Foto: arquivo pessoal da autora

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Lua Costa

Postado em 26/03/2021, 7:50

Chicas que escrevem: Você poderia começar se apresentando para o público? Quem é a Lua Costa?
Lua Costa: Sou alguém em construção. Sim, talvez uma pseudoresposta clichê, mas a mais verdadeira que posso dar. Talvez de forma bem sincera e curta, possa usar um trecho de um texto que postei recentemente:

“Sou a pessoa que se demora no observar. Tentando captar o máximo de elementos que caibam apenas em um olhar. Como se fosse alguém com muita sede e tivesse que beber o copo desejado com um pequeno conta gotas.

E se embrenhasse pela vida com deslumbramento e um medo secreto de não conseguir admirar, sentir e viver tudo o que há. Uma pena saber que é verdade, mas ainda gosto de sorver esse líquido de realidade com toda a avidez que me cabe.

Goles rápidos.

Cruelmente curtos.

Eu sou a pessoa que não anda, se maravilha.

A que está sempre pensando em jeito novo de eternizar o que vê quando fecha os olhos e de conseguir traduzir do modo mais simples a grandeza das coisas que se revelam imensas num segundo de contemplação, mas banham-se no profundo oceano da nossa pressa.

Esta sou eu.

Fim de tarde, alguns quilos de sacolas nos braços, calos nos pés, cansada de andar, com fome e as ideias fervilhando, mas a alma me impeliu a registrar essa imagem e toda a beleza que cabe num momento antes de atravessar a rua.”

Bom, agora vamos falar sobre sua trajetória como escritora. Por que começou a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Comecei a escrever muito criança, pequenos poeminhas e coisas do dia a dia da infância, mas escrever de fato, começou a ser uma parte importante da minha vida a 10 anos, quando entrei na faculdade e criei um blog literário onde escrevia resenhas de livro e filmes, além dos meus poemas.

Tenho escrito pela necessidade de falar o que sinto dentro e o que vejo fora. Pelo desejo de eternizar as coisas que todos veem, mas poucos parecem prestar a atenção. Sei que não estou sozinha nesse motivo, mas preciso fazer a parte que me cabe, pois se não a fizer, acredito que estaria negando a um pedaço de mim. Talvez o mais útil e precioso.

Agora, enquanto leitora. Quais foram suas influências? Poderia nos contar um livro que te marcou? Qual foi sua última leitura?
Durante minha vida sempre escrevi mais poesia (sem nem saber o que era realmente) do que li. Sempre fui dos romances e outras ficções, mas esporadicamente lia poemas soltos que me conquistavam, pela alma contida nos versos… e assim, acho que me encontrei de alguma forma no poetizar. No ultimo ano li mais poemas do que na vida toda, contemporâneos, clássicos, publicados ou não, mas acredito que dos que mais li e me identifico são: Manoel de Barros, Clarice Lispector e Florbela Espanca. A poesia do simples e a melancolia me atraem.

Você acabou de publicar pelo Selo Auroras da Editora Penalux a obra “As areias da Ampulheta”. Poderia nos contar um pouco sobre essa obra? Como surgiu a ideia e o processo de criação?
‘As areias da ampulheta’ fala de tempo, memória e silêncio, transformando a rotina que nos molda os dias e a vida em poesia. De modo figurativo, a ampulheta simboliza o ser, a alma, o indivíduo; e as areias, representam as lembranças, sentimentos e tudo o que passa e acontece dentro de nós e diante dos nossos olhos: os grãos de nossa vida que caem contando o tempo de nossa existência temporal e atemporal.

Eu já tinha a maioria dos textos prontos quando percebi que eles se uniam de uma forma tão natural quanto as lembranças de uma vida, o que soou para mim de uma forma muito significativa pois tinha acabado de perder uma parte grande da minha, o meu pai.

O processo de criação foi a vida e a inspiração, acredito que foi uma das coisas mais espontâneas que já fiz na minha vida, pois sinto que o ‘Areias’ já existia em algum lugar, como uma frase que ouvi recentemente: “O que vai ser, já é. Só chegou o tempo der ser e nascer.

Além de escritora você também é cantora, certo? Como você a relação entre essas duas artes na sua vida?
Sim. Canto desde sempre: em casa, na igreja, no chuveiro, ônibus, enquanto caminho, na mente ou de verdade. Mas só recentemente comecei a mostrar essa outra arte que tanto me toma e me faz bem.

Música é poesia e poesia é música, e se completam nas composições e significado; ambas tocam a alma e emocionam, então, na minha vida essa é a relação das duas: tocar outras pessoas além de mim através da sua execução e produção. Que bom que finalmente me entreguei às duas.

Agora, falando de futuro, você está trabalhando em algum projeto atualmente? Se sim, poderia nos contar um pouco sobre ele?
No momento tenho me dedicado à campanha do meu livro, mas aos poucos, algo mais tem nascido. Há ideias para dois projetos escritos e plano para produzir produtos artesanais que tenham a ver com a minha arte, proporcionando lembranças para os sentidos, afinal, artes manuais também são uma grande paixão para mim.

Em geral como foram suas experiências de publicação? O que mais te marcou no processo?
Esta foi a primeira experiência de publicação e foi surpreendentemente tranquila, graças à Dani Costa Russo, minha editora, que sempre levou todo o processo de forma leve, bem humorada e se preocupando sempre com a questão psicológica e emocional, garantindo que fosse esse fosse um início marcante, porém leve e agradável, mesmo com toda a questão da competitividade e a tradicional falta de incentivo no que diz respeito à escrita e publicações femininas, tem feito um trabalho primoroso no selo Auroras. Toda a minha gratidão!

A parte de divulgação e vendas é realmente um desafio, e me fez trabalhar muito a criatividade para jogar o meu livro-filho no mundo de diferentes formas, usando tudo: música, poesia, declamação e recursos audiovisuais produzidos amadoramente por mim.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Algum conselho, ou, alguma mensagem final?
A maioria das coisas que você sonha são perfeitamente possíveis e por vezes, além de alguns obstáculos que a vida e a sociedade impõem, o que te separa delas é a decisão de ir buscá-las. Mulher, esposa, mãe, vivendo luto, sofrendo de ansiedade, consegui dar voo ao meu sonho de ser escritora, porque arrisquei buscar o ‘sim’ que não tinha, sem temer tanto o ‘não’ que poderia receber; e é claro que a minha régua não é a sua, mas mulher… a tua capacidade é imensa e as dificuldades não te definem, só vai. O mundo é teu!

Por favor, indique um livro para os leitores e também um filme ou série.
A sombra do Vento – Carlos Ruíz Zafón / Filme: Interestelar/ Questão de Tempo/ O fabuloso destino de Amélie Polain (desculpa, mas não consegui escolher apenas 1) / Série: Dark.




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
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