Quero te convidar a fazer uma reflexão que não é somente sobre o Big Brother Brasil 26 (BBB 26). É uma reflexão bem mais profunda sobre a sociedade.

O que se observa na dinâmica da edição atual, com eliminações que geram estranhamento, sensação de injustiça e diversos questionamentos sobre critérios,  não pode ser analisado apenas como uma controvérsia pontual de entretenimento, nem somente como desvio de caráter coletivo. Trata-se de algo mais amplo: um padrão contemporâneo de comportamento coletivo mediado por tecnologia, mobilização digital e estruturas de influência. E isso exige atenção redobrada em ano eleitoral.

O que está em jogo no BBB não é apenas quem permanece ou sai da casa. É a forma como decisões aparentemente democráticas podem estar sendo moldadas por fatores que escapam à nossa percepção imediata. E isso é extremamente perigoso. O programa funciona, nesse sentido, como um laboratório social em escala reduzida: um ambiente em que se tornam visíveis dinâmicas que também operam em esferas muito mais sensíveis em nosso país, como a política.

A relativização da ética 

A sensação de que “a conta não fecha” e de que participantes com comportamentos violentos, abusivos e agressivos permanecem no jogo enquanto outros, percebidos como mais equilibrados, respeitosos e coerentes, são eliminados, costuma ser interpretada como uma “inversão dos valores humanos”. Como se a sociedade brasileira estivesse, deliberadamente, perdida e premiando o que há de pior no comportamento das pessoas. Essa hipótese não pode ser descartada.

Sob determinadas condições, como apontam diferentes correntes teóricas, comportamentos coletivos podem relativizar critérios éticos, normalizar excessos, abusos e deslocar as fronteiras do aceitável.

A dinâmica de grupo, associada à identificação com causas verbalizadas pelos participantes – e não necessariamente vividas na prática – e à lógica emocional das plataformas digitais, tende a valorizar o conflito, a agressividade e a polarização como motores de engajamento.

Mas reduzir o fenômeno a uma simples “degeneração de valores morais” do brasileiro é insuficiente.

Quando a manipulação supera o mérito

O sociólogo Pierre Bourdieu oferece uma reflexão mais viável: ele defende que o poder não reside apenas nas escolhas individuais, mas na capacidade da mobilização coletiva. Em ambientes digitais, isso se traduz na força de grupos organizados, capazes de transformar engajamento em resultado. O voto deixa de ser uma expressão isolada de opinião e passa a ser um  produto de redes, articulações e estratégias.

Não vence, necessariamente, quem é “melhor”, joga mais limpo, melhor ou sustenta maior coerência ética. Vence quem mobiliza mais pessoas e com maior eficácia.

Bolhas informacionais e realidades paralelas

Essa dinâmica se intensifica com o fenômeno das bolhas informacionais, descrito por Eli Pariser. Cada grupo passa a consumir, especialmente nas redes sociais, versões distintas da realidade, reforçando suas próprias crenças. Comportamentos que para alguns é claramente condenável, para outros podem parecer plenamente justificáveis e legítimos. Basta acreditar que é. 

Não há mais um campo comum de percepção: há múltiplas narrativas coexistindo, muitas vezes, inconciliáveis entre elas. E, quando não existe consenso sobre a realidade, a decisão coletiva se torna ainda mais vulnerável à influência.

Quando o erro deixa de ser percebido

É nesse ponto que a reflexão de Hannah Arendt ganha atualidade. Ao formular o conceito de “banalidade do mal” no início da década de 1960, a autora mostrou como comportamentos moralmente inaceitáveis podem ser normalizados não por indivíduos perversos, mas por pessoas comuns que estão inseridas em dinâmicas coletivas.

Transposto para o contexto atual e, em escala reduzida, para o BBB, isso ajuda a compreender como atitudes agressivas ou excludentes deixam de causar estranhamento. Inseridas em lógicas de grupo e pertencimento de quem se identifica, passam a ser relativizadas, justificadas e até defendidas. O erro não desaparece, mas deixa de ser reconhecido como erro. Termina justificado como praticado por pessoas de “personalidade forte”.

A engrenagem invisível da mobilização

Nesse assunto, há também uma segunda camada, menos visível, mas altamente preocupante. A dinâmica observada não decorre apenas de comportamento coletivo espontâneo. Ela pode ser amplificada por estruturas externas bem organizadas, capazes de operar fora do campo visível do jogo. São redes de mobilização intensiva, coordenação em massa e uso de automação ou estratégias sistematizadas de votação.

Não há, até o momento, comprovação pública de fraude técnica que invalide os resultados dos votos do BBB, mas há indícios claros de um ambiente em que a disputa deixou de ser simbólica e passou a ser digital e estratégica.

Nesse cenário, a percepção de que o público está “premiando o pior” pode ser resultado de um efeito combinado: de um lado, a relativização de valores fortalecida por dinâmicas coletivas e, de outro, a atuação de estruturas organizadas capazes de amplificar permanências bem questionáveis.

O alerta além do entretenimento

A recente mudança no sistema de votação — que passou a atribuir maior peso ao voto individual por CPF — sugere que a própria Rede Globo reconhece a necessidade de mitigar essas assimetrias. Ainda assim, ajustes técnicos não eliminam o fator central: quem consegue engajar mais pessoas continua tendo vantagem decisiva, especialmente, quando essa mobilização é estruturada. E é aqui que o alerta extrapola o entretenimento.

Em um ambiente eleitoral, essas mesmas dinâmicas (mobilização coordenada, bolhas informacionais, decisões emocionais e estruturas organizadas de influência) operam em escala ampliada e com consequências reais.

A percepção da maioria pode ser construída artificialmente. Narrativas são amplificadas de forma desproporcional e escolhas que parecem individuais podem, na prática, estar condicionadas por forças que não são visíveis.

A ilusão da autonomia

O risco não é apenas a manipulação direta. É a sensação de autonomia em decisões que já foram induzidas. É nesse ponto que entra Byung-Chul Han. Para o autor, vivemos sob uma lógica de psicopolítica, em que o controle não se exerce pela imposição, mas pela condução sutil dos comportamentos. As pessoas acreditam decidir livremente, quando, na realidade, respondem a estímulos constantes de um ambiente que molda suas percepções, emoções e escolhas. 

No limite, o voto deixa de ser apenas uma expressão de vontade. E passa a ser uma resposta condicionada. Se há algo que o Big Brother Brasil 26 pode nos ensinar neste momento, não é sobre quem merece ganhar. É sobre a urgência de compreendermos como estamos decidindo defender determinadas posições, e sob quais influências. Porque, fora da dinâmica de um reality, as consequências desse comportamento de manada são muito maiores e mais graves.

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  • Claudia Guadagnin

    Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e Mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas....

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