Imagem: Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Amanda Machado

Postado em 05/06/2020, 15:59

A chica da semana é a Amanda Machado uma mineira de Juiz de Fora. Ela é bacharel em Turismo e já publicou dois livros de contos e crônicas. Ela cedeu um pouco do seu tempo para essa entrevista de hoje onde conta um pouco mais do seu trabalho. Vamos lá! 😊

Poderia nos contar um pouco de sua trajetória como escritora? Por que começar a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Acho que a minha trajetória de escrita se assemelha a muitas outras trajetórias, que foi a de me tornar uma leitora contumaz, estabelecer uma relação afetiva com a palavra escrita e depois querer assumir uma autoria. Então, por isso, comecei a escrever.

A minha história familiar colaborou muito para que essa relação com a leitura se estabelecesse. Recebi muitos estímulos, especialmente, dos meus pais, que enxergavam na leitura e educação a possibilidade de ascensão de cidadania dos filhos. Como muitas famílias brasileiras, todos os meus avós eram analfabetos, meus pais tiveram acesso limitado à educação formal e, por isso, compreenderam que a leitura nos possibilitaria uma maior aquisição de referências e perspectivas. Meus pais abriram as janelas do mundo para mim e eu quis continuar abrindo novas, através da escrita.

Continuo a escrever porque existe muito a ser escrito; o que já existe na literatura é maravilhoso, mas não é o bastante, porque a vida está acontecendo o tempo todo. E só a vida não basta, por isso, contínuo; escrever transcende à vida.

Além disso, poderia nos contar um pouco sobre suas influências literárias. Quais nomes da literatura te marcaram? Qual foi sua última leitura?
Tenho referências múltiplas e gostos bastante ampliados, porque a maioria das minhas escolhas literárias foi muito instintiva; não enveredei pelo caminho das letras na academia. Minha formação é outra.

Mas gosto de citar sempre autoras mulheres, porque desde muito cedo eu estabeleci uma relação de maior proximidade com a autoria da mulher. Clarice Lispector foi a primeira escrita que impactou na minha relação com a leitura, de palavras e de tipos humanos. Depois dela e por causa dela, descobri Virgínia Woolf, cuja escrita, para mim, é avassaladora, porque descobre camadas muito densas em situações aparentemente estritamente cotidianas. Clarice e Virgínia me ajudaram a me espantar constantemente com o mundo, elas me desassossegaram para sempre.

Minha mais recente leitura é um livro da jornalista e escritora Eliane Brum, Meus Desacontecimentos, é uma obra autobiográfica que aborda a relação da autora com a palavra. É lindo e me comoveu muito, porque me identifiquei com a relação dela com a leitura e escrita; é mesmo um caminho sem volta.

Seu livro “Os pratos que eu lavo ele não vê” foi publicado pela Quintal Edições. Você poderia contar um pouco sobre a obra?
Todos os livros que publiquei até agora (Centopeia de mil pés errados, Os Pratos que eu lavo ele não vê e, o mais recente, Muito Magra para ter um filho Muito Gorda para ter um homem) nasceram a partir dos textos que publico no meu blog, o Pareço Louca. Os pratos que eu lavo ele não vê, foi publicado pela Quintal, que é uma editora feminista, então busquei textos que tivessem essa marca mais destacada, embora tudo o que eu escreva esteja imbuído de feminismo, porque toda escrita de autoria feminina é feminista.

É um livro com crônicas e textos cujas personagens estão em busca da sua voz, da sua autoria no mundo.

Você também participou recentemente da coletânea “As coisas que as mulheres escrevem”. Como foi participar desse projeto? Poderia falar um pouco da sua contribuição?
É maravilhoso participar de uma coletânea que acolha e evidencie formas e gêneros literários diversificados, produzidos por autoras também diversas. A obra é repleta de muitas vozes e a minha é uma crônica sobre transformação, desejo de ser outra coisa, porque a personagem entende que há outras possibilidades, que ela não está fadada a um destino, ela pode se encontrar em outros caminhos; a crônica é sobre essa epifania.

Como foi sua experiência de publicação?
Eu fui “encontrada” na internet pela minha primeira editora, a Confraria do Vento; que descobriu o meu blog e fez a proposta de publicação. Até eu ser abordada pela editora, no dia 1° de abril de 2014, eu nunca tinha pensado em publicar um livro, não pensava que o que eu escrevia era material para um livro. Eu não sabia que era escritora e só fui assumir que sou, com muitas limitações ainda, a partir do segundo livro. Portanto, devo à primeira experiência de publicação toda a coragem de assumir, buscar e ser publicada outras vezes.

O segundo e o terceiro livro são trabalhos com editoras feministas (Quintal e Ape’ku) e a construção desses trabalhos com editoras que fazem esse recorte de gênero, me possibilitou mais autoria ainda. Com a editora Quintal a minha relação foi transformadora, especialmente no processo de revisão. A Ludmila, revisora do meu livro, contribuiu de uma maneira intensa, porque dialogou, apontou dúvidas; não decepou meus textos aleatoriamente, foi uma construção muito enriquecedora.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Quero muito que as mulheres escrevam, ilustrem, pesquisem, dirijam, atuem, componham e que não esperem que alguém diga a elas o que elas são ou podem. Que se sintam próximas e busquem se aproximar de outras mulheres criadoras. Que entendam que toda essa dúvida, essa dificuldade de valorizar as próprias obras é fruto de uma sociedade que nos desvalorizou historicamente. Então, façam aquilo que acreditam, não se neguem à sua própria voz; ainda que a escuta seja limitada tantas vezes.

Além dessa entrevista deliciosa a Amanda ainda fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:

Gosto muito da coletânea de correspondências da poeta russa Marina Tsvetáieva, Vivendo sob o fogo, seleção feita pelo crítico Tzvetan Todorov. É um livro muito tocante sobre a relação da vida da poeta com a sua arte; sobre sobreviver no caos, e a ele, sem desistir da poesia.

Uma série que eu assisti recentemente e gostei muito é “Nada Ortodoxa”, na Netflix, que é a trajetória de uma jovem mulher criada em uma comunidade judia ortodoxa, que a partir da sua dificuldade de adaptação, descobre que há outras existências às quais pode se identificar. É sobre se permitir encontrar a sua voz

Gostaria de agradecer imensamente a Amanda Machado por ter aceitado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert