A recente eleição de Pietra Travassos como Miss Santa Catarina 2026 provocou uma enxurrada de comentários ofensivos: “ela não representa o estado”; “não tem cara de catarinense”; ou, “foi eleita por cota”. As ofensas são majoritariamente de cunho racista e xenofóbico. Apontam para toda uma confusão sobre o que é, e o que não é, representar um estado como Santa Catarina. 

Ao mesmo tempo, porém, essa discussão joga luz sobre um problema estrutural ainda ignorado pelos catarinenses: a falta de políticas afirmativas e preventivas que possibilitem que a população negra seja, de fato, parte integrante das narrativas catarinenses, ocupando os espaços públicos, culturais e institucionalizados.

Enquanto muitos se escandalizam com a “incompatibilidade” entre a beleza ou o perfil da Miss e a “cara do estado”, ignoram que Santa Catarina foi — e ainda é — construída por trajetórias e pessoas muito além da imagem euro-colonial que se pretende ideal.

O ataque à Pietra revela que, para certos setores, essa “representação” é sinônimo de “ser branco, loiro, de origem europeia”. O que automaticamente exclui a população negra, parda, indígena e miscigenada.

Curiosamente, os dados mostram que o estado ocupa um dos primeiros lugares no país em registros de injúria racial. Segundo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram notificados 2.047 — uma taxa de 25,4 casos por 100 mil habitantes, a maior do país. No ano anterior, 2023, foram cerca de 1.300 casos, o que representa um aumento de 57,5% em relação ao período anterior. 

Se aceitarmos que a beleza, a cor da pele ou a origem não deveriam impedir alguém de representar o estado, então a pergunta legítima passa a ser: que investimentos Santa Catarina fez para que a população negra se visse representada nos diversos espaços, entre eles, políticos, educacionais, culturais e institucionais?

Um estudo recente do Tribunal de Contas do Estado de SC constatou que, em 2023, muitos municípios catarinenses responderam de forma incompleta, ou simplesmente não responderam, sobre políticas dirigidas à população negra. Por exemplo, em cargos de maior prestígio, como deputados e conselheiros, os percentuais de pessoas negras são próximos de zero; no relatório consultado, não havia nenhum deputado estadual negro. Ou seja: a população negra está sub-representada ou invisibilizada, inclusive, nas estruturas de poder. 

Outro ponto: o Estado se autodeclara aderente a sistemas nacionais de promoção da igualdade racial, como o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir), e tem gerências específicas de igualdade racial, mas o diagnóstico aponta que ainda está muito longe de implementar políticas de investimento robusto.

Logo, quando dizem que “ela não representa”, o que deveria realmente estar em debate é: quem está investindo para que ela, e tantas outras, possam, de fato, representar? Porque, se nada mudar, continuarão sendo exceções simbólicas em um contexto em que a maioria enfrenta invisibilidade, preconceito e exclusão. 

Primeiro, Santa Catarina tem uma população negro/parda que representa 23% da população, porém, lidera em casos de injúria racial. Segundo, a ideia de “representar” não deve se limitar à aparência estética de quem veste uma faixa e, sim, se estender à ideia de que esse indivíduo pode simbolizar e dar visibilidade à pluralidade do povo catarinense.

Portanto, Pietra Travassos representa Santa Catarina. Mas ela também simboliza um chamado para que o estado invista de verdade em políticas de enfrentamento ao racismo, em educação antirracista, em inclusão no currículo escolar e na ocupação de espaços de decisão. Para que ela não seja uma exceção, e sim parte de uma geração que também ocupa esses lugares.

Quando um estado registra milhares de casos de injúria racial e, ao mesmo tempo, quase não possui políticas públicas afirmativas ou investimentos direcionados, o custo humano é alto. Não só pelos atos isolados de ódio, como também pela mensagem estrutural que transmite: “você pode existir, mas não ocupar!”

As consequências são claras: pessoas negras se sentem desconectadas da ideia de “pertencer”, evitam denunciar porque não acreditam que vão ser levadas a sério, não encontram modelos de ascensão ou visibilidade e, assim, o racismo permanece invisível e impune.

A crítica à escolha da Miss não é desvinculada dessa realidade estrutural. A revolta de quem afirma “ela não representa” esbarra justamente na crença, consciente ou não, de que “representar o estado” é ter características europeias coloniais, e que a pele negra e o cabelo encaracolado não fazem parte desses “ideais”. A invisibilidade, nesse sentido, não é apenas simbólica, é política.

Precisamos de ações urgentes: que o Estado e o Legislativo catarinense destinem orçamento real e monitorado para políticas de igualdade racial; formação antirracista nas escolas; valorização de comunidades negras; fortalecimento de conselhos de igualdade racial.

Que haja metas e indicadores públicos para a participação da população negra em cargos eletivos, conselhos, empresas públicas e privadas no estado; e que o Estado catalise essas vocações.

Que a juventude negra de Santa Catarina tenha visibilidade: programas de formação, bolsas e incentivo para que se tornem modelos comunitários.

Que o discurso público mude. Em vez de “ela não representa”, que se diga “ela representa e nós precisamos de mais representações como a dela, até que isso deixe de ser notícia”. 

Que a pluralidade de Santa Catarina seja assumida como riqueza, e não como desvio.

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