A escritora Carol Bensimon é ganhadora do Prêmio Jabuti de 2018. (Foto: Arquivo Pessoal)

Coluna da Laura Elizia Haubert

Carol Bensimon: entre a pesquisa e o encanto

Postado em 29/06/2021, 18:56

A escritora Carol Bensimon é a nossa entrevistada do projeto Chicas que Escrevem. Leia a última entrevista da série.

Texto de abertura: Elisabetta Mazocoli.

Carol Bensimon é uma escritora nascida em Porto Alegre e que atualmente mora na Califórnia. A autora tem um mestrado em Escrita Criativa pela PUCRS, mas começou sua carreira na área da publicidade – até que em 2008 estreou na ficção. Já lançou pela Companhia das Letras três romances: Sinuca embaixo d’água (2009), Todos nós adorávamos caubóis (2013) e O Clube dos Jardineiros de Fumaça (2017). Esse último foi vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

A autora já teve suas obras traduzidas nos Estados Unidos, Argentina e Espanha, além de ser uma das integrantes da edição “Os melhores jovens escritores brasileiros”, da revista inglesa Granta e já ter vários leitores fiéis.

Queria começar agradecendo ter aceitado participar da entrevista e dizer que sou uma grande fã de sua forma de escrever. Aliás, falando em escrever, é tradição começar com um pouco da trajetória da autora. Então, poderia nos contar sobre sua história com a escrita? Quando começou a escrever e por que continuar escrevendo?
Comecei quando era ainda criança. Eu sempre adorei criar histórias. Adorava ler, e queria escrever as minhas próprias histórias, foi algo natural. Depois do colégio, acabei entrando na faculdade de Publicidade, e trabalhei uns anos como redatora, não porque não gostava mais de escrever ficção, mas simplesmente porque a carreira literária não me parecia viável, em termos financeiros.

Mas, em 2008, lancei meu primeiro livro, e ele foi muito bem recebido. A partir dele, as coisas começaram a acontecer, e eu consegui me dedicar mais à escrita e viabilizar minha carreira. Por que continuar escrevendo? Olha, certamente não é algo muito racional. São muitas e muitas horas pensando na história, fazendo pesquisa, polindo cada frase… mas, de maneira geral, é muito divertido. E certamente o que eu sei fazer de melhor. Então por que não? Eu gosto da rotina da escrita, de estar sempre em um projeto diferente. Em determinado momento, crio tais e tais personagens, leio sobre tais assuntos, visito tais lugares. Dali a alguns anos, o universo no qual vou estar imersa é outro. Isso dá à vida um frescor permanente.

Penso que a escrita e a leitura estão muito interligadas, portanto gostaria de saber um pouco sobre suas leituras. Quais suas principais influências? Há algum autor/autora para o qual você sempre retorne? Qual sua leitura de cabeceira no momento?
Acho que as influências vão se renovando. Há autores que foram muito fundamentais quando fiz minhas primeiras leituras de adolescência, como Julio Cortázar e Caio Fernando Abreu. Nos últimos anos, coloquei no topo da pirâmide gente como Alice Munro, Lucia Berlin, Roberto Bolaño, W.G. Sebald. Mas é até injusto citar uns e deixar outros de fora. Sobre leitura de cabeceira: nesse exato momento, estou tentando decidir qual vai ser o próximo livro. Na fila, estão A palavra que resta (Stênio Gardel), O último gozo do mundo (Bernardo Carvalho) e um faroeste protagonizado por uma mulher chamado Inland (Téa Obreht).

O livro “Clube dos Jardineiros de Fumaça”, da autora ganhou o Prêmio Jabuti de 2018. (Foto: Divulgação)

Você já publicou vários livros. Então, vamos falar um pouco sobre eles. Seu primeiro foi “Pó de Parede”, certo? Como foi que surgiu o primeiro livro e o que a levou a publicar?
Cursei a oficina literária do Luiz Antonio Assis Brasil, uma oficina tradicionalíssima de Porto Alegre, que existe desde os anos oitenta, em 2003. Naquela época, produzi muitos contos, mas não queria juntar todos eles num livro e publicá-lo. Talvez eu já soubesse que meu negócio era escrever narrativas mais longas, então deixei minha escrita amadurecer um pouco mais.

