Lá no fundo da cabeça: “Cafuza sou eu… cafuza sou eu!”/Foto: Márcia Navai

Coluna da Ana Maria Veiga

Nos bastidores das Aidês

Postado em 01/03/2017, 16:46

Dia 25 de fevereiro, primeiro dia do Carnaval de Floripa. Duas da tarde e a maquiadora Isadora Souza já está a postos. É o primeiro trabalho dela com o Cores. No projeto de maquiagem, a valorização dos tons da pele. Na banda Cores de Aidê, a maioria das componentes é de mulheres negras. É a banda que está à frente do bloco de 100 mulheres, que abalou este Carnaval.

Oferecemos uma das bases de trabalho da Manacá Cine para a concentração – uma casinha aconchegante no Campeche, já que a noite de estreia do bloco no Carnaval aconteceria na praia da Armação. Do portão, acompanhamos os barulhos da chegada. Buzinas, gritos, risadas e abraços. A euforia da pré-estreia contagiava, desde o primeiro oi. Bem vindas Aidês!

A tarde de sábado correu longa, com provas de roupas na frente do espelho e desfile do figurino para aprovação das amigas. Uma tesoura na bainha (quem corta? Kadiza? Aline? Bê!) e a calça da Carla tá pronta! Agulha e linha no decote muito aberto, e assim vai… Hora de encapar os tambores de metal. Verdes, azuis, roxos. A chuva, que não caiu, teria sido fatal para os amados instrumentos.

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Turbante branco para proteger os cabelos em trança, e Cauane senta na cadeira da maquiagem. Na linha de produção, Isadora destaca as cores das Aidês, que vão sendo passadas uma a uma para o Gui Menezes – único não-mulher naquele espaço – na função de pintor de corpos.

Aos poucos, a intimidade vai tomando conta. O som no celular faz dançar. Os tambores soltam ainda tímidos rufos. Conversas sobre finanças e produção acontecem na rede. Nós, já dentro de tudo, ensaiamos as primeiras entrevistas. Duas câmeras, duas amigas. Manacá. Márcia Navai dirigindo, fazendo a fotografia, eu entrevistando, fazendo takes mais fechados, as duas no desenrolar do roteiro. Felizes!

A comida boa, preparada pela Márcia, cheirava alecrim. Cortei frutas – abacaxi, limão – coloquei tudo na água com gengibre, bom para a voz. O almoço teve longa duração, foi acontecendo aos poucos, cada uma no seu tempo e fome. Depois de novo e de novo… ao longo das 9 horas que passamos juntas naquela pré-estreia, antes da avenida.

Com o correr das horas veio o agito, a dança pra relaxar, as fotos, chamadas ao vivo no face, instagram. O frio na barriga batendo.

Sarah, nossa regente ligadíssima, reage, batendo no relógio. Dandara pronta: “Nunca usei batom, essas coisas.” Linda! Natana, a última a chegar, nervosa no começo, logo vira diva. Maria Fernanda e sua luz. Grande mulher, em todos os sentidos. Sarah passa os olhos, uma a uma, Carla, Dandara, Kadiza, Bê, Cris, Cauane, Fê, Aline, Natana, Laila(?) Cadê a Laila? Bora! Bora! Nove e vinte (da noite)!

Saímos atrás, junto com algumas do bloco que chegaram depois, na esperança de se maquiar também. Só Carminha conseguiu. Eram dez da noite quando finalmente chegamos na Armação. Uma câmera só e agilidade pra correr atrás desse povo todo.

As luzes amareladas da rua davam uma aura única àquele bloco já armado, cada uma no seu lugar, instrumento na alça. Cris, a deusa negra vestindo amarelo, brilhava com o xequerê na mão, transbordando alegria. Rufos, toques, guizos… Fê no comando da dança, inspiração na ancestralidade, axé dos orixás. Concentração.

Não deu dez minutos e o apito inquieto da Sarah soou. 1, 2… 1, 2, 3, 4! Partiu! Será que voo é a palavra que descreve a sensação? Cem corpos de mulheres, cheios de força, ritmo e poder, ganhando a rua, balançando a massa… surpreendendo. Quem são elas? Onde elas tocam? “Quem é essa mulher?”

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Onda – acho que representa mais. Ela vem formando, ela vai crescendo, arrebenta em êxtase: “Somos Aidê, todas Aidê, filhas de Aidê, cores de Aidê…” A voz de Cauane conta a lenda – Aidê era uma escrava que não aceitou a proposta de casamento e alforria do senhor (que fique claro que alforria não significa liberdade, o povo preto sabe bem), ela foi pro quilombo para ser livre e escolher o seu amor. Assim tem que ser para todas as mulheres. O bloco vai passando, a mensagem vai sendo passada. Carnaval sem assédio. Não é não.

Márcia na câmera. Ufa! Troca. Eu na câmera. Corri pro palco onde iam cantar – Cauane, Dandara, Sílvia (que só encontramos lá). Pedi pra subir, subimos. Mais de 3 mil pessoas balançando ao som dos tambores do samba-reggae. De cima, tava lindo demais! Onda de emoção pura. Na amplificação das vozes, crescia também a consciência, a onda quebrando Aaaaaaaaidê!

A resposta do público, no silêncio da banda, era uma pergunta: “Quem é essa mulher?! Quem é essa mulher?!” No fim, abraços, suor, risadas, cansaço. Só alegria, só o começo.

Dia 26, domingo, dessa vez eu fui pra dançar. Outra equipe em ação (Kike/Kátia) no carnaval da Lagoa. Olhando de fora, a emoção parecia diferente, coisa de público. Depois entendi que a emoção é sempre diferente, a cada ensaio ou apresentação das Aidês, desde que começamos a acompanhar, na caixa d’água do Morro da Caixa. Mudança de cenário, luz, ângulos, percepção. Só os poros arrepiam igual. Elas também, para cada espaço uma estratégia cênica.

Domingão de Carnaval na Lagoa da Conceição. Uma sensação de incômodo no final. A tomada da voz, no microfone, por um dos dirigentes do bloco que tocaria depois: “Agora todo mundo bate palma, mãos pra cima, somos aidê… é isso aí, valeu cores de aidê!” Assim, ele encerrou o espetáculo, que não tinha acabado, emendando o som mecânico de um samba-enredo. Indiferentes, elas foram até o fim, o povo todo atrás. Generosas, nem “notaram” a indelicadeza e a apropriação de um local que ainda era delas – o palco do carnaval. Também, difícil segurar tamanho sucesso.

Seria aquele mal estar um pressentimento meu? Naquela madrugada houve a agressão, por membros da escola de samba local (o referido bloco), a pessoas homossexuais que brincavam, felizes, o Carnaval. Brutalidade não combina com essas cores. Lamentamos e sabemos que temos um longo caminho a percorrer.

Segunda-feira, dia 27, era outro dia de estreia, dessa vez no trio elétrico. A saída do bloco Cores de Aidê estava marcada para 16h30. A concentração, na casa do amigo Fê, foi com direito a banho de piscina e um cozido maravilhoso da mãe da Cauane. A torcida pela Copa Lorde, na apuração, levou Sarah ao desespero. A escola, paixão do coração e do Morro da Caixa, ficou em segundo lugar, atrás da Coloninha. Tristeza feliz.

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Segue a maratona de maquiagem da Isadora e todo o resto da produção. Sarah começa a chamar. Hora de sair. Quem tá pronta vai com ela. Eu tava, e fui. No carro, começo de conversa tensa sobre os atrasos. Pergunto sobre a voz e o cansaço do terceiro dia. Ela explica que combinaram gestos para cada toque, não precisa falar. “Tá tudo certo.” Apesar da voz rouca, está inteira e pronta. Procura obstinadamente uma vaga para o carro. Deixamos as outras – Kadiza, Laila, Fernanda. Seguimos procurando, até que ela acha espaço, na frente do lugar combinado. Samba-reggae traz santo forte. Só pode ser isso.

O cenário é Jurerê Internacional, o mais propício possível, a Beverly Hills florianopolitana. Espaço onde negra só é empregada. No lugar da panela cara, o tambor, e com ele o recado, a política: “Cores de Aidê sobe a favela, Cores de Aidê não tem ele, só tem ela. Querem contestar? Não tão entendendo? Sente a resistência que as mina tão fazendo!”

Animação sempre tem, de sobra. Depois do cortejo do bloco, um tempinho pro descanso e os retoques. À noite o show da banda, com 12 Aidês (Maria junto). Lindo! Dançam Fê, Laia e o público.

Na última música o cartão da minha câmera acabou. Enquanto minha parceira trabalhava, aproveitei a fila curta para ir ao banheiro, sempre cantarolando com elas. Ainda na fila, ouvi uma voz linda, repetindo o refrão: “Quem é essa mulher? Quem é essa mulher?” Fiquei curiosa, quando vi que eu era minoria e as outras me olhavam, levemente de lado. Quando a “dona da voz” surgiu à minha frente, meus olhos se encheram d’água e o coração de alegria. Aquela mulher negra, de cabelos domados, cuidava do banheiro. E cantava, cantava feliz, alto, empoderada! Tocada por Aidê.

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Depois do show, o mesmo carinho cúmplice, partilhado, de sempre. Luz, alegria, amor… As manacás não aguentaram continuar na festa. Câmeras nas bolsas, voltaram para suas casas, sempre cantando. Lá no fundo da cabeça: “Cafuza sou eu… cafuza sou eu!”

Depois da terça-feira gorda de descanso, o Cores de Aidê fechou hoje (quarta) o Carnaval de Floripa, com um lindo cortejo no centro da cidade. Escrevo no avião, rumo a um congresso em Buenos Aires, já louca pra voltar e começar a tocar.

O nosso documentário continua depois da “quaresma” de sossego dessas lutadoras. Ainda faltam mais entrevistas, agora com a experiência do primeiro Carnaval. Sabemos que muita coisa linda ainda vem! E o recado aqui, é claro, vai pra elas: Suas ótimas! Mais do que nunca somos Aidês, todas Aidês! Coragem e alegria pra seguir em frente.

Quer ser Aidê? Faz contato pelo face. Colaê.

Fotos de Márcia Navai.




Ana é historiadora, professora, roteirista, videomaker, jornalista, coordenadora de programação do Fazendo Gênero/Mundos de Mulheres, preta e feminista, entre outras possibilidades.
Veja a coluna da Ana Maria Veiga