Arte: Dani Acioli

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (24) – ou a violação de sonhos e corpos

Postado em 23/08/2020, 15:42

Domingo, vinte e três de agosto de dois mil e vinte. A vida segue à espera do devir que não chega: nada muda e o receio de um contágio só piora. Chuvas largas e um frio cortante baixou no sul do país, tanto que as alfaces ressecam com o gelo das madrugadas fechadas de neblina. As galinhas se amoitam e se coçam como se esperassem uma catástrofe. Dia desses fiz um poemeto ocre: “Chove. Dilúvio de lágrimas. Troveja. Grito antifascista. É agosto. Que gosto tem o mês de agosto?”. Ivone, a amiga dos tempos de colégio, respondeu em versos que agosto tem gosto de saudades. As dela. E as minhas.

Não me lembro de um mês de agosto tão friorento, tétrico e com tanto desgosto. O seboso invisível se esconde, mas sei que ele existe e pode estar bem ali no meu caminho. Tem o poder de me fazer desviar de pessoas e, se bobear, me calar para sempre. Passam de trezentos os casos confirmados do covid-19 em Turvo. Ah, que bom seria estripar e extirpar para todo o sempre esse inútil num ferrolho em brasa.

Passei a semana entre conversas com minha mãe e os afazeres do cotidiano, misturados a uma ira a borbulhar meu fígado, tal qual uma pintura do inferno de Dante. Não bastasse o medonho sinistro a nos espreitar – o caos de uma crise política, econômica e de valores no país – fomos assaltadas pela notícia de um crime hediondo: estupro seguido de gestação de uma criança-menina.

Acompanhamos as reportagens sobre os crimes sexuais cometidos entremeadas com a estupidez protagonizada por gente mórbida que chantageou a família da criança-menina. Pasmem! Além disso, a mando da (des) ministra que é uma ignorante de tudo. Uma calhordice de pessoas desprezíveis que tornaram o caso de violência extrema numa briga ideológica e religiosa. Haja fígado!

Mesmo que uma equipe médica tenha feito cumprir o direito reprodutivo, conforme instituído na lei, assistimos a um teatro do absurdo. A criança-menina foi amaldiçoada por pessoas que se dizem cristãs, em nome de um deus. Se existe algum deus, seria ele tão pérfido a ponto de amaldiçoar uma criança violentada?  É uma situação atordoante e hipócrita, como bem ouvimos na fala do médico, revelando o lado preconceituoso e pérfido de uma sociedade desigual. Pior, o violentador não existe para esses fundamentalistas ignorantes.

Retrocedemos ao medieval, tempo de bruxas e demônias culpadas por serem meninas-mulheres. Malditos os violentadores, e aqueles que os defendem, criminalizando as mulheres.

Nunca se falou tanto sobre violências de gênero, abusos sexuais e direitos reprodutivos mas nunca fomos tão aviltadas. Quando um homem público, nada menos que o presidente, faz apologia ao estupro, o que pensar dessa tragédia?? A declaração de que a deputada não merece ser estuprada, “porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria” entrou para os anais mais podres deste país. Os canalhas estão soltos.

Comentei com minha mãe a reportagem do Portal Catarinas sobre a saga da criança para fazer o aborto legal. “Porque deixar a menina sofrer?” – disse ela, supondo a estertorante agonia da criança-menina que com menos de uma década de vida foi vítima de um crime pérfido que expõe as vísceras de um cancro social machista e estrutural nesse país.

Minha mãe se ressente quando machucam, descuidam ou fazem com que crianças sofram. Eu disse a ela que muitas meninas passam por essa violência e que, no Brasil, a cada hora que passa quatro crianças de até treze anos são estupradas, mas o verdadeiro número deve ser muito maior porque grande parte dos casos não são denunciados. Pois, há uma enorme subnotificação no país inteiro. Expliquei, que só no ano de 2018 houve 66 mil vítimas de estupro e a maioria foram de meninas de até treze anos.

O aborto inseguro, aquele realizado sem informação qualificada e em condições sanitárias inadequadas, é a quinta maior causa de morte materna de mulheres em idade reprodutiva.

Só nos últimos quatro anos mais de 130 mil crianças nasceram de meninas com menos de 14 anos. Na média registrada no país, ocorrem cerca de sete abortos por dia como consequência do estupro de crianças e adolescentes. A violação dos direitos humanos de meninas e mulheres é cauda de grandes sofrimentos.

Ela ouviu atenta, expressou um olhar sombrio e disse: “Esses homens que fazem isso teriam que ser castrados, ou deixar na cadeia até morrer. Pensa que é só com aquela menina que aconteceu isso? Muita gente esconde, eu sei”. Sei sim, mãezinha, os silêncios mortificam mulheres e crianças, escondendo suas dores, segredos e medos.

Os homens dos quais minha mãe se refere são os que violentam mulheres e meninas. Ela cresceu como eu, ouvindo histórias de mulheres assassinadas e que se tornaram mártires por salvaguardarem a virgindade e de que “gli uomini sono tutti bruti”. Do imaginário vivo de representações passadas de mãe para filha e para a neta, me pergunto: De onde vem essa sinalização de que os homens são todos uns brutos? Que experiências foram essas que experimentaram e silenciaram?

As religiões – ópio do povo – apregoam que as mulheres devem obedecer, submeter-se aos mandos dos homens e calar diante dos abusos sexuais e violências. Tudo era dito sob a ameaça do inferno: a elas, o dever de obedecer e procriarem; a eles praticar seus direitos sexuais e patriarcais sobre elas. Doloroso é que esses discursos continuam sendo reproduzidos nas prédicas de pastores e padres com argumentos pífios. Puras blasfêmias.

Até bem pouco tempo, o estupro era considerado crime contra os costumes, mas se o agressor casasse com a vítima era perdoado perante a lei. Evidentemente, a mulher ou menina não podiam opinar.

Se uma moça não se casasse já era motivo suficiente de vergonha, mas se essa filha tivesse sido vítima de violência sexual e não casasse com o agressor, era na maioria das vezes banida da sociedade e renegada pela família. Assim, o casamento convertia-se em honra da mulher e da família. Mulheres e meninas eram propriedade do pai ou do marido numa sociedade profundamente patriarcal. E a violência sexual era e ainda é exibida como culpa atribuída a nós mulheres.

Estuprar – do latim stuprare – é obrigar alguém a ter relações sexuais através do uso da violência. É violar, profanar, desflorar, desonrar. Dentre os crimes hediondos, violar o corpo de outrem é o mais repulsivo.  Georges Vigarello, historiador do corpo e suas representações, foi em busca da história do estupro ao longo dos últimos quatro séculos. Observou os limites da tolerância em relação a violência sexual e o percurso desse crime irreparável, que ao atingir o corpo, atinge assim, a parte mais incorpórea do ser humano. Os arquivos judiciários estão repletos de processos que, na maioria das vezes silenciaram (como continuam silenciando) as vozes das vítimas.

A historiadora Eva Lúcia Gavron intitulou Dramas e danos: estudo das vítimas de crimes sexuais na região de Florianópolis (1964-1985) Nesses documentos, ainda soam gritos de dor e desespero. Como foram os gritos da criança-menina, foco dos noticiários na última semana.  Como de tantas outras, ignoradas e silenciadas.

Os violentadores? Deles pouco se fala. É como se o direito de estupro fossem outorgados a eles, para que se sintam machos e lecionados para a posse e o domínio das mulheres. Teresa Kleba Lisboa exalta: Onde estão os homens responsáveis pelos estupros de mulheres e meninas? E responde: “As meninas e mulheres que recorrem à interrupção legal ou ilegal da gravidez o fazem porque ou foram violentadas, estupradas por homens – pais, padrastos, tios, primos, avôs, padres, pastores entre outros, ou estão diante de uma incapacidade de assumir a maternidade em um determinado momento de suas vidas. São milhões no mundo e pertencem a todas as esferas de idade, classe social, raça/etnia, religião, condição conjugal, território ou outra condicionalidade”. Somos todas culpadas?

Tenho absoluta certeza de que somente com uma educação de gênero e sexualidade teremos um futuro sem violências sexuais contra meninas e mulheres. Por uma educação aos meninos sem toxidez. É imprescindível que adolescentes (meninas e meninos) tenham contatos com estes temas, que aprendam os limites da convivência e do respeito.

A escola como o lugar de aprendizados no coletivo deve ser também de cuidados e de proteção de crianças e jovens.

Um corpo violado fica marcado para sempre. Desumanizado, silencia. O dano é irreparável. As cicatrizes da violação voltam a abrir, sangram num disparo da memória. Imagens que, por um filete, vêm e puxam um cordão do tempo como se ele nunca tivesse ficado no passado. Assim é a memória da dor. Sabemos que é como um rasgo silencioso na cúspide da alma.

Eu não fui estuprada, mas estive em sérios apuros algumas vezes por assédios e violências de gênero. Lembro que tinha uns quinze anos – sim, na época não tínhamos informações e eu era de uma inocência de dar dó – estava encantada por um rapaz e estávamos nos conhecendo. No baile da comunidade rural dançamos, conversamos e ele disse gostar de mim e queria me namorar. Eram os primeiros sentidos da sexualidade e eu nunca tinha visto um ato sexual o que eu conseguia imaginar, eu temia. Que falta me fez aprender sobre gênero e sexualidade naqueles anos escolares! Bem, depois de termos dançado, ficamos de mãos dadas.

Então, ele me convidou para ir buscar algo no carro – lembro-me bem, era um fusca azul. Me convenceu a entrar no fusca e ouvir música. Senti carinho e entrei. Assim que entrei ele deu partida no carro. Assustada, disse que não queria ir a lugar nenhum. E ele insiste: “Vamos até o posto de gasolina e voltaremos logo!” – naquele momento, pensei que podia confiar. Só que não! Ele entrou numa estrada no meio de um milharal, parou o carro, me abraçou e disse: “Se tu me amas, quero uma prova de amor”.

Eu nem sabia o que seria uma prova de amor, me retraí e me abracei em mim mesma como proteção e o repeli. Ele se enfureceu, me empurrou para o banco de trás, me imobilizou pelos braços e subiu meu vestido. Eu gritei, mas ele disse que eu podia gritar que ninguém iria escutar. Fez movimentos em cima de mim, enquanto eu chorava e me debatia. Disse aos gritos que não queria aquilo, que não o amava, que era virgem e sentia medo. Não sei qual dessas três frases fez com que o pênis não endurecesse e ele broxasse. Esbravejou. Soltou-me e me disse: “Viu o que tu fizeste comigo? A culpa é tua! Vamos voltar e suma de perto de mim”. Voltamos para o salão do baile e fiquei num canto esperando a carona para voltar. Silenciei. Por anos senti vergonha de mim e culpa por ter confiado. Sempre que passo por esse lugar – é o caminho que faço para a casa da mãe, me vem à memória essa violência. Ele? Nunca mais o vi. Sei que casou, teve filhas, é funcionário público e tem amantes – se sabe de tudo numa cidade pequena.

Não fui estuprada, mas mesmo assim ainda toca fundo essa história de minha adolescência. Assim, como outras que tive. Tempo depois, ouvindo outras mulheres, conheci tantas histórias de dores, medos, culpas, violências, sofrimentos, segredos e silêncios que tive uma certeza: meu lugar combatente seria de denunciar e gritar a infame servidão e a posse dos corpos sem permissão. Histórias de crianças e jovens no ensino fundamental, alunas e alunos, me contaram suas tragédias. Histórias de mulheres, singulares, mas que na dor se encontram sob os dilemas impostos pelo patriarcado, experiências permeadas de toda a carga de desqualificação feminina.

Estupro e aborto. Um é ignorado, silenciado e ocultado. O outro, criminalizado e revitimizador atráves da culpa. Tenho certeza de que, ao lerem estas linhas se abrirão cicatrizes, porque é difícil encontrar uma mulher e mesmo meninas que não tenham sofrido alguma violência sexual. A dor da criança de que falamos nesta semana mostrou a face sórdida do machismo torpe que viola sonhos e corpos. Tomo a fala da professora Karoline Kern: “O corpo, o nome, a história… nada, simplesmente nada, foi respeitado nessa menina. Uma menina! Uma criança! E o tal tio? Cadê? Queremos justiça, para as meninas, para as mulheres.” Sim! Queremos justiça para ela e para todas nós.

Dedico esta crônica às crianças-meninas, pelo direito de todas à dignidade. Que possam voltar a sorrir e que mais nenhuma seja coagida e roubada dos seus sonhos. #GravidezAos10Mata

Marlene de Fáveri, 24 de agosto de 2020. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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