Foto: Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Gabriela S. Nascimento

Postado em 14/08/2020, 9:34

A chica que escreve da semana é Gabriela S. Nascimento, que nasceu e cresceu em São Paulo. Ela se formou em jornalismo pela Cásper Líbero e atualmente cursa Filosofia na USP. Como autora já publicou contos em antologias e recentemente publicou o seu primeiro romance.

Vamos à entrevista! 😊

Como de costume, para começar você poderia contar um pouco de sua trajetória como escritora? Por que começar a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Eu invento história e escrevo desde criança, fui aquela aluna que usava mais páginas do que o indicado ao escrever uma redação. Cursei jornalismo justamente por conta desse gosto pela escrita, mas, no terceiro ano da graduação, uma professora indicou o livro ‘Como contar um conto’ do Gabriel Garcia Márquez, e eu decidi ler durante as férias. Foi lendo este livro que eu ‘descobri’ que era possível escrever ficção. Não que eu não soubesse antes, racionalmente eu sabia que todas as histórias tinham um escritor por trás, mas eu via esse trabalho com uma aura mágica e não algo que alguém normal, como eu, poderia fazer. O livro do Gabo me mostrou que escrever ficção era algo que eu podia fazer também, se quisesse e trabalhasse para isso. E eu acredito que comecei a escrever porque eu amo ler, porque algumas das mais lindas experiências que já tive envolvem livros. Acho que o ser humano precisa de histórias da mesma forma que precisa de comida e água, e eu sempre tive um impulso de inventar história, então escrever é uma forma de tirá-las de mim e compartilhar com outras pessoas.

Você poderia nos contar um pouco sobre as suas influências. Quais nomes da literatura te marcaram? Qual foi sua última leitura?
Minhas influências são bem diversas e é uma lista que está sempre crescendo, mas acho que os escritores que mais me marcaram e que de alguma forma influenciaram a minha escrita são Manoel de Barros, Philip K. Dick, William Gibson, Haruki Murakami, Alice Munro, Zadie Smith, George Orwell. O último livro que li foi ‘Cama de Garto’, de Kurt Vonnegut Jr, e no momento estou lendo ‘Uma questão pessoal’, de Kenzaburo Oe.

Em 2019 você publicou pela Plutão Editora o livro “O fantasma da máquina”. Poderia contar um pouco aos leitores sobre ele? E também sobre o processo de criação da obra?
‘O fantasma da máquina’ é a história de Alex, um robô feito sob encomenda com a aparência de uma jovem pós-adolescente. Ela se torna consciente após o suicídio de seu dono e, confrontada com a possibilidade de ter apagada, foge para salvar sua recém-descoberta vida. O livro segue Alex nessa jornada de entendimento de qual é o seu lugar no mundo e também o lugar que o mundo ocupa dentro dela. O primeiro rascunho dessa história foi escrito em mês, para o desafio de o NaNoWriMo, mas depois que terminei, deixei de lado por muito tempo. Eu não sabia detalhes e não tinha muito planejamento, só sabia que queria escrever sobre um robô senciente se transformando a medida que entrava em contato com lugares, pessoas e coisas diferentes. Depois, quando me tornei mais capaz e confiante, retornei e reescrevi toda a história mais umas duas vezes até ficar relativamente satisfeita com o resultado. O processo de escrita é, no fim das contas, de reescrita.

Além disso, ainda sobre o seu livro. Como tem sido a experiência de escrever e publicar ficção científica, um gênero que nem sempre vemos mulheres?
Eu acho que o meio literário como um todo ainda tem muito poucas mulheres, tanto em quantidade no geral quanto nas posições de destaque. Como em todas as outras áreas, nós precisamos fazer o dobro ou o triplo para conseguir chegar perto das oportunidades dadas aos homens. A ficção científica tem suas grandes escritoras do gênero (como Ursula K. Le Guin e Octavia Butler), mas é aquele mesmo de que mulheres precisam ser extraordinárias para receber um reconhecimento similar ao de homens medíocres. Nos últimos tempos, no entanto, cada vez mais aumenta o número de mulheres escrevendo, publicando, sendo premiadas. Ainda não é o bastante, na verdade está bem longe do ideal, mas não podemos nos conformar. O tipo de ficção científica me parece ser um nicho menor ainda dentro do gênero (recentemente o descrevi como uma mistura de ficção-científica, realismo mágico e questionamentos filosóficos) e eu sou uma pessoa bastante reservada sem muito contato com ‘o meio literário da ficção científica’. Então, eu não sei se a minha experiência reflete um contexto maior ou não. Da minha parte, acho muito mais interessante contar histórias sobre mulheres porque elas são poucas em comparação com as histórias sobre homens, então essa é a minha prioridade.

Como foi sua experiência de publicação?
Minha experiência de foi muito boa, o meu editor, André Caniato da Plutão Livros, me ajudou a fazer de ‘O fantasma da máquina’ o melhor que poderia ser. A capa foi feita pela talentosíssima designer Paula Cruz, e eu não poderia ter ficado mais feliz com o resultado. Também foi um pouco estressante porque eu só tinha publicado contos em antologias até então e a ideia de que diferentes pessoas de diferentes lugares leriam aquela história tão pessoal para mim me bem ansiosa. Mas, depois de publicado, essa ansiedade passou, hoje em dia, eu fico muito feliz em ler comentários e interpretações diferentes. Uma coisa que eu aprendi em aulas de escrita criativa é que, depois de pronto, o texto deixa de ser seu, e é isso que eu sinto quando vejo comentários sobre o livro. É muito bonito ver uma história que viveu tanto tempo só na sua cabeça, se tornar algo maior e diferente ao ser lida por outras pessoas.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Para outras mulheres que escrevem: continuem escrevendo. Existiu uma época em que não podíamos escrever nada além de cartas e diários que muitas vezes acabavam queimados. As nossas experiências e histórias foram apagadas por tempo demais, então não temos tempo a perder. Leiam muito e continuem escrevendo.

Além dessa entrevista a Gabriela fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:

Livro: “Kindred” da Octavia E. Butler.

Filme: “A Chegada”.

Série: Orphan Black




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
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