Arrisco dizer que a maioria das pessoas que agora me leem me conheceu na urna, votando em mim como candidata a vice-governadora nas eleições de 2022. Foi assim que apareci para o grande público. Foi assim que a maioria de vocês me conheceu. Já falamos aqui que a minha história na política começa muito antes. Mas, para o grande público, foi naquele momento que eu passei a existir.

Depois daquela eleição, por muito tempo eu fui a Bia Vargas, a candidata a vice-governadora. Ou “a Bia, que foi vice do Décio”. De uns tempos para cá, bastou eu assumir um relacionamento para que, rapidamente, eu me tornasse “a namorada de fulano”.

É curioso como isso acontece com uma velocidade impressionante.

Não importa que eu tenha uma trajetória construída antes desse relacionamento. Não importa que eu tenha empreendido, organizado eventos, construído projetos sociais, disputado uma eleição estadual ou produzido conteúdo político. Em questão de dias, tudo isso pode ser colocado em segundo plano. A identidade pública de uma mulher passa a ser resumida ao homem com quem ela se relaciona.

E não se trata de um caso isolado.

Nós crescemos aprendendo que relacionamentos heterossexuais exigem da mulher um tipo muito específico de entrega: ela muda de cidade, de rotina, de sobrenome, de prioridades, de círculo social e, muitas vezes, muda até a forma como se apresenta ao mundo. Enquanto isso, raramente esperamos transformações equivalentes dos homens.

Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher incorpore a identidade do casal, enquanto o homem permanece sendo apenas ele mesmo.

Talvez seja por isso que tantas mulheres tenham dificuldade, anos depois, de responder perguntas aparentemente simples: “Do que eu gosto?”, “Quem eu era antes desse relacionamento?”, “O que eu quero para mim?”.

Não é porque mulheres sejam naturalmente mais dependentes. É porque fomos socializadas para acreditar que amar também significa desaparecer um pouco.

Essa reflexão me voltou à cabeça quando li a declaração de um apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmando que mulheres solteiras “não sabem votar” e sugerindo que mulheres casadas acabam votando conforme a orientação dos maridos.

À primeira vista, a fala parece apenas ofensiva. Mas ela revela algo muito mais profundo.

Ela parte da ideia de que a opinião política da mulher é, naturalmente, uma extensão da opinião masculina. Como se o casamento retirasse dela sua autonomia e até sua capacidade de formular pensamento próprio.

É um discurso retrógrado, mas que continua encontrando espaço no debate público.

O mais preocupante é que ele dialoga com uma realidade que muitas mulheres conhecem bem.

Quantas deixam de opinar para evitar conflitos? Quantas mudam seus posicionamentos para preservar um relacionamento? Quantas passam a consumir apenas os conteúdos que o companheiro consome? Quantas silenciam porque aprenderam que discordar custa caro?

Isso não significa que toda mulher casada vote igual ao marido. Muito menos que casamentos produzam, inevitavelmente, relações de submissão. Felizmente, existem inúmeros relacionamentos construídos com base no respeito, diálogo e autonomia.

Mas também seria ingenuidade fingir que não existe uma cultura que incentiva mulheres a abrirem mão de partes de si para que a relação funcione.

Quando uma mulher passa a ser apresentada apenas como “a esposa de”, “a namorada de”, “a mãe de”, ela vai recebendo pequenas mensagens de que sua identidade individual importa menos do que os papéis que desempenha para outras pessoas.

É assim que a perda de identidade começa. Não de forma brusca, mas em pequenas concessões socialmente naturalizadas.

Por isso, me incomoda tanto perceber como deixei de ser, para muita gente, simplesmente Bia Vargas.

Não porque eu tenha qualquer problema em amar ou em tornar público um relacionamento. Muito pelo contrário. O problema é perceber que basta existir um homem ao lado para que ele se torne a principal referência sobre quem eu sou.

Nenhum homem com trajetória pública costuma ser apresentado primeiro como “o namorado de”. Eles continuam sendo empresários, políticos, jornalistas, atletas. O relacionamento aparece como uma informação adicional.

Com as mulheres, frequentemente, acontece o inverso.

Talvez esteja na hora de começarmos a perceber que identidade não deveria ser algo que se perde quando o amor chega.

Relacionamentos saudáveis ampliam quem somos; não substituem quem somos.

E uma democracia também depende disso: de mulheres que votem, opinem, discordem e escolham por si mesmas. Não porque são solteiras ou casadas, mas porque são cidadãs inteiras, antes, durante e depois de qualquer relacionamento.

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  • Bia Vargas

    Catarinense de 38 anos começou a empreender quando foi mãe. Voluntária social desde os 13 anos passando por grupo de jov...

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