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Na faixa: “Nossos corpos. Nossos abortos” | Imagem: william lee.

Coluna da Joanna Burigo

Suprema Corte dos EUA anula Roe v. Wade e encurrala direitos reprodutivos

Postado em 24/06/2022, 14:22

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo – mestra em Gênero Mídia e Cultura, professora no MBA em Diversidade da Universidade La Salle, coordenadora da Emancipa Mulher, curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk, e conselheira do Portal Catarinas e do Boleto+1– traz notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político em debate nas redes sociais

CATARINAS

Não poderia começar essa edição fazendo outra coisa que não parabenizar as equipes do Portal Catarinas e The Intercept Brasil – nominalmente Paula Guimarães, Bruna de Lara e Tatiana Dias, com colaboração Daniela Valenga, Fernanda Pessoa e Schirlei Alves – pela reportagem que enquadrou a narrativa de perversão patriarcal da justiça brasileira, visível na atuação da juíza Joana Ribeiro Zimmer. 

Esse brilhante trabalho de jornalismo investigativo pautou a discussão nacional e engendrou diversas ações de resolução para um caso de terror e misoginia institucionais contra uma criança de onze anos de idade. 

Minha mais profunda solidariedade a esta garotinha, sua mãe e familiares, e imensa gratidão pelo bom trabalho das jornalistas. Vida longa e prosperidade ao rigor e coragem feministas que vocês inspiram. 

ROE V. WADE

Na mesma semana em que, no Brasil, acompanhamos estarrecidas o caso da juíza catarinense que obstruiu o acesso ao procedimento de abortamento – legal e garantido – a uma criança, nos Estados Unidos a Suprema Corte anulou ​​Roe v. Wade, obstruindo o direito reprodutivo ao aborto, que era federalmente garantido a mulheres americanas há quase 50 anos. 

Roe v. Wade foi uma decisão histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos, na qual o Tribunal decidiu que a Constituição protege a liberdade de uma pessoa grávida de optar por fazer um aborto. A decisão vinha permitindo a realização legalizada e regulamentada de procedimentos de  abortamento durante os dois primeiros trimestres de gravidez nos EUA desde 1973. 

Hoje – 24 de junho de 2022 – a Suprema Corte anulou essa decisão em uma votação de 6-3. Roe v. Wade foi derrubada pela decisão do tribunal de suplantar sua lógica jurídica com a do caso Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization – outra decisão histórica da Suprema Corte que avalia que a Constituição não confere o direito ao aborto, e que as legislaturas estaduais têm o direito de impor restrições sobre esse direito reprodutivo. 

É esperado que quase metade dos estados americanos vá proibir ou restringir severamente o aborto como resultado dessa decisão.

O caso já está sendo considerado a maior vitória desta última geração da coalizão de católicos e evangélicos que formam a direita cristã contemporânea nos EUA. 

KATE BUSH

Numa nota mais alegre e onde Deus é pura metáfora, a juventude que assiste o seriado Stranger Things colocou Running Up That Hill’, da cantora britânica Kate Bush, no número um das paradas de sucesso. A impactante canção chegou ao terceiro lugar do hit parade do Reino Unido em 1985, quando foi lançada – e estou adorando assistir essa geração acolher bem esse hino hipster, que é puro suco de inglesa branca. 

Kate Bush – Running Up That Hill – Official Music Video

A espetacularmente fantasmagórica e debochadamente sexual Bush, além de ícone cult dos anos oitenta e matriz de Florence Welch e Tetê Espíndola, na minha mente é também a sonoridade de toda a escritura das irmãs Brontë, Jane Austen e Virginia Woolf. 

Por conta desse mega sucesso tardio, Kate quebrou o recorde de artista mais velha a ter um número 1 nas paradas britânicas – e foi publicamente parabenizada por Cher, que detinha o título há treze anos, e celebrou no Twitter o fato de mais mulheres mais velhas serem bem sucedidas. 

Hoje com 63 anos, e quase quarenta depois do lançamento de sua canção hipnotizante, Bush que a compôs, produziu e gravou, detém 100% dos seus direitos autorais, e especula-se que esteja recebendo em média £250.000 por semana em royalties por ela. 

E POR FALAR EM BRUXAS

As bruxas não foram queimadas na fogueira por serem bruxas. Mulheres foram discursivamente transformadas em bruxas através de campanhas de difamação. A bruxa é fake news medieval, produto de propaganda genocida para justificar a queima de dissidentes na fogueira, queimando assim também os conhecimentos que tinham.

Isso é história, situada numa sociedade pré-científica.

Mulheres não foram queimadas por conta de magia, mas porque seus conhecimentos medicinais e agrícolas sobre a natureza fundamentavam e subsidiavam contestações acerca do projeto ideológico de uma sociedade proposta pela aliança perversa entre clero e monarquia da época. Uma aliança patriarcal, de pai para filho, de homem para homem, pautada na propriedade por hereditariedade, o que exige o controle dos corpos de mulheres para vingar, afinal não há como garantir paternidade sem vigilância extrema da nossa sexualidade, não é mesmo?

Menos mistificação do real e mais Silvia Federici e Gayle Rubin e pensamento crítico feminista.

CORPUS CHRISTI

O feriado que este ano caiu em 16/06 me fez querer registrar que a imagem do corpo de Cristo que o cristianismo hegemônico celebra é falsa. É kake news Medieval. Tipo as bruxas. Mulheres e homens dissidentes sempre existiram, mas nenhuma voava em vassouras, e duvido que Jesus, ou qualquer outro de seus conterrâneos contemporâneos, tenha nascido branco, loiro e de olhos azuis em plena Cisjordânia…

FASCISMO E NARCISISMO

(Esta nota é inspirado em um insight do perfil da Erica Prado no Facebook, restrito para amigos).

Um modo operacional dos regimes (e sujeitos) de inclinação fascista (e narcisista) — o que no Brasil hoje aparece bem como bolsonarismo — é alimentar um tipo muito específico de perversidade: levantar dúvidas insinceras sobre a índole de pessoas marginalizadas pelo regime, e culpabilizá-las pelas agruras de que foram vítimas.

A lógica narcisista e a retórica fascista fazem com que os horrores a que certos sujeitos são submetidos sejam rapidamente substituídos pelo questionamento sobre esses sujeitos, com questões como “mas o que estavam fazendo lá?”, ou sugestões como “sabiam do perigo, estavam pedindo para que isso acontecesse“, ou alguma variante dessa inversão de responsabilização.

O narcisismo é um conceito da psicologia, e o fascismo, da sociologia política. Mas a culpabilização das vítimas não é seu único ponto de convergência.

MISOGINIA

Você sabia que é possível admirar mulheres e expressar publicamente essa admiração sem críticas nem ressalvas e sem precisar dar muitas explicações?

É próprio da misoginia inerente à cultura patriarcal achar que é sempre preciso ser crítica para ser honesta na direção de mulheres, que é sempre preciso comparar uma mulher com outra para sedimentar comentários, que é sempre preciso de alguma maneira demonstrar que sabemos que a mulher sendo elogiada não é perfeita.

Nenhuma pessoa é perfeita. E muitas mulheres são desvalorizadas na sua maravilhosidade porque a mentalidade machista nos educou para diminuir mulheres, seus feitos e o apreço que temos por elas. Modular o foco e lustrar as lentes feministas ajuda a enxergar o ódio que o patriarcado tem de mulheres. 

(É também perfeitamente possível criticar mulheres sem exalar misoginia.)

FEMINISMO E DISCERNIMENTO

Como feminista, não preciso defender todas as mulheres, mas sim trabalhar em defesa de todas as mulheres, ainda que isso signifique defender mulheres de outras mulheres. Discernimento para essas coisas.

RECALQUE 

No Brasil está muito sedimentado o delírio pueril e misógino que conflui a crítica feita por mulheres com recalque. É ao mesmo tempo triste e engraçado observar jovens reagindo a análises desagradáveis como se elas viessem do recalcamento, e não de capacidade analítica, racional, lógica.

Haja feminismo, e anos de vida, para desfazer tanta confusão.

PROLETARIADO INFLUENCER

Um levantamento da Nielsen Media Research concluiu que no Brasil há mais influenciadores digitais do que dentistas ou engenheiros, segundo publicação do Redação Finanças do Yahoo de 29 de maio deste ano. São mais de 500 mil influenciadores digitais, segundo a multinacional de pesquisa. O país tem 374 mil dentistas formados e 455 mil engenheiros civis, e o número de influenciadores empata com o número de médicos (502 mil). A maioria dos influenciadores é formada por pessoas que usam redes sociais como Instagram, YouTube e TikTok para expressar ideais e vender produtos para seus seguidores – e a Folha de São Paulo enquadra nesse espectro usuários com ao menos 10 mil seguidores que fazem qualquer tipo de publicidade. 

ATIVISTA OU VENDEDOR?

Sempre existiram: o ativista político-social que cria e sedimenta discursos de ruptura com a hegemonia, e o profissional de entretenimento engajado que inclui a retórica ativista em sua performance artística.

Hoje o que parece ser mais hegemônico é o ativismo como performance para gerar engajamento digital. As confluências entre ruptura política e entretenimento na era da comunicação em rede social são estonteantes.

BARBIE GIRL

No domingo, 12 de junho, quando eu estava indo embora da Parada Livre de Porto Alegre, caminhava a uns três passos atrás de um homem cis branco que levava, sentada em seus ombros, uma guriazinha de uns cinco, seis anos. Um pouco à frente deles iam duas drag queens, montadíssimas mas não necessariamente altas. A pequena não tirava o olho delas, e acenava e dizia, sem parar: “Oieeee, Barbie! Barbie, ooooooi!”. Ah, a pureza da resposta das crianças. 

OH BABY, ME LEVA

No começo deste mês, o cantor e produtor musical Latino tentou surfar a mesma onda do sertanejo Zé Neto, empregando o que vejo como tática para ser tendência nas mídias sociais: falar mal da Anitta.

Este ano eu viralizei por causa dela também – mas foi falando bem. E esse breve caso ilustra duas coisas:

(1) o poder de mobilização de discurso na internet que tem a patroa, afinal falar sobre ela é fator recorrente para a viralização de conteúdo;

(2) a diferença nada suave entre perspectivas feministas e perspectivas machistas; Zé Neto e Latino viralizaram a partir de comentários misóginos sobre o corpo e sexualidade da malandra para se colocarem em voga; eu viralizei absolutamente sem querer, simplesmente porque quis exaltar a inteligência dela.

Discernimento, sim?

​​KRISTEN STEWART

“Não quero que os detalhes da minha vida sejam consumidos e mercantilizados de forma repugnante. Mas ao mesmo tempo não quero esconder nada” declarou a atriz Kirsten Stewart em uma entrevista concedida em março deste ano para o The Mirror, a respeito de não ser fácil se identificar como bissexual em Hollywood.

Para além de demonstrar sua elegância e honestidade, essa colocação também é um comentário sobre as aglutinações apressadas em debates sobre identidade, tão comuns na cultura influencer.

A cultura influencer deriva tanto da indústria de fofoca sobre a vida privada de celebridades quanto da confluência equivocada, e fomentada por reality shows, entre o trabalho de entreter e a comodificação da própria privacidade.

Stewart sabe que é vista, lida, interpretada e consumida primordialmente como imagem, mas isso não faz com que ela sucumba à própria imagem. Ao expressar preferir a própria humanidade, ela ajuda a expor que muito do que se entende como “controle de narrativa” é, também, performance.

Nos últimos anos, em função dos influencers youtubers que espetacularizam a educação, outra confluência equivocada e detrimental vem tomando forma: aquela entre o trabalho pedagógico e a comodificação da performance de professor-estrela. É por isso até que tenho prestado tanta atenção na cultura influencer e em performances de professor-ativista.

Haja discernimento e determinação para desfazer o tanto de confusão e aglutinação conceituais causadas pela propagação rentável de platitudes, como se educação crítica fossem.

E haja nem sei o que ainda para enxergar a realidade por trás de tanto simulacro e simulação.

ANGELA DAVIS

Finalizo a coluna trazendo para o ano eleitoral brasileiro palavras ditas por Angela Davis em Los Angeles, nos EUA, em janeiro de 2018:

Em um momento desafiador de nossa história, lembremo-nos de que nós, as centenas de milhares, os milhões de mulheres, pessoas trans, homens e jovens que estão aqui na Marcha das Mulheres, representamos as poderosas forças de mudança que estão determinadas a evitar que as culturas moribundas do racismo e do heteropatriarcado ressurjam”.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo