Deborah Dornellas é a quarta entrevistada da coluna Chicas que Escrevem/Imagem: Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Deborah Dornellas

Postado em 29/05/2020, 10:23

A chica da semana é a querida Deborah Dornellas, escritora, jornalista e tradutora brasileira. Formada em Letras-Português/Inglês pela PUC-Campinas e também em Comunicação Social pela UnB. Além disso, tem um metrado em História também pela UnB. Atualmente, vive em São Paulo.

No seu romance de estreia Por cima do Mar a Deborah ganhou o Prêmio Casa de Las Américas em 2019 na categoria literatura brasileira e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019 na categoria autor estreante. Uau.

Ela cedeu um pouco do seu tempo para essa entrevista de hoje onde conta um pouco mais do seu trabalho. Vamos lá! 😊

Chicas que escrevem: Poderia nos contar um pouco de sua trajetória como escritora?
Deborah Dornellas: 
Comecei cedo a escrever versos. Poemas rimados e ritmados bem infantis. Fui assim até os 20 e poucos anos. Pouca coisa se aproveita desse período todo, mas o amor pela escrita começou aí. E pela leitura também. Sempre gostei de ler e acho que escrever acabou sendo consequência desse gosto pela leitura. Até 2012, quando cursei a primeira oficina de escrita literária com o Marcelino Freire, ainda não tinha pensado em escrever profissionalmente. Sequer achava que isso aconteceria um dia. Fiz duas faculdades e um mestrado, trabalhei com produção cultural e audiovisual, fui produtora de bandas, trabalhei em redação de jornal e revista, dei aula etc. É muita coisa! Isso é bom e ruim. Ao mesmo tempo que essa trajetória animada me trouxe muito repertório e uma profusão de experiências que me alimentam, revela também uma falta de foco que atrapalha. Demorei muito para abraçar a literatura. Em 2012 publiquei meu primeiro livro, TRIZ (InHouse). Em 2013, entrei para o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, que integro até hoje. Publicamos cinco coletâneas de contos e três fanzines e já estamos trabalhando numa próxima publicação. Em 2018, publiquei Por cima do mar (Patuá), um livro que me tem dado alegrias e sorte.

Por que começar a escrever? Por que continuar escrevendo?
Nunca parei para pensar por que comecei a escrever. As coisas foram acontecendo. E sinto que não poderia ser diferente. Eu me esquivei da escrita literária por muito tempo, por falta de foco e clareza nas escolhas, mas acabei por me render, mesmo sem saber no que ia dar. Estou apenas no começo dessa história com a escrita. Vou ser sempre aprendiz. Cada texto novo em prosa ou poesia é uma nova aventura. Parece que sempre estou começando. E não consigo me imaginar sem escrever. É orgânico. Mesmo que nunca mais publique nada.

Além disso, poderia nos contar um pouco sobre suas influências literárias.
As influências são muitas. Fui uma leitora assídua de Machado de Assis, Jorge Amado, Dalton Trevisan, entre outros. Li literatura de aventura na adolescência e sempre gostei de ler poesia. Li de tudo um pouco. Em 2004, descobri a literatura africana em língua portuguesa e fiquei fascinada. Passei alguns anos lendo só isso. Foi uma escola para mim. Nos últimos oito, tenho lido autores brasileiros contemporâneos e gostado muito. Acho que li muito pouco. Ainda há tanto para ler!

Quais os nomes da literatura te marcaram?
Prefiro falar de livros. Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar, é mais do que uma leitura para mim, é uma experiência sensorial e transcendente ao mesmo tempo. Falo no presente aqui porque nunca consegui ler o livro todo. Retomo a leitura periodicamente, desde o início, pulo páginas, paro, reflito, escrevo, retomo, volto. paro, escrevo outro trecho. O texto me acorda e me mobiliza de um jeito que não sei explicar. Bagagem, da Adélia Prado, me pegou desde a primeira leitura. A varanda do Frangipani e Antes do Nascer do Mundo, do Mia Couto, também. O vendedor de passados e Nação Crioula, do Agualusa, o autor que me fez conhecer a literatura africana em língua portuguesa, me marcaram muito. Ondjaki é um autor que eu adoro. Ana Maria Gonçalves, Ana Paula Tavares, Paulo Scott, Alberto Mussa, Itamar Vieira Jr., Cinthia Kriemler, Adriane Garcia, Lydia Davis. É gente demais!

Qual foi sua última leitura?
Não me lembro o que li por último porque adquiri o hábito de ler uns cinco livros ao mesmo tempo.  Não é bom, mas ó que tenho feito. Cito dois que estou lendo e amando: Luanda, Lisboa, Paraíso, da Djaimilia Pereira de Almeida, autora portuguesa de origem angolana, que recomendo vivamente. E O Oráculo da Noite, do Sidarta Ribeiro, um livro fundamental para estes nossos dias.

Seu livro “Por cima do mar” publicado pela editora Patuá venceu o prêmio Casa de Las Américas 2019. Como foi receber um prêmio tão importante? Poderia nos contar um pouco sobre a história e seu processo de criação?
Por cima do mar saiu em 2018, depois de cinco anos de trabalho e uma pós-graduação em Formação de Escritores. É meu primeiro romance. Nasceu de um conto, ganhou corpo, virou novela, depois romance. Foi meu TCC da pós-graduação, mas eu terminei a pós em 2014 com apenas 100 páginas. Demorei mais três anos e meio par concluir o livro. Em 2016, passei 17 dias em Angola, o que foi fundamental para a escrita da parte do enredo que se passa lá. Escrever esse livro foi uma travessia, como costumo brincar. Uma experiência maravilhosa e custosa. Ganhar Prêmio Casa de Las Américas foi uma surpresa, um susto bom. Foi muito importante para mim. O romance também foi finalista do Prêmio São Paulo 2019. As coisas mudaram um bocado de lá para cá. Meu trabalho literário ganhou visibilidade e passei a ter alguma noção de que eu podia fazer alguma coisa literariamente relevante. A gente sempre tem muita dúvida sobre isso, né? E é bom que continue tendo. Causa uma angústia danada, mas também nos empurra pra frente.

Seu primeiro livro publicado “Triz” é um livro de poesias. Poderia nos contar sobre esses poemas e como foi a transição para a prosa?
Não houve propriamente uma transição. Continuo escrevendo muita poesia. Mais até do que prosa. Além disso, a poesia atravessa a prosa na minha escrita. E as duas até se confundem em alguns momentos. Quando escrevo textos narrativos em prosa, preciso de algumas pausas, respiros, no próprio texto e fora dele. Aí a poesia me socorre. Seja em verso ou em prosa poética. É uma espécie de zona de conforto. Fazer o TRIZ foi muito gostoso e importante para mim. Minha primeira publicação na vida. A gente nunca esquece. São poemas de diversas épocas, que reuni num livro, Decidi correr atrás de publicar de tanto que alguns amigos de Facebook que liam meus poemas insistiram. Até então, eu nem sabia se queria publicar, se conseguiria produzir um livro inteiro e botar no mundo, essas coisas. Foi muito bom fazer esse primeiro para abrir caminhos dentro de mim.

Você é jornalista e artista plástica. Vê alguma relação entre essas atividades e sua literatura? Há algum ponto de encontro?
Sim. A literatura e o jornalismo têm muitos pontos em comum. Um alimenta, atravessa, contamina o outro. Às vezes, a gente, que é repórter por formação, escreve trechos inteiros de ficção como se estivesse redigindo uma matéria, com muitas explicações, detalhes, como numa reportagem. Já me aconteceu muito. No romance, por exemplo, cortei trechos inteiros, por sugestão de amigos que leram a primeira versão, justamente porque estavam num tom jornalístico, que não ajudava a narrativa. Nesses casos, acho que o que me salva é o lirismo. Na outra direção, o tal lirismo, ou as armadilhas da ficção, estão sempre à espreita na escrita de textos jornalísticos. Aí a famigerada e dificilmente alcançada objetividade fica comprometida. Mas me agrada muito esse hibridismo, essa conversa entre os gêneros textuais. Tudo vale se estiver a serviço do texto. Já desenhar, pintar, que vêm do mesmo lugar, da mesma vontade de expressão por meio da arte, ocupam outros espaços dentro de mim e na minha vida cotidiana. É um descanso das palavras. Mesmo assim, muitas vezes, como no romance, os desenhos conversam com o texto. Gosto de brincar com as linguagens.

Poderia nos contar um pouco de como foi sua experiência de publicação?
Até agora foi bastante positiva. Adoro a Patuá e meu editor, o Eduardo Lacerda. E também acho muito divertido e enriquecedor publicar com os amigos do nosso coletivo Martelinho de Ouro. As editoras chamadas independentes nos deixam mais livres para experimentar, palpitar na confecção do livro. Foi assim em todos as publicações de que fiz parte, inclusive no romance, de cujo processo de design, diagramação até a capa eu participei ativamente, inclusive porque as ilustrações são minhas, e trabalhei nelas até quase o momento de o livro ir para o prelo. Adorei a experiência.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Digo que continuem escrevendo, sempre e cada vez mais. E publicando, abrindo cada vez mais espaço na pauta, no mercado editorial, nos canais todos. Precisamos disso. Todas nós mulheres. As que escrevem e as que leem.

Além dessa entrevista inspirado a Deborah deixou algumas indicações. Para ler, “Torto Arado” do Itamar Viera Jr., e para assistir os filmes “Asas do Desejo” e o “Jojo Rabbit”.

Gostaria de agradecer imensamente a Deborah Dornellas por ter aceitado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
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