Coluna da Cristiane Brasileiro

Vida e morte, arte e vida – sobre as linhas entrelaçadas

Postado em 22/09/2016, 7:49

… a gente morre é pra provar que viveu.

(Guimarães Rosa)

Foi como atravessar um velório, naquele fim de tarde: vim caminhando devagar pela rua, depois de ter ido buscar meu filho menor na escola. As mulheres que estavam paradas no portão um pouco antes, aguardando a saída das crianças, só falavam naquilo. Em voz baixa, pesarosas, desconcertadas.

Passei pela padaria, encontrei outras vizinhas. Fui à mercearia, à loja de ração, ao açougue. O coro continuava se formando, e elas me cumprimentavam como a uma velha conhecida com quem podiam, talvez, dividir um pouco aquele baque. Se perguntavam, me perguntavam: e agora, como é que vai ser? Ninguém chorava. Já sabemos que poderia parecer estranho chorar em público por um ator de novelas.

O lugar onde tenho morado já foi um bairro operário, com casinhas quase iguais construídas num terreno desvalorizado porque costumava ser inundado na época das chuvas. Minha avó me dizia que, quando isso acontecia, crianças se afogavam em fundos de quintal tomados pelas águas. Uns passos adiante, foi construído o cemitério.

Talvez, em parte, tenha sido por isso que as notícias mobilizaram tanto minhas vizinhas. A gente nunca sabe muito bem por quais caminhos somos tocadas.

O que sei é que as linhas foram se cruzando nas falas que eu ouvi a partir dali: ele já havia encenado algo parecido, pouco tempo antes, mas tinha sido salvo das águas pelos índios; ele já tinha escapado de tantos atentados, quem sabe sairia vivo de mais aquele; ele deixava mulher e filhos ou então filhas; havia tantos amigos e amigas que o admiravam de verdade; os índios o homenagearam mais uma vez, agora como o novo protetor do rio. E havia aquelas mulheres, muitas, aquelas que ainda viam novelas tomadas por velhas correntezas, aquelas que mal entendiam por que estavam sentindo o coração afogado daquele jeito.

Não, não adiantava dizer que vida e ficção são coisas totalmente diferentes, ou chamar todas aquelas mulheres de ingênuas e tontas e equivocadas, ou dizer que não fazia nenhum sentido todo aquele sentimento mal contido. (Inclusive ou principalmente porque dizer esse tipo de coisa é que talvez fosse um gesto afinal muito ingênuo, muito tonto, muito equivocado.)

O fato é que aquele ator já havia encarnado, antes, outros personagens parecidos com o de agora. Havia alguma coisa no seu corpo ou no peso do olhar ou nas marcas do rosto ou no sorriso ou na tristeza ou na mansidão que ele tinha ou na força – vá saber – que o ligou muitas vezes à figura de uma liderança popular. Primeiro um capitão sertanejo, depois um líder operário, agora um camponês dedicado a fazer funcionar uma cooperativa que era continuamente sabotada pelos velhos e pelos novos coronéis. E sempre aquilo: nas tramas das novelas, os personagens dele eram atacados de todas as formas, desacreditados, perseguidos como se fossem alvos móveis. Fosse nos lombos dos cavalos, nas ruas, nas passagens de uma obra a outra.

Estranho: quase não tocaram nesse ponto, nos últimos dias. Tantos tiroteios depois.

Vamos supor que não tenha sido tão por acaso que ele tenha se tornado o ator de TV mais profundamente ligado a esse tipo de personagem, nos últimos anos. Vamos supor que houvesse mesmo algo nele que inspirava ou que traduzia isso, e vamos supor que esse tipo de homem que ele representava até exista mesmo. Vamos supor que vida e arte não sejam assim tão separadas, e que aquilo que andava comovendo tantas mulheres na minha rua e em tantas outras ruas não fosse só uma miragem sem qualquer substância. Vamos supor que aquele tipo de homem imerso nas lutas coletivas mais duras e no entanto tão gentil e generoso represente algo de fato admirável também fora das telas.

Me ocorreu, até: talvez fosse possível traçar muito da nossa sede de evolução social e política através dessas paixões coletivas de mulheres comuns por personagens da ficção. Ou pelos atores que dão vida a eles, e nos lembram que a arte não é necessariamente um objeto de luxo pra poucos eleitos, ou um entretenimento inofensivo, ou um signo de distinção social ou um recurso pra fazer sucesso e ganhar contratos. Aqueles que nos lembram que isso que chamamos de arte pode ser, também, o que é criado pra nos renovar a sensação da vida. E que aí rasuram essas fronteiras entre vida e arte, cruzam essa linha de fogo, perturbam as narrativas acanhadas nas quais tantas vezes passamos a vida enredadas. Mergulham. Nos trazem de novo à tona. E nesse movimento, como atores, servem de passagem pra tantas outras vozes e vidas – como as pessoas, aliás, também podem servir.

(Ah, sim… Devo lembrar que, no meio disso, há também a lendária e poderosa Globo, se infiltrando em todas as nossas chances de visão e de reação, e que talvez controle tudo com aterradora onisciência. Ou, por outro lado: que não controla tão completamente, como pudemos ver – nem antes e nem depois dos tristes fatos. O trabalho humano sempre produz uma espécie de excedente incapturável. Nesse sentido, as pessoas nunca servem apenas aos seus patrões,  mas também e sempre a si mesmas e aos sonhos que as atravessam.)

O que sei é que, no dia em que Domingos Montagner morreu, minha filha chegou da escola e veio até mim em silêncio constrangido e sem mais recursos, e aí me abraçou muito mais forte do que de costume, sem saber nem o que dizer a esta mulher tão comum que sempre tenho sido. Lá fora, seguiam seu curso as brigas claras ou abafadas dos vizinhos, as misérias que as crianças sofrem muito cotidianamente, uns risos esparsos e uns carros passando, um apito de trem, os sinos de uma igreja. E também Santo dos Anjos e seu nome absurdo, profético, certeiro. E também os medos e os desejos meio insondáveis das mulheres, com suas mil revelações por vezes tão discretas.

Ainda me lembro que, pela manhã, eu havia acreditado que a notícia principal do dia iria ser o fato quase inacreditável  (e no entanto tão previsível, considerada a trama em curso) de que aquele magistrado superstar havia aceitado, enfim, a denúncia longamente cultivada contra um líder popular chamado Lula. Eu tinha pensado em escrever sobre aquilo.

Mas enfim: exatamente como um rio ou como um redemunho oculto, vida veio e me levou.




Doutora em Literatura pela PUC- Rio, professora adjunta na UERJ. Coordena projetos na área de formação continuada para professores da rede pública do RJ e na área de educação a distância. Mãe solteira de uma filha grande e de um filho pequeno. Diariamente cozinha, lava pratos, varre a casa e tenta mudar o mundo.
Veja a coluna da Cristiane Brasileiro