Coluna da Ana Claudia Araujo

O convite de Ana Júlia

Postado em 28/10/2016, 13:09

A carinha expressiva da estudante paranaense Ana Júlia Pires Ribeiro circulou repetidas vezes pela minha e pelas suas ‘linhas do tempo’ nos últimos dias. O discurso simples, emocionado e combativo da garota de 16 anos, aluna da fatídica escola pública, derreteu nossos corações, reacendeu esperanças e deve ter suscitado algum ódio também, não duvido. Não duvido mais do que pode provocar ódio ou amor, especialmente sob o nosso cotidiano político maniqueísta.

Enfadadas/os por tantas decepções políticas, desejamos desesperadamente ver novas faces, ainda que o discurso seja conhecido. Seria impossível não se envolver pelo olhar puro de quem ainda não cometeu equívocos políticos – por que não há equívocos injustificáveis aos 16 anos. Como não se orgulhar da coragem de quem faz o que a gente não faz, com aparente esperança real?

Só que a resistência da juventude não é novidade. Apenas nos últimos anos, ela esteve nos movimentos estudantil, pela educação, por direitos civis e transporte. Foi provocadora e protagonista de tantos outros momentos políticos. A própria resistência apenas é novidade pra quem se eximiu de participar das centenas de manifestações públicas em Florianópolis. Para quem não quis ver para além do trânsito parado e da ponte trancada. Para quem só recebe informação dos veículos tradicionais. O trabalho usa a maior parte da agenda diária, a igreja ocupa o resto do tempo. Tanto seriado massa pra ver…

Mas Ana Júlia não é única, é o que ela tenta dizer. Ela é um símbolo, não um fenômeno. Nas mais de mil ocupações escolares por todo o país – e agora algumas dezenas também em Santa Catarina – é possível encontrar outras. Talvez, não com o mesmo nível de oratória, uma habilidade que muitos/as não adquirem nem até os sessenta. Mas quem aceitar o convite que a estudante faz ao final do seu discurso, poderá ver com os próprios olhos a luta estudantil que a grande imprensa não mostra. Leve uma doação, uma aula. Se não puder, leve apenas o coração aberto e poderá também experimentar um tanto da coragem revolucionária de Ana Júlia.




Jornalista (UPF/RS), especialista em Políticas Públicas (Udesc/SC), mãe de ninja.
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