Vanessa Brunt
Foto: Arquivo Pessoal

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Vanessa Brunt

Postado em 03/04/2021, 10:43

Você poderia começar se apresentando para o público? Quem é a Vanessa Brunt?
Sou uma apaixonada por entrelinhas, ressignificações, vulnerabilidades, metáforas e intensidades. Meu lema é transbordar em tudo e ficar onde for possível caber. Os sensíveis são os novos rebeldes e busco estar aqui para revolucionar. Escrevo sobre todas as coisas à flor dos ossos ou das artérias porque é a minha real maneira de captar as lições das histórias, de digerir as dores e de enxergar os ângulos mais profundos possíveis. Para ler a mim e ao mundo, essa é a ferramenta na qual mergulho. Amo fazer jogos com os sentidos das palavras, porque isso nos leva a visualizar além do óbvio – e essa é a base do sentido da poesia. E, apesar de escrever crônicas, contos, romances e frases soltas, a poesia está em tudo o que faço.

Amo o poder da Comunicação em suas diversas facetas e, por isso, sou formada em Jornalismo e atuo, hoje, como colunista no Correio da Bahia e no portal iBahia, dois veículos do Norte e Nordeste que muito admiro. Sou uma alma inquieta e inconformada. Vivo criando projetos, como o meu blog Sem Quases (no qual faço análises de letras músicas, filmes, séries e outras artes), o portal Não Óbvio, no qual trago indicações fora dos clichês, e a plataforma CiAtive, que é a minha empresa de mentorias para empreendedores e criativos que querem crescer mais utilizando o âmbito digital como chave. Sou uma mulher que vive para buscar mais evolução, para deixar o lembrete de que a melhor vingança é deixar saudade e para falar sobre a única imortalidade que podemos alcançar: o legado.

Bom, agora vamos falar sobre sua trajetória como escritora. Por que começou a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Sempre escrevi para futucar. Futucar feridas, futucar aprendizados, futucar dores, futucar alegrias. É quando a gente enfia o dedo nas coisas que podemos analisar as infecções, abrir para examinar e, então, começar as cicatrizações honestas. É, sim, preciso saber quando parar de olhar, quando entender que deixar para lá também é bater de frente… mas, escrevendo, analiso, observo, reformulo, entendo e me lembro que tudo faz sentido quando buscamos os porquês e fazemos, nós mesmos, sentido também. Sempre fui dessas de aproveitar as minhas fossas até as últimas gotas; de colocar a música mais triste para chorar, com a letra que mais me ajuda a remoer. Sempre fui do muito, de escorregar pela porta nas dores, de ficar eufórica nas alegrias, de olhar para um poste e não querer enxergar só um poste, mas sim algo a mais, como a luz que fica na calçada depois da chuva.

Aos 15 anos, era assídua do fake no Orkut, que era quase um The Sims (só que feito por escrito). Tive uma paixonite por um menino que conheci lá, viajei pro Rio de Janeiro para conhecer a criatura e levei um bolo. Foi aí que criei um blog, coloquei no subnick do MSN (melhor lugar para indiretas na época) e tudo começou porque passaram a ler o que eu estava desabafando. Foi ao observar a conexão gerada pelos sentimentos escritos que vi que era isso o que queria para a vida, foi aí que entendi que nunca poderia parar. Vi o poder de curar outras almas e de saber que eu não estava passando por aquilo sozinha. E é assim que me sinto sempre, seja através dos personagens em contos, das frases, dos textos ou de qualquer formato com o qual tiro daqui os ensinamentos das alegrias e os alertas das angústias.

É preciso ler para ampliar a nossa maior força: a de imaginar e ir sempre além. É preciso ler para aprimorar argumentos, vocabulário e compreensões. Mas, acima tudo, é preciso ler para se encontrar melhor, para visualizar melhor os planos, os sonhos, a vida. É preciso ler para ter mais empatia, para encontrar mais caminhos.
E é preciso escrever para ser palavra. Ela é a única que não morre, mesmo com o lembrete de que palavras ruins são atos, mas palavras boas só são atos quando não são somente palavras.

Agora, enquanto leitora. Quais foram suas influências? Poderia nos contar um livro que te marcou? Qual foi sua última leitura?
Sempre busco me inspirar em mulheres que fazem artes, que escrevem suas próprias músicas, que são ilustradoras, grafiteiras e por aí vai. Artes assim me enchem de mais visões de mundo. Sou uma eterna admiradora de Taylor Swift, Billie Eilish, Mariana Nolasco, Sandy e outras baitas compositoras que temos dentro e fora do país. Mas, falando em autoras, por mais que não concorde com todas as mensagens de todos os livros da Colleen Hoover, a escrita dela é impecável e é a que mais me cativa. Aline Bei tem uma escrita inovadora e maravilhosa também. São muitas as autoras incríveis que temos pelo mundo. E, apesar das polêmicas envolvendo a escritora, não posso deixar de enaltecer Harry Potter, porque as metáforas são incríveis e creio que sempre será a minha saga predileta.

Em relação a livros favoritos, tem um vídeo no meu IGTV no qual conto sobre cada um. No momento, estou lendo Taylor Jenkins e amando. A próxima da minha lista é Carina Rissi. A estética da minha escrita: os jogos de palavras e afins, vêm muito de mim e de como a minha escrita prefere vir ao mundo, mas essas são algumas das autoras que me inspiram com seus olhares sensíveis.

Você já publicou muitos livros como “Depois Daquilo” e o “Ir Também é ficar”. Poderia nos contar sobre essa trajetória e um pouquinho sobre essas obras? Qual a diferença da Vanessa em cada uma delas?
Cada obra minha traz um pouco das últimas lições que a vida me deu. Para começar de fato a escrever, preciso saber bem as reflexões primordiais nas quais quero chegar. O que pretendo passar com aquilo que estou escrevendo? Qual a conclusão que cheguei sobre esse tema ou ocorrido? O que aprendi com isso e desejo que outras pessoas também possam parar e pensar sobre? O que sinto quando penso nisso? São perguntas assim que sempre me guiam, mesmo quando estou criando personagens para que eles, com suas próprias vivências, possam servir como analogias para esses pensamentos. Cada obra minha traz um formato diferente ou um estilo de escrita que passeia por novos experimentos. Por vezes, mudo olhares, penso em novas formas de entender certos pontos, mudo a mim. Mas a essência prossegue igual e creio que os leitores sintam isso, apesar de quaisquer diferenciais que os livros tragam entre si.

Escrever e poder compartilhar as reflexões e lições de vida que estão aqui é sempre um presente para mim. Ter a conexão que tenho com meus leitores é o que me move em todos os âmbitos da minha vida, é o que me dá forças nas horas mais bambas. Falando um pouco de três das minhas obras:

Depois Daquilo: Reúne textos (crônicas e outros estilos), frases soltas pelas páginas e pequenos poemas sobre cicatrizes diversas e os ganhos das perdas. O livro é repleto de brincadeiras com os estilos de fontes das frases e com as palavras em geral, as quais corto/parto, dando novos significados e desconstruindo sentidos que usamos no senso comum. | 580 pág(s).

Ir Também É Ficar: Obra de contos organizada e intitulada por mim. Leva como título o nome do meu conto, que é o principal do livro. A trama distópica traz uma realidade em 2040 na qual não existe mais a possibilidade de ter quaisquer relacionamentos duradouros. É preciso seguir as regras de um governo totalitário para não sofrer as graves consequências. A jovem Felícia precisa mais uma vez se mudar de casa, assim como todos que são obrigados a fazer as malas de ano em ano e ir para um novo grupo de pessoas. Curiosa sobre como as coisas eram (afinal, o que era isso de casamento? E isso de ser irmão de alguém?), uma reviravolta do destino pode acabar fazendo a moça indagar mais do que o até então permitido. | 110 pág(s).

Entre Chaves: Traz novas formas de abrir a mente sobre questões sociais diversas. Com temas que vão da política ao descaso com o amor, o livro apresenta textos, frases e pequenos poemas sem a necessidade de uma leitura linear. Nas páginas, o autoconhecimento é discutido através de vertentes que olham para o outro tentando entender a si: como a dor que o outro causou ou o impacto de uma nova chegada. Abra seu cadeado. | 130 pág(s).

Recentemente você publicou de forma independente o livro “Não precisa ser assim”. Poderia discorrer um pouco sobre esse trabalho?
Foi muito bacana você tocar nesse ponto, porque estou amando a experiência de publicar de forma independente. Quis passar por isso para sentir uma liberdade maior, para ter um controle direto em todos os aspectos, indo desde as vendas até todas as tomadas de decisões. Sempre descrevi como queria as capas dos meus livros, por exemplo. As mensagens precisam estar em cada pedaço, mas essa foi a primeira vez que eu mesma coloquei a mão na massa e não fiz somente a concepção, mas também a confecção. E está sendo uma delícia. Lancei o e-book pela Amazon, podendo fazer promoções, e o livro físico fiz com a UmLivro, que imprime sob demanda e não cobra por isso. Foi pouca dor no bolso e muitas experimentações gostosas.  O que indico para quem quer lançar de forma independente, é sempre organizar primeiro a parte de design, revisão, edição e todos esses aspectos, que vão gerar os reais e principais gastos.

E, voltando a falar sobre a obra em si, o Não Precisa Ser Assim é, talvez, o meu livro mais dinâmico. Ele tem muitas frases soltas pelas páginas e, para resumir, esqueça tudo o que você já ouviu falar sobre amor-próprio, liberdade, amadurecimento, humildade, censura, independência, empatia, humilhação, esperteza, realidade, tropeços, intensidade, relacionamento saudável e diversos outros termos. Trata-se de uma obra de (des)construção. Os aforismos e as brincadeiras com a língua portuguesa voltam aqui, a quebrar palavras e criar novos sentidos de forma rápida. Com críticas aos entendimentos e às práticas sociais, o livro mostra formas totalmente opostas de compreender e lidar com o que é pregado por aí. | 420 pág(s).

Agora, falando de futuro, você está trabalhando em algum projeto atualmente? Se sim, poderia nos contar um pouco sobre ele?
Estou sempre escrevendo incansavelmente, porque é uma urgência que vem daqui de dentro. Então, no dia a dia, sempre compartilho novas frases, pequenos poemas e textos lá no Instagram. É onde, inclusive, as novidades sempre chegam primeiro porque o que mais prezo é esse contato rápido e realmente próximo com os leitores. Mas, em relação a títulos que estão vindo aí, tenho alguns engavetados e outros que estou utilizando para versões ampliadas. Acontece que ainda não me desapeguei da trama do Ir Também é Ficar e estou criando outros detalhes dentro do mesmo universo. Teremos, inclusive, a versão estendida em e-book. Novos contos e livros estão sempre ali no horizonte, meio prontos do lado de cá. E tenho obras como O Sussurro de Cecília, que envolve fantasia e distopia, e escrevo há anos. Não faço ideia de quando será lançado. Sempre digo que, se eu morrer, alguém precisa pegar o que já está feito e jogar pro mundo, porque é possível que ele nunca seja realmente finalizado.

Em geral, como foram suas experiências de publicação? O que mais te marcou no processo?
Já publiquei livros de diferentes maneiras, com diferentes editoras, em variadas plataformas e sinto que cada um desses formatos teve um significado e um peso na minha caminhada. É óbvio que criar raízes importa, mas deixar sementes em cada canto pisado também. Então acho que o mais me marcou foi ter tido a experiência de ter meus livros nas estantes de Mais Vendidos das grandes livrarias físicas, assim como ter visto o Não Precisa Ser Assim como o Mais Vendido de diversas categorias no âmbito digital.

Poder passear por essas maneiras diversas foi e é muito enriquecedor. É o que recomendo que cada autor faça, mas no seu tempo. Você pode começar no online e se fortalecer nisso. Não se acomode, mas construa pensando em ir além. Nada supera o contato presencial com os leitores, a sensação de poder abraçar e de estar em diferentes eventos literários. Inclusive, é o que mais indico para quaisquer autores: que não esqueçam o quanto se manter presentes nesses momentos mais físicos e fora do online também é fundamental. Ainda temos muitas problemáticas no nosso mercado literário e, inclusive, deixo aqui uma matéria que fiz há alguns anos com dicas sobre esses bastidores.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Algum conselho, ou, alguma mensagem final?
Quando falamos de alguma vulnerabilidade ou de alguma dor nossa, outra mulher se fortalece. Quando escondemos nossas cicatrizes e nossas artes, outra mulher se enfraquece. Precisamos lembrar que sempre existirá alguém a ser salvo pelas nossas palavras, pelo que temos a deixar, a trocar, a pensar, a compartilhar. Sempre terá quem vai se identificar imensamente, quem vai chamar de impecável aquela frase que você sequer admirou quando escreveu. A sua voz de mulher, de escritora, é fundamental. E você pode começar com o que já tem. Hoje temos plataformas como a Amazon para que lance os seus e-books, temos premiações como a do Kindle, que disseminam obras independentes, temos concursos literários que acontecem de forma totalmente virtual e dão suportes para o seu crescimento. São inúmeras as maneiras de já começar e de não parar. Apenas compartilhe. Comece. Faça. E lembre que nem todos vão dizer, mas muitos vão se inspirar.

Indique um livro para os leitores e também um filme ou série.
Livro: É Assim Que Acaba. É o meu favorito da vida. Enquanto lia, pensei: “Queria ter escrito. Genial. Era o que estava faltando”. Acho que livros bons são esses, que nem sabemos que precisamos tanto até que eles nos devoram e nos fazem ressignificar mil mundos e ideias. A obra trata de relacionamentos abusivos em seus diversos níveis e consegue nos fazer torcer para determinados casais, sentir uma empatia imensa e aprender imensamente.

Série: Grey’s Anatomy e Jane The Virgin. Já falei de Jane em um vídeo e de Grey’s Anatomy falo sempre, porque são tantas as reflexões. O hospital serve como uma metáfora sobre a vida em geral e, ali, estão diversas entrelinhas e alertas sobre as relações humanas. É sensacional.




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert