Uma vida dedicada às lutas das campesinas

Foto: Clarissa Peixoto

Impossível falar da luta das mulheres agricultoras do Brasil e não falar de Luci Choinacki. Natural de Descanso, oeste de Santa Catarina, ela dedicou grande parte de sua vida à luta pelos direitos e valorização das mulheres do campo.

Luci, que foi deputada constituinte e deputada federal por quatro mandatos pelo Partido dos Trabalhadores, começou sua carreira política nos movimentos das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs e ajudou a fundar organizações importantes no Estado, como a Central Única dos Trabalhadores, em 1984, o movimento das mulheres agricultoras e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

Depois de quase 40 anos de dedicação exclusiva à vida política, Luci retomou a vida de agricultora. A ex-deputada cultiva alimentos orgânicos, sem o uso de agrotóxicos, em um terreno arrendado  num bairro rural da capital catarinense e vende os produtos para moradores do Rio Vermelho, no norte de Florianópolis.

Distante da rotina parlamentar e dos debates calorosos da Câmara dos Deputados, espaço onde defendeu ativamente o acesso das mulheres à previdência, Luci vê com preocupação as propostas de Michel Temer na reforma da Previdência. “Eu espero que as mulheres mais jovens se preocupem com isso e se mobilizem. O que nós conquistamos lá atrás não pode ser destruído agora. Isso é retroceder. Vai prejudicar a continuidade da nossa emancipação e a luta por mais direitos”, salienta.

Ela diz não saber de onde ela e outras mulheres tiraram forças para alcançar tantas conquistas, como a aposentadoria das mulheres agricultoras, das domésticas, o direito à salario maternidade para as mulheres do campo e vários outros direitos. “Eu gosto de lembrar que a gente teve um mentor na época que foi o Bispo Dom José Gomes, da diocese de Chapecó. Ele disse uma vez para nós mulheres: vocês tem direitos, basta vocês se organizarem, terem coragem e lutar pelos seus direitos”.

Para Luci, a fala de Dom José Gomes, foi encorajadora. Na época, as mulheres do campo não tinham nenhum direitos e não participavam de espaços públicos. Aposentadoria e salário maternidade nem passava pela cabeça. “A gente ter coragem de acreditar e tornar realidade, isso é muito bom. Até hoje eu penso que fizemos uma força além da nossa conta. Eu que estava lá na roça, lá no interior, acreditei que era possível e ainda convenci outras mulheres a lutar. Com isso transformamos uma ideia e tornamos um direito concreto”, conta.

Ela recorda o esforço que a luta pela regulamentação do direito à aposentadoria às mulheres exigiu, em 1994, quando Luci era deputada e uma das principais defensoras da pauta na Câmara Federal. “Muitas não tinham documentos, tivemos que fazer vários debates e e formar uma lei que ajudasse essas mulheres, que até o dia anterior não eram reconhecidas como trabalhadoras. Conseguimos aprovar esse artigo, que salvou milhões de mulheres, incluindo-as no direito à aposentadoria”.

Luci reforça o que ensinou Simone de Beauvoir: em grandes mudanças e crises, os primeiros direitos a serem questionados são os das mulheres. “Passam 20, 30 anos, os que são contra os direitos das mulheres continuam repetindo as mesmas frases. Sempre tem um discursinho pronto pra dizer que nós não temos direito, que as agricultoras dão prejuízo para a previdência, como se a previdência não fosse social, apenas contributiva”

Luci não consegue compreender a insensibilidade dos políticos que não entendem as diferenças de direitos entre homens e mulheres, do campo e da cidade.

“As horas de trabalho da mulher na roça são incalculáveis. Eu sei por que trabalhei na roça e trabalho agora. Não tem hora, enquanto a gente aguentar fazer, vai fazendo. E quando acaba o serviço da roça, começa o de casa, é essa a rotina das que eles dizem que não contribuem”.

A deputada só vê uma alternativa para barrar essa reforma da previdência e impedir que conquistas históricas sejam perdidas, que é o despertar do povo. “Cada momento da vida e da história é uma conjuntura, mas acredito que o povo se desperte, por que ele é o único que pode pressionar para que não aconteça essa reforma”, destaca Luci.

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