Obra de Angelita Cardoso integra a exposição “Conheça-te a ti mesma”

Coluna da Angelita Cardoso

Conhece-te a Ti mesma: um olhar sobre a masturbação feminina

Postado em 19/02/2017, 14:28

“… Se levantó y colocó un largo espejo junto a la ventana. Lo puso de pie, apoyándolo en una silla. Luego, mirándolo, se sentó frente a él, sobre la alfombra, y abrió lentamente las piernas. La vista resultaba encantadora. El cutis era perfecto, y la vulva rosada y plana. Mathilde pensó que era como la hoja del árbol de la goma, con la secreta leche que la presión del dedo podía hacer brotar y la fragante humedad que evocaba la de las conchas marinas. Así nació Venus del mar, con aquella pizca de miel salada en ella, que sólo las caricias pueden hacer manar de los escondidos recovecos de su cuerpo…”  (Delta de Venus – Anais Nin)

Lembranças ainda de uma nina de 6 anos que brincava com o chuveirinho. Aquilo era melhor que chocolate.  Um dia, entregue ao calor de seu corpo, não percebeu sua mãe adentrando pelo banheiro. Um flagra! Sua mãe lhe deu uma surra e disse que aquilo não podia ser feito. Por quê? É tão bom! A mãe: Não pode!

A sexualidade feminina é um mistério que foi construído por séculos de preconceitos, ignorância, medos, incompreensões. Ainda hoje, espera por uma revelação, pela luz que adentre o prazer feminino, descortine e revele sua força.

A repressão do feminino é um dado histórico. Durante séculos ele foi visto como algo perigoso, demoníaco, que subvertia regras e padrões morais de comportamento. A mulher foi exilada dentro de normas comportamentais que a castraram, modelaram, subjugando todo o seu poder criativo. Murchando cada vez mais, ela acabou dependente do outro,  em vários sentidos, mas a subjugação pelo sexo é a mais difundida socialmente. Controlar a libido é controlar a pulsão criativa, a vida, deste feminino.

No caso da masturbação,  o tema é envolvido por vários fatores já citados e também pelo desconhecimento do próprio corpo. Um estudo feito pela ONG britânica The Eve Appeal, que trabalha a conscientização sobre os diferentes tipos de câncer do sistema reprodutivo, pediu para que mil mulheres apontassem em um desenho típico de livro de biologia onde ficava sua vagina. O estudo foi surpreendente: entre as mulheres de 26 a 35 anos, metade não sabia apontar o lugar certo.  Claro, que a falta de conhecimento do nosso aparelho genital se dá pela repressão do que é feminino. Sem contar que não somos encorajadas a nos olhar no espelho e, quando olhamos, nos fazem acreditar que a vulva é feia, mas ela é linda!

Atualmente, temos de volta grandes debates sobre a natureza da mulher, seus direitos e muita coisa tem sido quebrada. No entanto, muita coisa ainda precisa ser colocada em foco.  Por incrível que pareça, muitas mulheres ainda hoje não têm orgasmos. De acordo com estudos do Projeto de Sexualidade da USP (ProSex), 50% das brasileiras têm dificuldades para chegar ao orgasmo. E, apesar da masturbação ser uma ponte facilitadora para isso, o assunto é escondido. Um tabu.  E, tudo indica que a questão não é prática, mas política no sentido de que envolve o direito ao prazer. Ou seja, a mulher ainda precisa do encontro consigo. A masturbação é  a primeira afirmação desse encontro, do sim, do eu posso, eu quero, eu vou ter prazer. Sozinha ou com outro, qual é o problema?

Esse texto integra a pesquisa que deu origem à exposição “Conhece-te a ti mesma” de Angelita Cardoso, que inaugura em 7 de março, no Sítio Arte e Educação em Florianópolis. Outros capítulos serão publicados na coluna.  

 




Artista plástica, historiadora e pesquisadora de imagens. Em seu trabalho utiliza técnicas como gravura em metal, aquarela e pintura. Participou de diversas exposições coletivas em São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina. Trabalha a questão do feminino e da sexualidade como tema principal de sua obra há mais de 10 anos.
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