Registro feito do alto de uma favela em Florianópolis/Foto: Cirene Cândido

Coluna da Cirene Candido

A favela que habita em nós

Postado em 06/02/2020, 14:22

Historicamente, após a abolição da escravatura, fomos jogadas/os em lugares distantes das cidades, das escolas. Recém libertas/os, porém, já naquele tempo o acesso à educação era para aquelas/es que tinham bens, aumentando ainda mais nossas dificuldades de ter uma vida melhor. Refiro-me a acessos simples, como saber o valor da nota que estava no bolso, conquistada depois de árduo trabalho.

Ouço, quase cotidianamente, a expressão “aquilo parece uma favela”, relacionada a vários comportamentos e atitudes de forma pejorativa.

E direito básico de todos: saúde, educação, moradia, conforme está garantido na Constituição Federal, no artigo 6º dos Direitos Sociais. No entanto, a ausência de políticas públicas coloca nossa população em condição de marginalidade, pois quando não há possibilidade de renda que permita pagar o aluguel, água, luz e comprar bens essenciais, o que sobra é o desespero, desilusão, tristeza, nos forçando a condições desumanas.

Enquanto isso, nas favelas pouco permitem o seu desenvolvimento. Entre as ausências estão também a falta de rede de esgoto que contribui ainda mais com problemas de saúde, e de espaço recreativo para oportunizar a socialização dos jovens e crianças.

Os projetos sociais aplicados sem a orientação pedagógica, muitas vezes não levam em conta os sentimentos da comunidade. Esses projetos sociais feitos à revelia acabam sem antes começar por falta de verbas, por desculpas de burocracia política. Deixando a população frustrada, sem esperança.

Mesmo diante desse cenário, a favela resiste. Precisamos dizer todo o momento que a favela pulsa, vibra. Aqui tem solidariedade, tem bom dia, boa tarde, boa noite, palavras que saem da boca de cada pessoa que cruza pela rua. Tem criança (às vezes outros bem maiores) soltando pipas até em cima da laje, aliás esse espaço reúne os amigos, famílias para o churrasco.

A solidariedade é expressa quando é oferecida uma xícara de café ou um convite para um bate-papo, são gestos que nos aliviam do estresse e da depressão, males que assombram a humanidade.

Ao olhar para as cidades vemos prédios, condomínios fechados, assim como as pessoas que provocadas pelo capitalismo buscam atender suas necessidades e se perdem em deslumbramentos. Cidades sujas, construções abandonadas por má administração ou vontade política, sem projeto social de acolhimento, desamparam moradores de rua. Falta de emprego e outras oportunidades que lhes garantam condições mínimas de vida, seguem à margem da sociedade, sofrendo com ataques violentos por “pessoas do bem”. Nessa imensa favela humana, onde se quer se conhece a vizinhança.

Enquanto isso na favela, ouço o cantar dos passarinhos, da horta, colho o que planto (inclusive solidariedade), rola também o carro do gás (não entrega se tiver que subir as escadarias), o sorveteiro,  o vendedor de ovos. Também tem as lutas por melhores condições de vida, por creches, educação, pelo fim da repressão policial, pelo fim da violência doméstica.

Ah, essa favela não saí de mim, mesmo tendo experimentado outro mundo/lugar, onde pouquíssimo senti o calor do aperto de mão, o abraço, os bons dias, noites. Sim, existe outro tipo de favela, a de carros importados, comida enlatadas, TV em cada cômodo da casa, roupas de grandes marcas, calçados caríssimos, casa em frente ao mar, baladas de luxo.

Nesse lugar de acesso a tudo é onde pessoas reclamam do valor da faxineira (afinal a casa estava quase limpa!), não se importam com a rede de esgoto sendo jogada nas mesmas praias em que moram, tampouco se interessam em separar o lixo para reciclagem. O acesso aqui é construído pela precariedade do outro.

Essa favela que habita em mim é afeto, carinho, riso frouxo, churrascos nas lajes mesmo com o valor absurdo da carne, o “juntar das panelas” para refeições comunitárias. A ausência da vizinha desperta o interesse em saber como ela está, se precisa de alguma coisa. “Se precisar de alguma coisa, é só me chamar!” Frase corriqueira, e sei que posso contar. A favela que habita em mim te saúda e quer saber qual favela você é?

 

 

 




Cirene Candido é formada em Gestão Ambiental, técnica em Segurança do Trabalho e militante feminista pelos direitos das mulheres negras. Já atuou como assessora parlamentar, agente comunitária de saúde, empregada doméstica, trabalhadora rural (boia fria), atendente de loja e telefonista. É empreendora empresarial, mãe solo e eventualmente trabalha como diarista.
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