Foto: arquivo pessoal da autora

Coluna da Emanuelle Goes

Racismo e desigualdades: o que há de democrático na Covid-19?

Postado em 09/04/2020, 18:28

“Quando a América branca pega um resfriado, a América negra pega pneumonia”, Steven Brown (Urban Institute).

A Covid-19 é democrática? Debates sobre a transmissão do vírus têm levantado essa discussão, que todas as pessoas independentes de raça, classe, gênero estão expostas ao coronavírus da mesma forma. Mas como é possível que em países e sociedades com desigualdades profundas as populações sejam atingidas de maneira igualitária? Ao desembarcar Brasil o novo coronavírus mostrou que não era bem assim, a “patroa” em quarentena transmitiu o vírus para a funcionária que não tinha sido informada de risco de contágio, a trabalhadora doméstica de 63 anos que morreu, sendo o primeiro registro de morte no País. O vírus ao atravessar a barreira racial mata.

Aprendo com Grada Kilomba (1) ao dizer que a divisão geográfica resultante dessa coreografia racista pode ser vista como uma fronteira entre o mundo de “superiores” e o mundo das/os “inferiores”, entre o “aceitável” e o “inaceitável” […] evitando a contaminação das primeiras (brancas) pelas segundas/os (negras). Mas, o inverso o coronavírus nos mostrou que pode e é aceitável.

O lugar onde o Estado não chega, o vírus irá chegar como acontece com todas as epidemias, este lugar tem raça/etnia e gênero, são as pessoas negras, as mulheres negras que ocupam esses territórios.

No Brasil ainda não temos dados desagregados por raça/cor para a Covid-19, mas basta olharmos para epidemias anteriores, a mais recente do zikavírus ou das doenças negligenciadas como tuberculose, hanseníase e sífilis. São as pessoas negras que vivem em situação de vulnerabilidade, seja no contexto de rua, de prisão ou nas moradias precárias. “Quando estou na cidade, tenho a impressão que estou na sala de visita […]. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”, escreveu Maria Carolina de Jesus (2) em Diário de uma Favelada.

Neste lugar o racismo estrutural se faz presente. Bairros negros segregados, onde pessoas negras são alocadas em áreas marginalizadas, à margem, impedidas de terem contato com recursos e bens brancos. A guetificação foi criada para promover o controle político e a exploração econômica das pessoas negras. Nos Estados Unidos já podemos ver a segregação racial do novo coronavírus e a sua distribuição desproporcional, na última terça-feira (7) a população negra representava 33% dos casos em Michigan e 40% das mortes, apesar de serem apenas 14% da população do estado.

No Condado de Milwaukee, Wisconsin, onde as/os negras/os representam 26% da população, eles são quase metade dos 945 casos e 81% de suas 27 mortes, segundo um relatório da ProPublica. Em Illinois, os negros representaram 42% das mortes, mas apenas 14,6% da população do estado. Em Chicago, os dados são ainda mais graves: os negros representam 68% das mortes da cidade e mais de 50% dos casos, mas representam apenas 30% da população total da cidade.

O racismo é um determinante social da saúde, as condições de vida e morte das pessoas negras estão atravessadas por ele. A população negra acumula morbidades como hipertensão, diabetes, câncer, HIV/Aids e tuberculose, sendo o reflexo das condições desiguais às quais está submetida ao longo da vida. Nos serviços de saúde, negras e negros estão expostas ao racismo nas suas diversas formas, desde a iniciativa em procurar o serviço até no acesso ao teste, diagnóstico e tratamento, momento em que se instala o viés racial implícito que vai direcionar a tomada de decisão dos gestores, profissionais e trabalhadores da saúde.

O novo coronavírus não discrimina, mas para os médicos em saúde pública que estão na linha de frente em resposta à pandemia já pode ser visto o surgimento de viés racial e econômico, assim começa o artigo The Coronavirus Doesn’t Discriminate, But U.S. Health Care Showing Familiar Biases. Em uma análise inicial, o texto informa, “parece que é menos provável que os médicos encaminhem os afro-americanos para testes quando comparecem ao atendimento com sinais de infecção”. Em Memphis, um mapa de calor mostra onde o teste de coronavírus está ocorrendo, revelando que a maior parte da triagem está ocorrendo nos subúrbios predominantemente brancos e ricos, e não na maioria dos bairros negros e de baixa renda.

Deixar viver, deixar morrer, é desta forma que as sociedades estruturadas pelo racismo organizam as vidas de pessoas negras e brancas. O mundo tem essa estrutura, pois hierarquiza a humanidade, humanos (brancos/as) e subumanos (negros/as e indígenas).

A antinegritude é o fundamento da humanidade (4), e é essa humanidade que busca a salvação nos subumanos, ao tentar mais uma vez transformar a África em cobaias ou decidir onde vão realizar os testes para o tratamento do novo coronavírus. Estão todos no mesmo pacto histórico-político-ideológico de genocídio negro, vivemos em um mundo antinegro.

O racismo é um processo histórico que se renova e aprimora ao longo do tempo. O racismo define como as pessoas negras vão viver adoecer e morrer nos lembra Fernanda Lopes (5). A ONU recomenda que os países comprometidos com a equidade racial na saúde criem esforços para garantir esse compromisso, pois as discriminações tendem a adensar as taxas de mortalidade pelo novo coronavírus. Sabe-se que as pessoas presas, são majoritariamente, homens negros e mulheres negras, são esquecidos/as justamente por isso, não porque cometeram um crime e sim porque são negros/as, que o enfrentamento ao racismo e a garantia da equidade racial se tornem centro do debate da pandemia do sul ao norte global, porque o que vejo daqui é um genocídio negro em curso.

Referências

  1. Grada Kilomba. Memórias Da Plantação: Episódios De Racismo Quotidiano. Ed. Cobogo, 2019.
  2. Carolina Maria de Jesus. Quarto de Despejo – Diário de Uma Favelada. 10ª ed. Editora Ática. 2014
  3. María Lugones. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 22, n. 3, jan. 2015.
  4. João H. Costa Vargas. Racismo não dá conta: antinegritude, a dinâmica ontológica e social definidora da modernidade. EM PAUTA, Rio de Janeiro _ 1o Semestre de 2020 – n. 45, v. 18, p. 16 – 26.
  5. Fernanda Lopes. Experiências desiguais ao nascer, viver, adoecer e morrer: Tópicos em Saúde da população negra no Brasil. In: Brasil. Ministério da Saúde. Seminário Nacional da Saúde da População Negra. Brasília, 2004.

(Outras referências estão lincadas no texto).

 




Emanuelle Goes é doutora em Saúde Pública com concentração em Epidemiologia (ISC/UFBA). Realizou Doutorado Sanduíche na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (Universidade do Porto). Mestra em Enfermagem pela UFBA com concentração em Gênero, Cuidado e Administração em Saúde, na Linha de Pesquisa Mulher, Gênero e Saúde. Conselheira Nacional de Saúde pelo segmento de usuárias – Movimento Negro (2016). Idealizadora do blog População Negra e Saúde (2011) e fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra (2012). Conselheira editorial do Portal Catarinas.
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