Cinco minutos.

Foram cinco minutos!

Cinco minutos em que o trânsito da Avenida Beira-Mar Norte de Florianópolis parou para que uma marcha de mulheres pudesse atravessar a cidade. Cinco minutos para que centenas de mulheres ocupassem a rua, levantassem seus cartazes, suas pautas e seguissem caminhando.

Cinco minutos…

Tempo suficiente para que a tensão começasse a crescer entre os carros e as motos que aguardavam a travessia. Primeiro os olhares impacientes. Depois os gestos. As buzinas. As palavras atravessadas. A irritação que se espalha rapidamente quando homens percebem que precisam esperar.

Esperar por mulheres.

E então, em poucos instantes, aquilo que deveria ser apenas uma pausa mínima no fluxo da cidade se transformou em um cenário de hostilidade. A tensão aumentou, a violência escalou e, por muito pouco, não presenciamos uma tragédia. Os responsáveis pela segurança do trânsito, sem qualquer preparo para a situação, lançaram gás de pimenta contra as manifestantes, ignorando, inclusive, a presença de crianças na marcha.

Depois que os carros voltaram a circular, vieram os xingamentos. Insultos gritados pelas janelas, palavras jogadas como pedras contra aquelas que ainda caminhavam. Como se aqueles cinco minutos fossem uma afronta imperdoável.

Mas o que esses cinco minutos revelaram é algo muito maior do que um episódio isolado. Eles expuseram o quanto a presença das mulheres, quando ocupam espaços públicos, ainda é tratada como incômoda, como interrupção, como algo que precisa ser tolerado e não reconhecido como legítimo.

Porque não eram apenas cinco minutos de trânsito parado. Eram cinco minutos em que mulheres estavam no centro da rua, e não nas margens. Cinco minutos em que a cidade precisou se ajustar à existência delas. Cinco minutos em que homens foram obrigados a esperar.

E, para alguns, isso já foi demais.

A reação desproporcional revela um traço profundo da cultura que sustenta a violência contra as mulheres: a ideia de que o tempo dos homens vale mais. Que a pressa deles é prioridade. Que o direito deles de seguir em frente não pode ser interrompido.

Quando essa lógica é contrariada, mesmo que por poucos minutos, a irritação aparece rapidamente. E a violência também.

A banalização da violência contra as mulheres nasce justamente aí, nesse terreno aparentemente trivial. Em situações cotidianas, pequenas, quase banais. Um desacordo. Um limite imposto. Um “não”. Um espaço ocupado.

Ou cinco minutos de espera.

Porque para muitos homens, a simples experiência de serem contrariados por mulheres já é vivida como afronta. Como desrespeito. Como algo que precisa ser corrigido.

É assim que a violência vai se naturalizando. Não começa necessariamente nos casos extremos que chocam o país. Ela começa nesses momentos em que a raiva masculina encontra justificativa em situações pequenas. Pequenas o suficiente para parecerem insignificantes.

Mas nunca são!

Os mesmos homens que se irritaram com cinco minutos de espera vivem em um país onde mulheres esperam décadas por justiça, por políticas públicas, por proteção. Onde esperam, muitas vezes, que a violência pare antes que seja tarde demais.

Cinco minutos pareceram insuportáveis para eles.

Para nós, mulheres, o insuportável tem sido esperar a vida inteira por respeito.

E é exatamente por isso que seguimos marchando.

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  • Bia Vargas

    Catarinense de 38 anos começou a empreender quando foi mãe. Voluntária social desde os 13 anos passando por grupo de jov...

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