarefa hercúlea de organizar e separar poemas e contos e quiçá publicar uma parte. Dentre as caixas, uma delas enunciava a inscrição GPEMQ. Senti as pálpebras se juntarem. Abri devagar, pressentindo que ali me demoraria. Caprichosa, como sempre é, a memória se desvia num caminho de retorno e as imagens pulam, como se previssem a ternura que me cairia de chofre. Ali estava o primeiro livro da minha vida: um livreto de poesias com capa e feitura artesanal, em papel A4 dobrado em vinte páginas e intitulado Santo Corpo.

Larguei o que pretendia fazer para me encovar nesses papéis. Abro o livreto: “Casa da Cultura de Itajaí – Grupo de Poetas e Escritores Mário Quintana”, datado de abril de 1989.

Ah, essa memória tem cheiro, cor, lugar, tempo e textura, estavam ali os anos de efervescência cultural e dos sonhos de mudar o mundo através da arte!

Foto: arquivo pessoal

Explico! Quando mudei de Florianópolis para Navegantes, em 1985, logo me enturmei com um grupo ecológico chamado Movimento Verde. Através desse grupo – Maurício Hostim, obrigada! – entrei em contato com artistas da cidade de Itajaí, que resistiam ao caos econômico pós-ditadura militar, que vinha adquirindo contorno ainda mais dramático no governo Sarney. Em tempos assim, sabemos, urge a necessária resistência através da arte e da cultura.

A convite de Toni Cunha, incentivador das artes e cultura, passei a expor poemas no varal poético da Casa da Cultura de Itajaí. Conheci poetas, escultores, artistas do teatro e da música e, dentre estes, Bento Nascimento, professor e poeta com alma de anjo. Mas era como se o território da escrita ainda fosse somente dos homens e isso me incomodava. Embora o Feminismo já denunciava a exclusão das mulheres na provinciana Itajaí, estes temas passavam ao largo.

Naturalizações impregnadas impediam que a voz das mulheres tivesse eco e não havia escuta para nossas vozes.

Então, eu escrevia compulsivamente contra todas as formas de domínio a que éramos submetidas – já disse noutra crônica que nesses anos eu me comovia com as histórias de medo, dores, danos, tensões, submissões e violências sofridas por mulheres camponesas. A isso juntava minha fúria já internalizada com as descobertas de um mundo nada fácil quando saí do interior e me embrenhei na capital para fazer a faculdade.

Aconteceu que Júlio Andrioni e Orlando Ferreira me convidaram para formar um grupo de poetas. Como não aceitar? Se eu procurava um lugar para me expressar. Logo Nassau de Souza juntou-se a nós e assim foi criado o Grupo de Poetas e Escritores Mário Quintana, em homenagem ao poeta passarinho.  O ano era 1988. Rogério Muller e Jean Reinert entraram no grupo logo depois.

Foto: arquivo pessoal

Foi o início de minha libertação! Era um grupo composto por homens e eu, a única mulher.  Nassau, dia desses, contou-me que, na época, de uma conversa entre eles: “Eu lembro que eu falei ‘olha, a Marlene é uma colega, é mulher e nós somos todos homens, ela é alguém igual a nós e que vamos respeitar como tal, como integrante do grupo sem diferença nenhuma. Vai ser nossa irmã de letras’ e foi assim”, disse ele. Bem verdade, não houve uma palavra sequer de desrespeito, pelo contrário, fui acolhida como igual, e no coletivo minhas ideias eram ouvidas e debatidas e tinha o mesmo espaço que eles em todas as ações e publicações.

A isso chamei de liberdade: podia me expressar! Porém, eu não esquecia que as violências contra mulheres e meninas era cotidiana, incontingente e eu sofria, sofria… então escrevia.

Entreguei-me com mais furor ao ofício de brincar com letras, espremer palavras e construir frases e versos que exprimissem as angústias das mulheres. Éramos seis os quintaneses, como a imprensa chamou na época, e no entorno do grupo reuniam-se escritores amadores, poetas de diferentes vertentes estéticas, artistas de todas as criações – mulheres começavam a se engajar na resistência: Valéria Oliveira, atriz inspiradora, declamava meus poemas. Outras parceiras vieram de mansinho e passaram a cometer os bons pecados da resistência. Como foi boa nossa procura!

Foto: arquivo pessoal

Durante os três anos seguintes, fervíamos nas críticas às estruturas de poder. “Lamento as atitudes do sacerdócio, principalmente, a existência dos padres, podres…”, um poemeto de Júlio, sempre mordaz. Ousamos – e que ousadia! – ao lançar o Manifesto do Ultra-Realismo e com ele o Ultrajornal, “o primeiro jornal do ultra-realismo”! Nesse manifesto, repugnávamos todos os tipos de censura, defendíamos a liberdade de expressão, a paz mundial, a preservação do meio ambiente e a dignidade humana contra todos os preconceitos. Protestávamos contra qualquer forma de violência e denunciávamos negligências aos direitos universais do homem.

Hoje, nesse manifesto, eu acrescentaria “e das mulheres”, mas à época a linguagem no masculino era tão naturalizada que nem nos alertávamos. Mas, estava implícito e explícito nos argumentos, pois minha coluna no jornal se chamava “Seios e Anseios” e ali expunha meu feminismo.

Construímos um grupo sólido e não passava uma semana sem que houvesse eventos literários como: recitais, performances, varais poéticos, noites da poesia, saraus e outras atividades artísticas. Participávamos de festivais, íamos às escolas e até promovemos um concurso de poesia. Éramos notícia constante nas páginas culturais da imprensa local e estadual.  Circulávamos também nos espaços da Univali, no Museu Histórico, nos bares e na Casa Aberta. Um sebo/livraria anarquista onde Beto Severino acolheu-nos como irmãos de arte. Também fazíamos varais literários e performances nas edições da Marejada (festa açoriana em Itajaí). Onde podíamos entrar, ou mesmo invadir, lá estávamos – por uma boa causa!

Foto: arquivo pessoal

Lembro que, era dezembro de 1989, numa Mostra de Artes no Clube Guarani, uma atriz declamou com ardor um poema meu que denunciava o machismo. O diretor do clube interrompeu o espetáculo e nos expulsou. Motivo: duas palavras do meu poema puta e fode. Este:

O filho que suga teu peito, Mulher,
não sabe o horror que tu sentes
Quando aquele que chega
Travado da pinga, te bate, te chuta
Te chama de puta, te rasga e te fode,
tomba ao lado e dorme… babado.
E tu, mulher, a alma em bagaço
a carne em trapos, entregas teu peito
ao pequeno que chora. Tua única
lágrima rola… e cai.

 Esse episódio rendeu falatórios. No Clube, elitista e com histórico de racismo, não convinha falar palavras feias… Um jornal local esculhambou o poema por considerar- ló “impróprio e censurável”. Fiz um poema-resposta, pois! Mas não publicaram… Porém, o Diarinho um jornal local que nos apoiava, relatou o ocorrido, publicando, inclusive o poema.

Tínhamos o sonho de alcançar as mentes para mudar relações através de nossa arte. Não esmorecíamos: batalhávamos inutilmente alguns patrocínios, mas mesmo na penúria fazíamos publicações alternativas de livretos e panfletos. Nassau fez experimentos de poesias em computador, absoluta novidade à época, uma preciosidade entre os meus guardados! Xerox custava caro, então cada qual encontrava um jeito de duplicar os poemas para os varais. No mais, era tudo artesanal, como foram os primeiros números do Ultrajornal.

Depois, com o apoio do Diarinho, as últimas edições foram impressas, inclusive com fotografias. Que luxo!! Numa delas, lemos: “Construiremos o Ultra-realismo a marteladas… Chega de machadadas de Assis!” Sonhávamos! Nosso ofício da arte, se criativo, exigia a espremedura – “A palavra é pedra no sapato do poeta”, abreviou Nassau sobre os tremores/temores da escrita. Também fazíamos coro com a classe artística: “Itajaí precisa de um teatro!”, bradávamos.

Foto: arquivo pessoal

Queríamos mais. Queríamos que o público refletisse sobre o momento político e social que o Brasil atravessava, por meio de poetas performáticos e intervenções urbanas. Em parceria com o Ensamble Produções Teatrais, o grupo produziu uma série de recitais poéticos que foram apresentados em escolas, teatros, espaços alternativos e praças públicas. E, a convite, o grupo percorreu outras cidades: Navegantes, Blumenau e Balneário Camboriú, mas foi no Festival de Teatro Amador de Piçarras que recebeu o Prêmio de Melhor Montagem e Melhor Atriz, vivido por Melize Zanoni, com o recital Ecologia Ultrarrealista. Rogério, ácido nas palavras, bradou: “As cidades tornar-se-ão verdadeiramente limpas quando os lixeiros recolherem das ruas os seres humanos”. O ambiente era uma de nossas pautas permanentes.

Eram tempos de efervescências. Mas mudanças políticas agouraram nossos planos e sonhos. Em 1990 foi eleito Fernando Collor e o país chafurdava na inflação galopante e na miséria social. Nossos projetos para uma coletânea poética, dentre outros, foi estrangulado pelas dificuldades e tivemos que abortar nossos planos.

Cada um foi para um lado, sobreviver à fúria capitalista. “A burguesia é o ácido sulfúrico da humanidade”, espumou Orlando. Sabíamo-nos ali e acolá, e hoje, três décadas depois, achamo-nos!

Naquele ano de 1990, Júlio, Nassau e Orlando foram, de ônibus, para Porto Alegre com o objetivo de entrevistar o poeta nome do grupo, Mário Quintana. Foi um acontecimento! Trouxeram na bagagem, além de fotografias e livros, o que de mais rico temos de nosso poeta gaúcho: uma dedicatória que diz “Para o “Grupo Mário Quintana”, com um grande abraço de confraternização aos poetas do mesmo nome. Mário Quintana, 14/07/90”.

Foto: arquivo pessoal

Quatro anos depois, o poeta partiu. “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Ele, enfim livre, a descasar os pés. Nós, órfãos de sua presença, mas inebriados com sua grandeza. Jean se comove: “Se morrer a poesia, morre a esperança, a natureza e também a beleza da mulher amada. Se morrer a poesia, morrerá a vida”, ao que concordo.

Na edição do Ultrajornal de julho de 1990, colocamos uma cruz e um comunicado: “Falecimento – 1990 – da Cultura no Brasil”. Conseguimos publicar mais uma edição no ano seguinte, foram nove os números publicados, com uma coleção depositada no Arquivo Público de Itajaí – mas os famigerados planos econômicos nos afogaram. Sabemos: só saímos do fosso quando elegemos governos democráticos – que voltaremos e eleger, porque podem nos furtar as rosas, mas a roseira está bem plantada na alma da gente!!!!

Sobre o livreto Santo Corpo, guardado por tantos anos, é documento que conta parte de minha história e a de um grupo de jovens sonhadores que queriam mudar o mundo. São poemas que gritam, esperneiam e denunciam, mas também resistem: “Não te escondas, mulher, por detrás das cortinas, lavando latrinas e dizendo amém”.  Ele abre com o poema Santo Corpo:

Santo corpo de carnes cruas,
Despe tuas curvas e
Deixa nus somente os olhos.
Púbis, pernas, seios, pelos,
Ventre, fortaleza do ovário,
Sacrário da procriação.
O alimento mais caro
Brota do peito,
Seios de Vênus.
Pernas que marcham
Braços que embalam
Mulher, corpo santo,
Mulher, santuário.

Vivi essa história, e me aprendi/afirmei feminista também na experiência da poesia. Pude, mesmo que num lugar marginal, expressar-me, declamar, gritar – como também o fiz em Nova Prata/RS, na rua, durante o 2º Congresso Brasileiro de Poesia em abril de 1991, bem assim:

Foto: arquivo pessoal

Hoje, retomo a poetisa em forma de cronista e acrescentando a historiadora, ou a poetisa que virou historiadora e agora escreve crônicas – ou tudo isso misturado – e sigo no labor da escrita entre memória e história. Escrever é também um exercício de coragem.

Nós, do grupo, prometemos recentemente que faremos acontecer a coletânea dos quintaneses.  Sim, faremos! Hoje, revendo este material – ou fontes, para historiadores/as – percebo um rico e farto acervo a ser explorado, um escândalo de bom!  Alguém se habilita??? Aproveitem que estamos vivos – eles – e, viva – eu.

Saibam, Juca Batschauer, Toni Cunha, Carlinhos Batista, Bento Nascimento, de onde estiverem, que nós continuamos aqui, brigando por um mundo onde caibam todos os mundos. Viventes e esperançosos com este legado de arte e fúria.

Foto: arquivo pessoal

“Tão bom morrer de amor! E continuar vivendo…”, sim, Mário Quintana.

Marlene de Fáveri, 13 de setembro de 2020. Florianópolis.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri