Foto: Laura Lima, Máscaras Nômades, 2008.

Coluna da Carolina Votto

A fuga do amor no século 21

Postado em 02/12/2019, 9:44

Há algum tempo observo e reflito sobre o amor e suas singulares contingências. Em conversas com diferentes pessoas percebo que ele é sempre um tema caro, disparador de sorrisos inocentes, maliciosos, mas também de angústias profundas e desconcertantes. Todo mundo tem uma história de amor para contar, aprecio escutá-las, já que o universo das relações humanas é meu objeto e forma de estar (no) mundo.

Por isso, diante das diferentes histórias que me chegam – penso em como estamos a viver e experimentar o amor em nossa época. Em meio as transformações legadas pelos séculos 19 e 20, passamos a questionar o amor romântico, as formas de casamento, as destinações femininas à casa privada, a importância da maternidade, o papel heteronormativo, a descolonização dos desejos, as múltiplas identidades de gênero, novas subjetividades e subjetivações se apresentam.

O forte senso de que amar é ser livre, sem medo de perder o outro no vento das circunstâncias. Claro que esse é um debate que tem endereço, construção política, classe social. Começamos também a questionar as formas de apego que constituem a construção de nossas subjetividades, não transformamos uma cultura de uma hora para outra, é preciso um processo formativo para os afetos. Afinal, se você não enfrenta as suas estruturas de apego, como aprender a ressignificá-las? Assim, a artista Paula Lima questiona em suas Máscaras Nômades, que paisagens apresentamos ao outro quando nosso rosto está revestido daquilo que não sabemos ou não conseguimos expor de nós mesmos?

Lembro-me das inquietações do escritor francês Roland Barthes ao escrever seus Fragmentos de um discurso amoroso. A preocupação de resgatar os discursos sobre o amor por considerar a solidão que estes se encontravam. Já no início da obra anuncia que este livro será constituído de fragmentos da literatura, das memórias, das conversas entre amigos, dele mesmo.

Cada um possui os fragmentos do seu discurso amoroso, vamos a cada tempo montando e reencenando essas experiências. Flaubert no século 19 escreve sua Educação Sentimental, reitera a importância do romantismo, do sujeito que idealiza a figura amada e suas angústias diante de tal sentimento. Não sei se o amor é passível de ser ensinado, penso que ele pode ser aprendido, como um exercício atlético com muito sabor, cada um constrói a sua forma de amar, mas, vivemos em meio a uma cultura que legisla sobre as formas de amor.

No entanto, penso que o encontro amoroso é o choque da incompletude manifesta nas biografias de cada um e não para encenar o mito da completude, mas exatamente para estimular os desejos que a falta nos permite. Incompletude e transfiguração de uma imagem que construímos de si. Marguerite Duras em seu romance Emily L. narra a história de uma mulher que escreve, ela vive o amor na potência do seu imaginário, o sujeito enamorado por ela se sente fora desse lugar, ele não cabe na escrita daquela mulher, nunca cabemos por completo em lugar algum, quem dirá no outro. Duras diz: “Não sei se o amor é um sentimento. Às vezes acho que amar é ver. Ver você” (Duras, Emily L, p.96).

Se amar é ver, o que andamos a enxergar no encontro com o outro? Em uma época tomada pela visualidade, o que procuramos na imagem que se apresenta? Será que ainda somos Narciso perdido em ilusões e afogado no rio que reflete a sua própria imagem? Parece-me que o nosso século anda a apresentar uma estranha conjugação de fuga e amor. Estamos fugindo do amor? Essa perspectiva um tanto contraditória sobre o viver com o outro.

As redes sociais, os aplicativos de relacionamentos nos permitem uma ampla liberdade de escolha, conversas com tons que aludem à intimidade, quando somos sobrecarregados por um cotidiano exaustivo. Mas, quando o outro pode manifestar o furo da superfície de nossas telas mais recônditas; é possível acabar com esse incômodo com apenas um “clique”. Girar o botão e escolher outra imagem para chamar de amor – projetada em nossas fantasias e fantasmas.

As visualidades do amor em nosso século também me parecem curiosas, como desejamos nos apresentar ao outro? Sujeitos felizes, descolados, em pontos turísticos, diante de alguma obra de arte, abraçado a algum animal de estimação, escalando montanhas, ao lado de tuaregues no deserto, saltando de paraquedas, cozinhando, alguns nus; outros de cueca; biquínis (cheguei a escutar certa vez que essas fotografias são muito relevantes) e sem sombra de dúvidas empunhando armas – o grande falo.

As imagens do objeto amoroso depois de algum tempo rolando o dedo indicador podem tornar-se entediantes, e não porque amar esteja ligado ao tédio. Todavia, é o que estamos fazendo do amor por medo da aproximação do outro. Aqui não me refiro a relações abusivas ou tóxicas que também são um reflexo da necessidade de nos conhecermos, de sabermos quais desejos nos habitam e de que forma é possível ter coragem para assumir isso diante do outro (quando assim se pode fazer, às vezes nos matam antes dessa possibilidade).

Na vastidão de escolhas, resta alguns questionamentos: o que nos faz buscar o encontro com o outro? Como estar atento a alguém, quando o universo de possibilidades é tão extenso, que podemos a cada dia escolher um perfil que caiba em nossa projeção de amor? Substituindo paulatinamente um perfil a outro, descrevendo preferências, aceitando e aprendendo a se relacionar com as recusas.

Outro dia escutava uma conversa na rua entre duas meninas sobre a possibilidade de ser recusada em um desses aplicativos de relacionamento, uma delas dizia: não tenho estrutura para alguém começar a conversar comigo e depois sumir. A outra argumentava: “mas isso é o mais comum e a vantagem é que você também pode fazer isso”.

O diálogo entre elas, não foi uma surpresa. A surpresa foi perceber que essas atitudes não eram surpreendentes, que haviam sido naturalizadas. A tela nos permite um esconder-se dos afetos, não é mais preciso encarar o interlocutor (mesmo que em vários momentos, isso se coloque como uma proteção, principalmente para as mulheres ou outros grupos marginalizados) percebo, que estamos perdendo a tessitura que constitui as relações.

E aqui não me refiro a falsos moralismos, acredito que cada um é livre para construir as suas teias amorosas que melhor os inspirem a viver bem, que experimentem seus desejos e que cada vez mais possamos nos libertar das amarras que encobrem nossos corpos e a sexualidade também. Sendo esta uma questão pulsante, principalmente quando as mulheres começam a se colocar como sujeitos que enunciam o que lhes dá prazer.

Talvez estas inquietações partam de um lugar semelhante ao de Barthes que sentiu a solidão do discurso amoroso, observo o quão solitárias as pessoas estão se tornando sem o cultivo de uma verdadeira solidão que compartilha a incompletude do viver. Nesta oferta que o amor se tornou, surgiram especialistas, tutoriais para ensinar quais fotos devem ser colocadas nos perfis dos aplicativos, conforme uma pesquisa com cada público-alvo, é possível acessar esse material e se moldar ao que supostamente pensa-se que irá atrair o outro.

O amor como mercadoria, um jogo perigoso com as carências de cada um, sem contar os inúmeros filtros que podemos inserir nas imagens, constituindo cada vez mais rostos robotizados, destituídos de suas expressividades. Me questiono: se não deve ser muito frustrante escravizar-se diante de suas próprias projeções narcísicas? Ou a busca de um suposto outro “que caiba no seu sonho”. Cazuza já anos 90 sabia “que o amor a gente inventa para se distrair, quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu”. O corpo, os afetos, as memórias não acompanham o tempo da tela.

Nestes espaços também é possível ser capturado pela curiosidade, por uma falsa coincidência, um jogo lúdico de destinações ilusórias. Mas neste lugar também se conhecem pessoas, experimenta-se novas culturas, universos diferentes, que muitas vezes, infelizmente, são tratados como fetiche. Se colocam também trocas enriquecedoras, possibilidades de laços duradouros – um afeto por um like – o amor pode se apresentar em todos os lugares, esse é o seu contingente misterioso. Fico pensativa não quanto as possibilidades de amar a partir da tela, mas de nossa incapacidade estrutural de sair dela.

 




Carolina Votto é professora no Departamento de Metodologia de Ensino (UFSC). Doutoranda em Educação na linha de Filosofia da Educação do Programa de Pós-graduação em Educação – UFSC. Mestre em Teoria e História da Arte (2011) pelo Centro de Artes, no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Graduada em Filosofia (2006), pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) - RS. Atua também como professora de História da Arte em cursos independentes.
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