ser-professora-barbara-biscaro_scomuns
Foto: @scomuns

Coluna da Barbara Biscaro

Ser professora

Postado em 11/03/2022, 15:02

Ser professora. Uma reflexão que tem me atravessado desde o primeiro dia em que coloquei os pés na universidade pública brasileira como docente, no ano de 2016. O primeiro grande desafio, como já expressei em algumas reflexões mais acadêmicas sobre a minha prática em sala de aula, foi atravessar a barreira da autoestima da profissão docente no país, entrando em contato com meus próprios preconceitos.

Ser professora é considerado, culturalmente, algo menor. Em quase todas as áreas do conhecimento isso é um fato. A arquiteta que não deu “certo” vira professora e assim por diante (preencha a frase com sua profissão). Uma clara distinção entre aquele que dá certo no mundo da iniciativa privada, o self made man inalcançável do projeto neoliberal: acredite, lute, empreenda, trabalhe e você vai dar certo, mas para isso vai ter que pisar em todas as outras pessoas ao seu redor, pois amiga, não há espaço para todas no mundo da uberização do trabalho.

E, do outro lado, aquele profissional que não dá certo e vai para o ensino público ser professora, esse lugar que todo mundo gosta de falar mal, pisar, diminuir, e encher a boca para falar que não é acadêmico. Daí, lembra convenientemente na hora do hashtag #souescolapública para garantir os likes da semana na rede social de plantão.

Se você for buscar o real entendimento do que é esse continente chamado educação pública, vai perceber que é um universo feito de pessoas, com suas contradições, suas histórias de vida, atravessadas pelas políticas públicas desenvolvidas (ou solapadas) na área, adoecidas pelas instituições pesadas, minadas pela instabilidade política e econômica, enfim, doentes de mundo. Um mundo herdado. Um mundo cheio de história no qual você se percebe como somente uma mera continuadora de uma longa cadeia que dura já gerações, por vezes séculos.

Sou uma professora precarizada, por exemplo. Não tenho estabilidade de trabalho e percebo claramente que a tendência é essa daqui em diante. Foi esse o projeto que o governo que conseguiu chegar ao seu quarto ano previu em seu plano: acabar com toda e qualquer garantia ou estabilidade para a trabalhadora, para que ela possa competir no mundo selvagem do mercado financeiro. Trabalhar por trocados, literalmente.

Essa situação faz com que, convenientemente, pessoas de uma mesma classe trabalhadora agridam-se umas às outras, tirando o foco do que realmente importa. Temos visto isso com certa frequência nos meios da cultura e da educação: pessoas que deveriam estar solidarizando-se umas com as outras estão dedicando-se exaustivamente a campanhas de ódio na internet. Tudo muito convenientemente planejado pelo projeto de mundo que herdamos.

Também, em nosso contexto atual, há uma massiva quantidade de doutoras, profissionais hiperqualificadas no país que estão hoje sem trabalho e sem perspectiva de tê-lo. Ou agentes culturais importantes, como grupos de dança, de teatro, de música, espaços culturais, instituições, entre outros muitos, que após longos anos de trajetória veem o seu legado virar pó da noite para o dia, anos de história que não se convertem em capacidade de pagar o próprio aluguel ou a alimentação mensal.

Em 2008 eu vivia na Itália quando a crise do mercado imobiliário abateu o mundo. Meus amigos e amigas mais próximos passaram de psicólogas, engenheiras, atores e atrizes para garçonetes, arrumadeiras de hotel, estudantes de concurso público, assistentes de escritório. Quase todos voltaram para a casa dos pais ou precisaram deles para sobreviver. Era uma geração completamente desiludida com o seu destino como profissionais.

Aquele sonho infantil de ser astronauta, engenheira ou cantora e a promessa de que se você estudasse chegaria lá não se concretizou. Eu, latino-americana que sou, achava que reclamavam de barriga cheia, pois mesmo com essas dificuldades, a condição de vida que tinham (cidades vivas, arte e cultura, segurança pública, estabilidade financeira, possibilidade de trabalho fácil, etc.) era em muitas vezes superior a qualquer perspectiva que eu teria de viver bem no Brasil daquela época.

Escolhi voltar ao meu país porque era o lugar em que estavam acontecendo coisas muito mais vivas.

Passados catorze anos, revejo o mesmo filme ocorrer em minha cidade, mas em um contexto muito mais avassalador do que aquele que presenciei. Tristes ciclos da vida social e política de nosso tempo.

O retorno às aulas da universidade pública é algo urgente. Este é um ano em que os últimos espaços do pensamento livre e da ação com possibilidade de ser transformadora precisam ser reapropriados, voltar a estar vivos. Esse é um ano difícil, de pandemia que não acaba, de guerra que bate na porta, de gente passando fome e pessoas muito, mas muito irritadas dispostas a atirarem umas nas outras, caso suas vontades não sejam feitas.

Sendo assim, eu penso muito no meu ser professora nesse contexto. Imagino que não chegamos aqui, as gerações e as pessoas, por mero acaso. E o momento é de responsabilizar-se por suas decisões, por suas atitudes, por seus posicionamentos.

Uma professora é uma pessoa adulta. Não a tia da escola do interior, a tiazinha sexy do programa de televisão, a professora-ídolo, a mãe disfarçada, entre tantos outros clichês que a profissão acumula na cultura. Ser professora é ser uma trabalhadora da educação. Quando entro em sala de aula eu estou no meu trabalho, como uma padeira na frente do forno ou uma médica na sala de cirurgia. Não importa se você ensina teatro, química ou literatura.

Ano passado vivenciei uma situação muito forte e, em uma consulta com uma advogada sobre um caso de violência docente, ela desenhou um panorama preocupante no Estado de Santa Catarina: o nível da violência de alunos e alunas contra professoras chegou a um nível tão alarmante, que as campanhas de difamação que um profissional da educação sofre sistematicamente na internet é considerado, pelo juiz, ossos do ofício.

Assim como morrer de Covid se você é enfermeira, ou levar um tiro se é policial. Simples assim. Ser professora e ser difamada nas redes sociais virou uma prática que os advogados agora te orientam desse modo: espere alguns meses e vai passar, porque o assunto vai acabar e isso vai virar notícia velha. Caso você seja demitida, alguém te agrida na escola, caso pichem o seu carro ou te ameacem de morte, voltamos a conversar.

Perigoso ser professora no Brasil. Há um chamado perverso do auto sacrifício na fogueira das vaidades de nosso tempo: mas nenhuma pessoa merece ser sacrificada em nome de nada. Aplaudir os profissionais da saúde na pandemia, chamá-los de heróis e deixá-los morrer, essa é a tônica de nosso tempo: se você teve seus cinco minutos de fama na narrativa sensacionalista, você pode se considerar pronto para a morte com honras e aplausos. Eu, por exemplo, não tenho nenhuma propensão ao sacrifício.

Quero transcender o desejo de brilhar no fugidio mundo do neoliberalismo e me dedicar a pensar realmente na sociedade como um sistema, um organismo, como suas hierarquias, seus fluxos, suas regras, suas rupturas.

É por isso que sou professora de teatro: para aguçar a capacidade de diferentes gerações que passam por minhas mãos para as diferentes possibilidades de mundo que esse nosso próprio contexto nos apresenta.

Para ensinar as coisas que aprendi com meus professores e professoras, sabendo que carrego em meu corpo conhecimentos importantes que precisam ser passados de geração a geração.

Nesta semana de luta do Dia Internacional das Mulheres, mando um salve para todas as colegas professoras que atuam na educação pública e privada do país. Que nós, como mulheres da ciência e da arte, possamos manter nossas pesquisas teóricas e práticas fortes e uma luta alegre para conseguir cada vez mais espaço em um mundo absolutamente patriarcal e tóxico das instituições públicas brasileiras.




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
Veja a coluna da Barbara Biscaro