O brutal e inadmissível assassinato do cão Orelha, em Florianópolis (SC), no início de janeiro deste ano, não pode ser tratado como mais um episódio de violência a atravessar o noticiário e logo ser substituído por outro choque coletivo. Trata-se de um crime de ódio contra um animal indefeso, que confiava nos seres humanos, e que exige repúdio absoluto, responsabilização efetiva e aplicação rigorosa da lei diante de tamanha crueldade.

E exige também algo mais difícil para nós, como sociedade: a disposição de compreender que violências extremas não surgem do nada. Elas são construídas — social, cultural e simbolicamente — muito antes de se materializarem em um ato final, concreto e irreversível.

Sempre que crimes dessa natureza vêm à tona, a reação pública tende a buscar respostas rápidas e aparentemente resolutivas. No Brasil, quando envolvem menores de idade, isso costuma significar a retomada do debate sobre a redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, como se somente o endurecimento da punição fosse capaz, por si só, de impedir novas violências. 

Mas quem garante que tais crimes não continuariam a ser cometidos por adolescentes e crianças de 15, 14, 13, 12 anos — ou até menos? E, nesse cenário, até quando seguiríamos reduzindo a idade como única alternativa possível para a resolução do problema? 

A questão é que essa lógica olha apenas para o fim da tragédia, ignorando o caminho que levou os envolvidos até ali e a necessidade de medidas preventivas antes de os horrores serem cometidos. 

Acesso à internet sem orientação crítica acende alerta 

É essencial compreender que a violência não se forma apenas no espaço físico. Ela se desenvolve, com força crescente, no ambiente social, cultural e, hoje, também no digital. No conjunto de referências, valores e comportamentos que circulam nas redes sociais, nos jogos online, no entretenimento e nas relações cotidianas. Brincadeiras agressivas tratadas como inofensivas, bullying, cyberbullying, relações marcadas por humilhação no convívio familiar e escolar e, sobretudo, a exposição constante a conteúdos violentos na internet criam um terreno fértil para a banalização do sofrimento — humano e animal.

Dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação mostram que mais de 90% dos brasileiros entre 13 e 17 anos acessam a internet diariamente, majoritariamente por meio de smartphones. Jogos online, redes sociais e plataformas de vídeo fazem parte da rotina desses adolescentes, muitas vezes sem qualquer mediação adulta, educacional ou institucional.

O problema não é o acesso à tecnologia em si, mas a ausência de controle das famílias e, principalmente, de políticas públicas consistentes de educação midiática, regulação de plataformas e proteção de cérebros suscetíveis a todo tipo de influências externas, que ainda estão em formação.

Violência digital

A violência no ambiente online não é abstrata. Ela é concreta e mensurável. Dados da SaferNet Brasil indicam que 1 em cada 11 jovens brasileiros já foi vítima de cyberbullying. Em 2024, foram registradas mais de 53 mil denúncias de crimes sexuais online, grande parte envolvendo crianças e adolescentes. No plano internacional, pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), realizada em mais de 30 países, mostrou que 1 em cada 3 adolescentes já foi vítima de cyberbullying.

Em 2025, apenas entre janeiro e julho, a SaferNet contabilizou mais de 49 mil denúncias de abuso e exploração sexual infantil na internet, o equivalente a cerca de 64% de todas as denúncias de crimes online recebidas no período. Esses números evidenciam que o ambiente digital se tornou um dos principais vetores de violência contra crianças e jovens no país.

Estudos do Unicef e da Organização Mundial da Saúde (OMS) associam essas experiências a impactos duradouros na saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, dessensibilização à dor alheia e à empatia, comportamentos agressivos e até suicídios.

E é nesse contexto que crimes como o que vitimou Orelha precisam ser analisados com profundidade. A crueldade contra animais não é um desvio isolado nem um crime desconectado do ambiente social. Pesquisas internacionais em criminologia e psicologia do desenvolvimento reconhecem esse tipo de violência como um indicador precoce de risco para outras formas de agressão.

No Brasil, dados de polícias civis estaduais e de organizações de proteção animal apontam crescimento contínuo das denúncias de maus-tratos ao longo da última década, com aumentos superiores a 20% em diversos estados. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) também destaca a elevada subnotificação e as dificuldades estruturais de investigação, fatores que contribuem para a repetição desses crimes.

Em países com sistemas mais avançados de prevenção, episódios assim acionam redes integradas de saúde mental, assistência social, educação e justiça restaurativa.

No Brasil, por outro lado, esses sinais costumam ainda ser ignorados até que a violência atinja níveis extremos e irreversíveis, como no caso do Orelha.

O atalho da redução da maioridade penal

No Brasil, a ideia da redução da maioridade penal está formalizada desde 1993, por meio da Proposta de Emenda à Constituição nº 171. Sua persistência revela uma dificuldade estrutural em nosso país: preferimos punir o resultado final a enfrentar os ambientes e as circunstâncias que produzem tantas violências.

Entretanto, alguns dados desmontam a simplificação do problema. O 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do FBSP, mostra que, em 2023, adolescentes entre 12 e 17 anos representaram cerca de 6,7% das mortes violentas intencionais no país. Embora esses dados se refiram às vítimas — e não à autoria dos crimes —, eles corroboram uma tendência consistente: a violência letal no Brasil ainda é predominantemente praticada por jovens adultos ou adultos. Indivíduos cujas trajetórias poderiam ter sido alteradas por políticas públicas de prevenção capazes de reduzir a exposição precoce à diversos tipos de violência.

Pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), indicam que o sistema penal tradicional não reduz a reincidência e que abordagens integradas devem priorizar medidas socioeducativas, reinserção social e prevenção. Levantamentos de varas especializadas mostram, inclusive, taxas menores de reincidência entre adolescentes acompanhados por medidas socioeducativas do que entre adultos submetidos ao encarceramento punitivo. Atualmente, o Brasil abriga mais de 850 mil pessoas privadas de liberdade, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen).

O que outros países fizeram  e por que chegaram mais longe

Em países como Noruega, Finlândia e Alemanha, a responsabilização penal de adolescentes não opera de forma isolada. Ela faz parte de estratégias amplas de intervenção precoce, educação emocional, acompanhamento psicológico e redes integradas envolvendo escola, família e serviços de saúde. Essas políticas estão alinhadas às recomendações do manual INSPIRE, da OMS, elaborado em parceria com a Unicef, o Banco Mundial e as Nações Unidas, que aponta a prevenção e a atuação integrada do Estado como caminhos mais eficazes para reduzir a violência antes que ela se materialize em crimes graves. É o que deveríamos ser capazes de fazer aqui. 

O consenso internacional, portanto, é claro: sociedades que enfrentam a violência onde ela nasce — no ambiente social, escolar e digital — protegem mais e punem menos quando já é tarde demais.

Absolutamente nada pode relativizar ou ocultar a brutalidade do crime cometido contra Orelha. Levá-lo extremamente a sério exige recusar respostas superficiais ou legalmente brandas. Mas também nos convida a compreender que justiça não se resume somente à punição posterior. Justiça que protege atua antes:  prevenindo, mediando e interrompendo trajetórias de violência quando elas ainda estão em formação.

Enquanto o debate público insistir em reduzir esse horror à alteração de um número na legislação penal, continuaremos ignorando e normalizando os absurdos dos espaços onde a violência hoje é cultivada cotidianamente: nas telas, nos algoritmos, nos jogos online e nas comunidades digitais sem regulação adequada nem responsabilidade compartilhada. Ela também está em discursos de opressão, violência pela força, machismo e misoginia, por exemplo, muitas vezes, proferidas pelos próprios pais, responsáveis ou no ambiente escolar. 

A morte de Orelha teria sido evitada se tivéssemos levado a sério os sinais que nossa sociedade, e a própria infância e os adolescentes, vêm emitindo há anos. Depois da morte de um animal, a resposta legal e moral precisa ser dura, efetiva e orientada à proteção de outros. Mas esse esforço deveria começar muito antes do tribunal: deve começar na educação infantil e adolescente, nas casas, nas escolas e no controle e enfrentamento efetivo dos ambientes virtuais.

Ignorar isso — e seguir permitindo que um cenário tão aterrador como este se repita — é aceitar covardemente que outros casos igualmente terríveis aconteçam. A formação da juventude e, especialmente, das masculinidades, precisa mudar. Urgentemente!

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  • Claudia Guadagnin

    Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e Mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas....

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