Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (23) – ou sobre os saberes das mulheres

Postado em 16/08/2020, 15:43

Domingo, dezesseis de agosto de dois mil e vinte. Quando voltar para minha casa em Florianópolis vou sentir falta dos tropeços no Guevara e Tchê e dos olhos manhosos querendo colo e comida. Estão sempre cruzando meus passos tanto que já me acostumei. Sentirei, ainda mais, saudades de minha mãe. A gente se apega em afetos e cuidados, isso nos move e nos dá esperanças.

Minha mãe e eu continuamos com nossa rotina, só quebrada por algum acontecimento, como este no dia dos pais: fomos ao cemitério no porque minha mãe queria ir – como se fosse dizer ao meu pai que não o esquecemos. Sem palavras. Tem coisas que a gente nem arrisca uma explicação, embora teria muito o que dizer do patriarcado. Sem palavras de novo. Então quero dar todos os abraços que ela não teve. Cuidar e amar.

Nesta semana me excedi (de novo!) na enxada e no restelo e tive uma dor canibal nas costas. Suponho ser por conta da idade: meus dezenove estão longe!  Vou ajeitando o jardim enquanto aguardo seu Aires, o jardineiro,  melhorar. Todas as manhãs lido com uma parte do entorno, suo bastante e assim amenizo minhas saudades e ausências. Furei um dedo no espinho de pé de limão, justo um dos indicadores com o qual digito. Mas trago outras pequenas cicatrizes por encostar em algo perfurante, um espinho traiçoeiro ou mordidas trapaceiras de mosquitos enormes. Odeio mosquitos; que me perdoe a sociedade que protege animais. Também plantei couve chinesa, hortaliça de que minha mãe gosta: espero colher essas couves quando já estiver vacinada e livre… espero!

Até às galinhas dei nome!  Meu irmão salvou uma delas que fugia apavorada dos dentes de cães. Por desconhecer o dono e não saber o que fazer com ela, trouxe-a para a casa da mãe. Soltamos no cercado para conviver com as amigas. Mais tarde ouvi uma barulheira e cacarejos de desespero: era a novata sendo acuada, bicada e impedida de comer milho. Que malvadeza! Separei a penosa, que chamei de Carijó, dei água, verduras, milho e vi que ela acalmou. Dia seguinte a soltei e fiquei de olho: dois galos rinharam como inimigos mortais. O vencedor a perseguiu, agarrou e a possuiu como transam os galináceos. Desgraçado súdito do patriarcado, pensei. Que coisa! O isolamento social deve estar cutucando meus miolos para ficar vigiando a vida sexual das galinhas! Já implorei às ciganas e santas das pestes o fim desta moléstia infame. Elas estão demorando.

Foto: arquivo pessoal

Na quarta-feira passei por um susto: sempre depois do almoço minha mãe dorme. Como eu estava cansada por acordar muito cedo e ainda com o corpo dolorido, peguei no sono. Acontece que acordei com minha mãe do meu lado, toda satisfeita. “O que foi, mãe? Aconteceu alguma coisa?”, perguntei. “Ah, eu fui no Patinhas (supermercado) e fiz compras”. Dei um salto. Quando penso que ela entendeu que não pode sair de casa, a não ser comigo e por uma urgência… Mas duvidei que fosse verdade, porque sua memória se atrapalha. Fomos para a cozinha e havia uma montanha de caixas com todos os produtos que já tínhamos em casa. “Mas olha, eu fui sozinha e trouxe tudo o que pode faltar com essa doença que está por aí… Mas eles me trouxeram em casa”. Crédula, de imediato providenciei seu banho e roupas limpas, higienizei os produtos. “Mas como é que senhora me sai, com chuva, caminhando até lá enquanto eu dormia? Como fez isso comigo, fugir de casa assim? E o perigo que correu?  A senhora usou máscara? Passou álcool gel?” – respondeu que não lembrava se foi de máscara e como fez.

Com muita paciência e cuidado, conversei, expliquei mais uma vez os riscos de contaminação, pedi que por favor e por mim que não faça mais isso. Ela me olhava, séria: “Mas eu não fugi! Sou dona de mim, eu queria ir e fui”. A abracei de modo que não percebeu meus olhos úmidos. Fui para o jardim respirar.

O cotidiano tem coisas que não se explica sem senti-las na pele e nas veias. Não existe realidade sem o cotidiano, este lugar do devir ou do vir a ser a partir das experiências. Do latim devenire, pode ser lido como tornar-se diferente do que era antes, movimentar-se. No sentido mais comum, cotidiano seria a esfera privada da vida onde acontecem as rupturas – como está sendo na pandemia – mas principalmente permanências de costumes, hábitos, gestos e práticas culturais.

A historiadora Maria Odila Leite da Silva Dias mostra que, se no cotidiano encontramos as salas de visita e arranjos florais, é principalmente nos lugares de sobrevivência como nas cozinhas, nas oficinas, nos lavadouros, no entorno das casas que estão os conflitos, táticas, estratégias e astúcias para a reprodução da vida.

Este lugar sempre foi e é das mulheres que viveram e vivem nas franjas do sistema e em geral sob o controle de um patriarca. Todavia, elas não foram e não são sempre passivas ou submissas, e “se afirmam por outras palavras e outros gestos”, na percepção certeira de Michelle Perrot.

Esse cotidiano como lugar do devir encontro nas atitudes de minha mãe. Ela foi ao supermercado para providenciar a reprodução da vida se acaso faltar comida “com essa doença que está por aí”.  Recordo das tantas vezes que a vi tarde da noite ordenhado vacas, colocando galinhas para chocar ovos, trazendo para a cozinha um cesto de verduras e tubérculos que colhia da horta, buscando lenha para o fogão. Lembro-me dela pilando arroz para fazer a minestra, costurando nas madrugadas à luz de lamparinas, lavando roupas antes do nascer do sol. O dia era para os trabalhos da roça; a noite, para a casa, num labor silencioso e quase sempre considerado não trabalho.  Assim era o cotidiano das mulheres camponesas da geração de minha mãe. E ainda é para muitas delas.

Foto: Arquivo pessoal

Uma cultura de economia e muito trabalho lhe faz falta, como se a vida fosse só sua reprodução através do trabalho árduo, estafante e utilitário. Sair para comprar alimentos foi um trabalho que a gratificou, e se tive um ataque foi por medo da contaminação pela Covid-19 mais do que pela sua travessura. Ela sempre teve que prover a família e tomar decisões: “fugir” foi um ato de liberdade e autonomia. Para ela, um ato de cuidado e preocupação: “Pelo menos agora temos comida para bastante tempo, não precisa mais gastar tempo para ir comprar”, disse, depois que argumentei que não precisava ter ido pois já tínhamos tudo em casa. Tempo, substantivo concreto, tem que ser economizado para a produção de outros substantivos abstratos: explico assim a cultura de minha mãe sobre o tempo e o ritmo. Observo que ela ainda faz tudo correndo… ainda vou falar sobre o tempo.

No cotidiano alteram-se rotinas, mas também ali elas se reproduzem. Se a pandemia alterou nossas práticas e nos trouxe um medo medonho, costumes permanecem. Nesta semana gastamos um tempo fazendo minestra num ritual que conheço desde que abri os olhos. Aos sete anos eu já tinha condições de ficar em casa com os irmãos menores e fazer a janta, enquanto minha mãe ia pra a roça, e todas as noites eu fazia a minestra, cardápio herdado da família de minha mãe, sempre acompanhada de queijo. Uma minestra bem temperada com queijo – me desculpem os veganos, vegetarianos e os que não gostam – não tem preço!

Fizemos juntas. Uma amassava o feijão enquanto a outra segurava um escorredor para separar as cascas até obter aquele caldo marrom escuro (ou mais claro, conforme a espécie do feijão) que vai para a fervura. Enquanto amasso, ela diz: “Tem que amassar bem o feijão e tirar bem a casca, por isso tem que estar bem cozido, bem mole… tu te lembras como é que se fazia, né?”, e passamos a conversar sobre o tempero, o arroz pilado, o macarrão feito em casa.

Lembrei de uma ocasião, era o entardecer, bem a hora de fazer o jantar. Eu devia ter uns oito  anos. Cozinhava o feijão antes para esfriar e manusear. Ao fazer ao macarrão para a minestra, notei que não havia farinha de trigo  suficiente para a quantidade de massa. Pensei numa solução: juntei uns punhados de farinha de milho – que sempre tínhamos em abundância para fazer polenta – terminei a massa, cortei, revolvi com farinha de milho para desgrudarem e coloquei no caldo fervente. Resolvido. Nem pensei no que minha mãe ia dizer. Mas, ao contar minha astúcia, ela disse que eu podia ter feito menos massa, que nunca se usa farinha de milho e não sei mais o quê. Porém, ficou com bom paladar e daí em diante passamos a misturar com farinha de milho. Como a farinha de trigo era caríssima fizemos uma boa economia.

A memória é ousada…  volto ao ritual da comida.  Enquanto minha mãe coloca o macarrão na fervura do caldo, fui na horta buscar a salsa e cebolinhas. Ao voltar, noto que o macarrão ferve borbulhante saltitando no caldo marrom escuro. Ela corta meia cebola e os temperos que vão para uma frigideira com um cadinho de óleo para refogarem.  Sabemos que é hora de colocar o refogado na superfície da fervura, e vai fazer um barulhinho como um txissss bem forte. Pronto. Só provar o sal e deixar cozinhar. “Pode ser feita com arroz, eu faço com arroz também”, diz minha mãe. Respondo que eu também, que gosto tanto quanto com massa.

Preparamos a mesa com os pratos fundos, colheres e queijo na mesa. Comer uma minestra assim, com minha mãe, também é um privilégio. Deu vontade? Fica a receita da nona, que passou para a minha mãe e que aprendi. A pandemia me proporciona estas linhas destes episódios, ou estes episódios nestas linhas… Ah, tem um detalhe: ela cozinha o feijão só com sal; já eu aprendi com Antônio a colocar alho em abundância para cozinhar junto do feijão numa panela de pressão, e fica ótimo!

Não fosse a amaldiçoada pandemia, estar na casa de minha mãe seria uma  viagem nas dobras das memórias gustativas do passado-presente sem medo de nenhum medonho invisível. Mas não é. Em Turvo, somam quase três centenas de confirmados pelo covid-19, uma lástima numa cidade tão pequena. E o país, imerso no alto risco de mortes, a desandar entre intrigas palacianas, discursos tóxicos e descaso com a população. Na verdade, gostaria de soltar  um monte de palavrões desses bem ogros pois não dá mais para aguentar tantas perdas de direitos, entreguismo ao capital e privatizações, corte de orçamentos para educação e saúde, casos de doenças e mortes ignorados, extermínio de jovens e negros, racismo institucional, riqueza acumulada por uns poucos e a fome de tantos, pastores como lobos comendo almas, ministérios sem comando, milicianos posando de honestos e a destruição de parques ecológicos e florestas. Até a água está sendo rifada num país com tantos rios e nascentes. Capitalismo selvagem e necropolítica nas artérias. Soberania? Há, há….

Foto: arquivo pessoal

Tão destrutivos quanto esses tormentos são as violências que sangram e ferem mulheres. Neste mês faz quatorze anos da Lei Maria da Penha, um marco nas políticas públicas para a integridade das mulheres através da denúncia e dos cuidados, e continuamos sob pressão machista e fundamentalista. Umberto Eco disse que o fascismo potencializa relações de poder nas manifestações do patriarcalismo, ou cultua o machismo como forma de virtude.

As mulheres sofrem – não aquelas beneficiadas por heranças e privilégios da acumulação do capital e exploração, ou as que nos envergonham em seus cargos e as estapafúrdias normatizações sobre nossos corpos – desamparadas e ameaçadas na sua dignidade.

O sofrimento tem explicações na estrutura machista e misógina que perdura nesta sociedade que, infelizmente, e deprimente, está sendo açoitada por homens  em cargos com salários de magnatas. Pasmem: há mulheres que os aplaudem e obedecem.

Que estrago para nossas causas tão inclusivas e democráticas: mulheres que escolhem o domínio e negam a sororidade. Tomo de empréstimo a frase de Maya Angelou: “Eu sou feminista. Eu sou mulher há muito tempo já. Eu seria idiota de não ficar a meu próprio lado”. Que idiotice é essa de mulheres não se identificarem com seu gênero?? Negarem o Feminismo?? Lastimo por mim e pelas mulheres de minha geração, mas principalmente pelas gerações futuras que terão como legado uma pátria envergonhada e esbugalhada. Mas também confio nas resistências dessa juventude aguerrida. Força!

O fascismo castra, constrange, deturpa, mente, usa os costumes e as armas, silencia os adversários, nega as crises, zomba dos mortos, cala a imprensa, castra vontades, inventa uma imagem salvacionista que na verdade é justificação para a eugenia e o genocídio. Demoniza as mulheres e persegue quem ousa discordar. Apoio com toda força os movimentos antifascistas desse país que estão sendo perseguidos: me representam.

Nenhuma luta é vã, desde que seja para minimizar as dores do trabalho exaustivo e extenuante que não dá tempo e nem condições de apreciar uma minestra, ou ouvir a chuva, como ouço agora, na noite em que entra a lua nova. Não é em vão denunciar o machismo, o sexismo, a homofobia, o racismo, a aporofobia e os maus tratos que recaem sobre os corpos e o psicológico das mulheres. Estamos vivas e resistentes.

A tal santa Rosália não ouviu a cigana… não sei se espero a providência ou procuro outros hermeneutas que falem com qualquer entidade para que  remova de vez essa já amarelada e desencantada distância de corpos. Valha-me!

Dedico esta crônica às mulheres camponesas octogenárias, cujas lides cotidianas as fizeram sábias. Meu respeito.

E a Dom Pedro Casaldáliga, um exemplo de humanidade. Um legado. Um mito, este sim.

Marlene de Fáveri, 16 de agosto de 2020. Turvo, SC.

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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