A impressionista francesa Berthe Morisot acabou eternizada como musa inspiradora de Manet, a despeito de toda a obra da artista | Reprodução da obra Pastora desnuda tombada, de Berthe Morisot

Coluna da Kênia Gaedtke

As ilusões da condição de Musa

Postado em 03/04/2018, 10:54

A romantização das relações afetivas, mesmo com todos os questionamentos sofridos nos últimos tempos, insiste em nos rondar. É uma característica tão entranhada nas perspectivas ocidentais de amor e de felicidade que se naturaliza diante de nossos olhos, como algo que sempre esteve ali,  e que definiria o amor perfeito. Essa é sempre uma conversa tensa, pois invoca nossos sentimentos mais profundos, mas é preciso refletirmos sobre o impacto do imaginário de afeto em nossas vidas.

Talvez um dos fatores que mais contribua para a perpetuação da romantização seja o papel de Musa. As meninas crescem ouvindo histórias de mulheres musas – somos povoadas por relatos sobre aquelas que inspiraram músicos, poetas, pintores e cineastas; as mulheres, por sua vez, por mais maduras que estejam, acabam ocasionalmente se dispondo a essa personagem, por muitas e complexas razões, mas uma delas certamente é aquele do qual não queremos falar, mas passamos a vida a alimentar: o ego.

Não há estímulo maior ao ego do que saber-se musa. Saber que, dentre todas, foi a escolhida como musa de alguém. Todas as demais passam a ser não-musas, há um abismo que garante à musa o status muito próximo de uma semideusa. No entanto, esse status é uma ilusão – como o é, aliás, quase tudo que acarinha nosso ego.

A ilusão da condição de musa está justamente no fato de que é uma condição, dada por outra pessoa. A musa inspiradora inspira a alguém. Infelizmente, nenhuma mulher que levante pela manhã e se autoproclame musa obterá a mesma legitimidade. E se ser musa é condição dada por outra pessoa, ela está então condicionada a algo.

Para manter-se no papel de musa é preciso responder aos anseios do outro.  Musas são lindas; não se movem nem se revoltam. Não envelhecem. Não erram nem acertam. Elas apenas existem para serem contempladas. E a ideia de ser contemplada parece ser a mais problemática, afinal, a musa não está sendo ouvida, ou lida, ela está sendo contemplada. Contemplar alguém, olhar com admiração ou encantamento, nunca irá muito além de olhar. Uma musa, nesse sentido, não seria muito diferente, aos olhos do artista (ou do pretenso artista, como é o caso muitas vezes), de um pôr-do-sol ou de bebês brincando.

O papel de musa não permite autoria. A originalidade e a genialidade continuarão sendo sempre daquele que contempla, nunca daquela que é contemplada. E se alguém vier questionar se isso é realmente uma questão de gênero, proponho que pensemos quem são e onde vivem os musos. Ser musa é qualidade atribuída ao feminino.

Se pensarmos na história da arte, a título de exemplo podemos retomar a figura de Berthe Morisot, pintora impressionista francesa que, como outras mulheres, acabou relegada a um papel secundário na história do movimento. Berthe acabou eternizada como “a amiga íntima de Manet” e sua musa inspiradora, a despeito de toda a obra da artista. Somado ao seu caso, poderíamos rememorar muitos outros, nas artes, na política e nas ciências.

A condição de musa, além de ilusória, é triste e solitária, pois prevê um distanciamento entre a musa e as outras mulheres. Retira da mulher sua autonomia e independência. A musa se permite refém de uma relação muitas vezes difícil de identificar e de aceitar. Rever esse e outros imaginários ligados à romantização e presentes em nossas relações afetivas é determinante para a emancipação das mulheres. De todas elas.




Kênia Gaedtke é doutora em sociologia política pela UFSC e professora do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) no campus de Jaraguá do Sul, onde compõe o grupo de pesquisa Amapô Odara, que discute as relações entre corpos, gênero, educação e identidade.
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