Comecei a escrever o “Pó de Parede”, um livro formado por três contos longos, em 2006. O processo aconteceu exatamente do jeito que o livro se organiza: a primeira história que escrevi foi “A caixa”, que abre o livro, isso quando eu ainda trabalhava como redatora publicitária e passava sempre na frente de uma casa modernista esquisita que me levou a imaginar a família – e toda a vizinhança – do meu conto. Depois veio “Falta Céu”, e foi só nesse ponto que eu senti que tinha um livro, um tríptico de histórias, faltando para isso escrever mais uma que se ligasse às outras porque ela seria também centrada em algum elemento arquitetônico (a casa, o condomínio e, finalmente, o hotel).

Li no ano passado “Todos nós adorávamos caubóis”, uma das coisas que mais me chamou atenção foram as descrições das cidades no interior, é tão viva quanto as personagens. Como você escolhe qual o cenário e qual é a importância dele nas suas obras?
Para mim, o ambiente é indissociável das personagens. Não consigo pensar em uma personagem e só depois imaginar o espaço que ela vai habitar. Isso tem muito a ver com o fato de imaginar um clima, uma atmosfera para o livro. No caso de Todos nós adorávamos caubóis, eu queria fazer um livro solar, um livro de espaços abertos. Eu estava vindo de um livro (meu primeiro romance) que falava sobre luto, e minha ideia era mesmo ter uma história mais luminosa, mas com a melancolia que sempre acompanha meus livros. Essas cidades pelas quais as personagens passam são todas um pouco melancólicas. Eu gosto do contraste. Elas são jovens e cheias de planos e, para elas, aqueles lugares são curiosos e estimulantes. Elas estão só de passagem. Isso muda totalmente a percepção.

Sobre seu último livro “O Clube dos Jardineiros de Fumaça” ganhou o Prêmio Jabuti em 2018. Você foi até Mendocino para pesquisar para o livro? Como surgiu a ideia da história? E, também, como foi receber esse prêmio tão importante?
Eu fiz, num primeiro momento, muita pesquisa bibliográfica (sobre contracultura californiana, guerra às drogas, a luta pela legalização da maconha medicinal, etc). Depois, fiz duas viagens para Mendocino. A ideia da história surgiu muito aos poucos. Acho que sempre acontece assim.

Eu tinha visitado Mendocino uma vez como turista, e fiquei impressionada pela natureza acachapante do lugar. Depois, descobri que toda a economia da região girava em torno das plantações ilegais de maconha, e me interessou contar essa história sobre esse mundo que corria por baixo das aparências. Acho que dá para notar pelo livro que eu estava realmente fascinada por esse universo. Tanto é que acabei me mudando para Mendocino logo depois. Estava aqui quando o Jabuti foi anunciado. Nem pude acreditar quando vi a capa do livro na transmissão do evento!

Acompanho seu trabalho pelo Instagram e já vi você contando um pouquinho sobre o próximo livro, poderia compartilhar com os leitores por aqui algo sobre esse livro que está no forno?
É um livro sobre um crime que acontece nos anos oitenta, mas também sobre família, animais, taxidermia, música. Se tudo der certo, sai no primeiro semestre de 2022.

Muitas leitoras escrevem ou gostariam de escrever. Que conselhos você daria para quem deseja se tornar escritora ou aprimorar-se na escrita?
O conselho mais velho e batido: leia muito. Cada livro tem algo para ensinar, (do tipo “essa mulher faz diálogos incríveis!”, essa história está muitíssimo bem montada”, “esse personagem parece mais vivo do que meus amigos”). E disso deriva um conselho menos óbvio, que acho sobretudo importante nos tempos em que estamos vivendo: procurem treinar o olhar para perceber não só o que a história está contando, mas como está contando. Acho que andamos meio esquecidos disso. E para mim isso seria como ouvir uma música prestando atenção só na letra. Escute a melodia.

Agora, poderia nos contar um pouco também sobre como foram seus processos de publicações? O que mais te marcou neles?
Todos foram muito tranquilos. Tive a sorte de contar sempre com editores maravilhosos.

Indique um livro para os leitores e também um filme ou série.
Livro: Incidente em Antares
Filme: Shoplifter




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert