Imagem: Lu Tiscoski (@lu_nicornia)

Coluna da Abrasabarca

Poéticas da convivência: cão amarelo

Postado em 19/08/2020, 15:45

as palavras têm mais peso
agora que são nossa única saída
noite passada falou-se em abraço
minha amiga descreveu minúcias
e sentimos o calor da pele
mais tarde mencionei um cão
por dentro da pele eu senti
o rosto do vira-lata amarelo
que provisoriamente me tornei

o problema das palavras pesadas
é que é necessário escolher bem ao
lançá-las em direção a alguém
e medir com cuidado a força
versus a distância e a prontidão
entre quem lança e quem recebe
para ninguém se ferir gravemente

eu não disse, mas o cão amarelo
estava ferido e uma cadela
ferida não aceita ajuda salvo
lhe tampem olhos e boca

coloquei água num canto da sala
e passei o dia espiando
se a cachorrinha ia beber

ela se distraiu enfim da minha presença
bebeu um pouco de água
e não faz muito tempo
começou a cantar uma canção:
“dor minha pequena
não vale a pena despertar”

o cão amarelo revela seu nome
atende ao chamarem aurora
“uma aurora mais serena”
é um bom conjunto de palavras
pra quem quer começar a levantar peso

 

 

*Poema de Ana Araújo

 

 




ABRASABARCA se dedica à pesquisa, descoberta e (re)invenção poética. Somos um coletivo que se formou em encontros para ler poemas e falar de literatura em torno da mesa, da fogueira, do vinho, dos livros. A brincadeira de ler em conjunto o texto de outras e outros nos trouxe o desafio e o prazer da escrita autoral. Formado por Ariele Louise, Ana Araújo, Elisa Tonon, Ibriela Sevilla, Juliana Ben, Juliana Pereira e Luciana Tiscoski, realizou as publicações Abrasabarca (Medusa, 2018) e Revoluta (Caiaponte, 2019). Principais performances: Durar ou arder? (Quinta Maldita, 2018), Uma mulher o que é? (Sarau da Tainha, 2019), Como olhas? (FestiPoa Literária, 2019), Revoluta (Bienal Internacional de Curitiba/ Polo SC, 2019).
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