Imagem: Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Fernanda Rodrigues

Postado em 13/06/2020, 11:02

A chica da semana é a Fernanda Rodrigues uma paulistana professora formada em Letras e pós-graduada no curso de Formação de Escritores e Especialistas em Produção de Textos Literários. Ela publicou seu livro pela Editora Penalux, além disso também publica no Algumas Observações desde 2006. É moderadora de um projeto de escrita e também participa de um Clube de Escrita para Mulheres. Ufa! Vamos a entrevista! 😊

Poderia nos contar um pouco de sua trajetória como poeta? Como foi que você e a poesia se encontraram? E mais, por que continuar escrevendo poesias?
Meu primeiro encontro com a poesia foi na escola. Eu sempre estudei em escola pública e tive a sorte de ter sido aluna de duas professoras de literatura maravilhosas no Ensino Médio. Elas sempre tiveram a preocupação de apresentar amostras do cânone de uma forma prazerosa para o grupo de alunos que lecionavam. Foi assim que vi o meu interesse por aprofundar os estudos literários e senti que gostava de poesia. Na terceira série do Médio, descobri os escritores modernistas e minha vida mudou. Fiquei, de fato, encantada pela revolução artística de todos aqueles autores, incluindo os prosadores (quem não vê poesia em textos como os da Clarice ou do Guimarães Rosa, por exemplo?). Anos depois, na licenciatura, tive a oportunidade de escrever as minhas memórias de banco escolar, e me dei conta que, de uma forma ou de outra, a linguagem poética esteve presente nos livros que li ao longo do Ensino Fundamental ou naquilo que via na TV (a exemplo das leituras do Gato Pintado, do Castelo Rá Tim Bum). Senti vontade de me arriscar escrevendo poesia, contudo, após ler alguns livros do chileno Pablo Neruda. Escrevi, mandei para uma amiga que gostou e me sugeriu abrir um blog. Foi assim que a minha carreira de escritora começou oficialmente, há 14 anos.

Acho sempre legal falar sobre as influências. Então, você poderia nos contar um pouco sobre suas principais influências literárias? Quais nomes da literatura te marcaram? Qual sua leitura de cabeceira agora?
Como disse, os poetas modernistas me acompanham. Deles, em especial: o Carlos Drummond de Andrade — que eu amo tanto na prosa, quanto na poesia. O Paulo Leminski é sensacional e o Toda Poesia é um livro que está ao meu lado tanto como leitora, quanto como professora. Quando cursei a minha graduação em Letras, me vi completamente apaixonada pelos textos barrocos do Gregório de Matos, então, vira e mexe, volto na minha coleção de poemas dele. Entretanto, o que mais tenho lido são os poetas contemporâneos. A Tatiana Eskenazi e o Seu retrato sem você me tocam profundamente. Além dela, tenho lido a Jarid Arraes, a Anna Clara de Vitto, a Elizza Barreto, o Fabricio Corsaletti, o Rafael Farina, o Tadeu Rodrigues, a Maria Luiza Corrêa… Enfim, os nomes são muitos! A produção poética contemporânea brasileira é rica, intensa e criativa. Tem poeta para todos os gostos.

Quanto ao meu livro de cabeceira, o de agora é o Todas as Crônicas, da Clarice Lispector (ao lado do Toda Poesia, do Leminski). Além de poeta, sou cronista, e acho uma pena que as pessoas quase nunca falem da Clarice cronista, preferindo os lados de contista e de romancista dela. Ler as crônicas tem me inspirado muito, porque vejo na mecânica dos dois tipos textuais uma proximidade grande: ambos buscam nas miudezas da vida a fonte de nascimento da escrita.

Você publicou ano passado seu primeiro livro “A intermitência das coisas” pela Editora Penalux. Poderia contar um pouco sobre ele?
A Intermitência das Coisas: sobre o que há entre o vazio e o caos é um livro que reúne cerca de 45 poesias. Seus versos retratam a movimentação do meu eu-poeta no espaço contemporâneo, minhas mudanças e os meus aprendizados. Ao longo dos poemas o leitor pode notar, principalmente, como os ciclos se iniciam e se findam preenchendo o vácuo que habita entre a grande intermitência que é o espaço entre de paz vindo do vazio e o de dinâmica oriundo caos.

Esse livro foi escrito entre 2017 e 2018. Sua publicação aconteceu em 2019. Agora, dois anos depois da finalização da escrita, vejo que ele tem muito da essência do meu projeto de escritora: os versos se transbordam num viés existencialista, mas buscam fazê-lo de forma simples. Analisando tudo o que já escrevi até agora, percebo hoje que a minha temática tem girado em torno dessa alternância entre os estados de calma, de paz, de vazio que espera por algo, e o de intensidade, de agitação, de produção, de transformação que leva a um certo caos. Acho que é a primeira vez que falo sobre isso em público, porque esse processo de percepção de como o A Intermitência das Coisas tem a essência do meu projeto literário como escritora (até o momento, porque isso pode mudar. Quem sabe?) não aconteceu da noite para o dia, mas sim é fruto do meu amadurecimento como pessoa, resultado do caos interno que a minha vida foi desde o pós-lançamento, até aqui. Hoje, vejo que esse livro tem muito a ver com aquilo que a minha própria literatura propõe: entender o meu papel no mundo (e provocar o leitor para que ele pense no papel que ele tem no mundo), mas — de novo — de fazê-lo na simplicidade. No fundo, o fazer poético não deixa de ser como é viver: simples e grandioso, calmo e tempestuoso. No fim, são as contradições que fazem dessa aventura poeticamente bela. E é isso que busquei explorar com o A Intermitência das Coisas. É isso que busco explorar quando escrevo literatura.

Além de poeta, você também é professora de inglês, certo? Como vê a relação entre as duas atividades?
Antes de responder a essa pergunta, acredito que precise contextualizar quem nos lê. É difícil explicar sem fazer esse contexto, porque eu faço muitas coisas. Hehehe! Desde que me formei e me especializei, busquei fazer um pouco de tudo do que a minha graduação em Letras me possibilita e, apesar de serem muitas as atividades e de elas parecerem muito distintas umas das outras, as vejo muito conectadas, na verdade. Além de poeta e professora de inglês, sou escritora de prosa curta e professora de língua portuguesa, literatura e de escrita literária. Também crio conteúdo no meu blog, o Algumas Observações — desde 2014 e trabalho fazendo leitura crítica, preparação e revisão de textos, mentoria para novos escritores. Por fim, sou moderadora do Projeto Escrita Criativa (projeto que apoia escritores na internet desde 2015).  Em todas essas atividades, vejo que o eixo em comum se fixa nas experiências humanas. Em cada uma delas, eu lido com desejos e expectativas que passam não apenas pelo cognitivo, mas pelo sentido. É esse o ponto de intersecção que dá a liga em tudo o que faço.  Seja em aula, na mentoria ou no trabalho textual, a força motriz é a vida. Tudo o que a envolve (ações, sentimentos, registro social, o meu eu no mundo) serve de inspiração e de exemplo. Nas aulas de línguas (materna ou estrangeira) carrego os exemplos literários. No trabalho textual, trago as vivências da vida de docente. Além disso, nas aulas consigo perceber as dificuldades dos alunos com relação ao recebimento dos textos — o que me ajuda a tender como posso apresentar os meus processos literários aos meus leitores. Já o conhecimento pedagógico me apoia tanto no trabalho de mentoria, quanto no de dar feedback de leitura crítica ou de preparação de textos.  No fundo cada uma das atividades fortalece uma a outra.

Poderia nos contar um pouco de como foi sua experiência de publicação? O que te marcou?
Nossa, são tantas emoções! Antes de falar com a Penalux, procurei duas outras editoras. Em paralelo, enquanto fazia essa busca por uma casa editorial, conversei com os amigos escritores que já tinham publicado ou estavam em processo de publicação. Ouvir a experiência dos outros é muito importante para não cair em ciladas! Conheço muitos escritores que se frustraram com o primeiro livro por motivos aparentemente simples, a exemplo de não terem sido respeitados na edição do texto ou nas escolhas da diagramação e da capa. Nessas conversas, a escritora Dani Costa Russo me recomendou a Penalux, porque tinha organizado uma antologia lá e havia gostado bastante (hoje a Dani é organizadora de um selo da editora). Entrei no site, peguei o contato, enviei para eles e esperei. O dia em que fui aprovada foi emocionantíssimo! Foi na semana pré-carnaval e a notícia veio para me salvar de um dia péssimo. O processo de produção em si foi rápido: assinei o contrato em fevereiro e em junho estava lançando. A Penalux foi impecável em tudo, e eu pude participar de todas as etapas, de todas as escolhas. O A Intermitência das Coisas nasceu exatamente como eu havia sonhado. O dia em que os livros chegaram em casa pela primeira vez também foi marcante. Apesar de já ter participado de antologias e de publicar na internet, ter um livro com o meu nome sozinho na capa, com um projeto editorial que eu escolhi, foi diferente. É uma satisfação que, até hoje, não encontro muitas palavras que possam descrever perfeitamente. Assim como não consigo descrever o que foi o evento de lançamento. Eu organizei o evento sozinha — ele aconteceu lá na Casa Elefante, no centro de São Paulo — e o que posso dizer é que eu nunca recebi tanto amor na vida, em um único dia, como aconteceu naquele 8 de junho de 2019. Sem dúvida, naquele dia eu tive vários picos de surpresa: como a performance emocionante das atrizes do grupo Na Companhia do Útero (que eu contratei para performar os meus poemas, mas não vi o ensaio. Foi tudo surpresa!), ver amigos viajando só para estarem comigo nesse momento tão especial, rever pessoas que trabalharam comigo há anos, rever meus ex-alunos (alguns deles não encontrava há mais de 10 anos!) e, algo que nunca vou me esquecer, ter a presença da minha professora de Língua Portuguesa da quarta série (atual terceiro ano do Ensino Fundamental) no evento. Sério, quando vi a professora Yolmar chegando — depois de mais de vinte anos sem vê-la — meu coração saiu pela boca! Ela foi uma das grandes responsáveis por eu ter me tornado professora e por eu ter me apaixonado por literatura. Depois de tantos anos lecionando para turmas numerosas de escola pública, vê-la ali e saber que ela não se esqueceu de mim foi lindo demais!

Mas os momentos marcantes não param por aí: mandar o livro para longe (às vezes, para leitores de outros países) e ter o retorno dos leitores é algo que também não tem preço. É muito gostoso ver como as pessoas reagem àquilo que escrevemos e, sobretudo, como elas interpretam com tantas outras possibilidades diferentes das que eu havia pensado no momento da escrita. No caso do A Intermitência, achei muito interessante porque cada leitor que vinha falar comigo, me apontava poemas diferentes como os seus preferidos. O que me mostrou que o meu livro atingiu o público de modo bem heterogêneo e peculiar. Particularmente, eu gosto muito disso.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Posso começar pela mensagem final? Chicas, eu quero agradecer pelo convite da entrevista. É sempre ótimo poder conversar com outras pessoas sobre o fazer literário. Isso me move e me inspira sempre! É muito bom estar aqui.

Quanto ao meu recadinho para todas as mulheres que escrevem (ou que querem começar a escrever) é: ESCREVAM! Escrevam muito! Não tenham medo. E se publiquem. Se espalhem por aí. A gente sabe que o mercado editorial ainda é machista — é difícil ser mulher publicada no Brasil — mas não é isso que pode nos parar. Por conta de todas essas atividades que disse que faço, pude experimentar diversas formas de publicação: na internet, em antologias, independente e com a Editora Penalux. Todas elas foram muito importantes. Diria que uma fortaleceu a outra e que, talvez, não tivesse chegado ao livro com editora sem ter passado por cada uma dessas etapas. Vejam, passei 13 anos escrevendo no Algumas Observações, antes do meu livro sair. Tem que ter persistência. Sendo assim, abram um blog, criem portfólio. Conversem com outras escritoras — criem a sua rede de apoio na escrita também. Mandem textos para concursos literários. Reúna os que vocês considerarem os melhores em um livro. Não desistam! O mundo precisa da nossa arte bem viva, da nossa força bem ativa. No que precisarem, contem comigo!

Além dessa entrevista deliciosa a Fernanda ainda fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:

Indicação de livros: Seu retrato sem você, da Tatiana Eskenazi (poesia); Toda Poesia, do Leminki; Céu sem estrela, da Iris Figueiredo (romance jovem-adulto); Redemoinho em dia quente, da Jarid Arraes (contos); Perambule, do Fabricio Corsaletti (crônicas)

Indicação de filmes (gosto muito de filmes que vão na linha do documentário): Língua Vidas faladas em Português; Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez; Papa Hemingway: Uma história verdadeira

Gostaria de agradecer imensamente a Fernanda Rodrigues por ter aceitado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!

 

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert