Esse é o primeiro poema da Série Convivência pelo coletivo Abrasabarca/Imagem: Davi Gardoni Almeida

Coluna da Abrasabarca

Série Poéticas da Convivência: atonal

Postado em 20/04/2020, 18:02

O coletivo de mulheres poetas estreia uma série dedicada a estes tempos de isolamento social

A sereia adentra a barca
Vem de águas profundas
Perfura o casco
Penetra os porões

Sobre a madeira
Seca e sem brilho
Move a cauda
Move os lábios

Seu lamento
Enigmático
Espalha-se por corredores

A sereia crê
No abandono
E nos lamentos que ouve
Percebe eco
Fantasmagoria
De si

Em paralelo
Andares acima
Cada uma em sua clausura
As insensatas
Ouvem o lamento
Da sereia e veem
As mesmas miragens
Uma vez mais

A arca é muito habitada
Baias separam as filhas da lua
Mas suas almas vagueiam
Por todo o navio
Em combates de água e fogo

Cantam alto as filhas da lua
Cada uma em língua única
De onde tentam sair
Em uivo polifônico

Canta alto a sereia
E todo canto parece
Às filhas da lua
Um lamento de clausura

A sereia, contudo
É livre, e lamenta
Que lhe respondam
Em língua estrangeira
Os seus fantasmas

A sereia parece livre
Frequenta mares e terras
Navega com ou sem nau
Mas não escapa
De ouvir seu próprio canto
Que insiste em abismos

*Autora: Ana Araújo 

 




ABRASABARCA se dedica à pesquisa, descoberta e (re)invenção poética. Somos um coletivo que se formou em encontros para ler poemas e falar de literatura em torno da mesa, da fogueira, do vinho, dos livros. A brincadeira de ler em conjunto o texto de outras e outros nos trouxe o desafio e o prazer da escrita autoral. Formado por Ariele Louise, Ana Araújo, Elisa Tonon, Ibriela Sevilla, Juliana Ben, Juliana Pereira e Luciana Tiscoski, realizou as publicações Abrasabarca (Medusa, 2018) e Revoluta (Caiaponte, 2019). Principais performances: Durar ou arder? (Quinta Maldita, 2018), Uma mulher o que é? (Sarau da Tainha, 2019), Como olhas? (FestiPoa Literária, 2019), Revoluta (Bienal Internacional de Curitiba/ Polo SC, 2019).
Veja a coluna da Abrasabarca