“Domingo no morro”, Cândido Portinari

Coluna da Cristiane Brasileiro

Maternidade, trabalho e a vida secreta de todas nós

Postado em 09/02/2017, 8:20

Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos? Bobéia, minha. E como é que havia de ser possível? Hem?!
(Guimarães Rosa)

Há poucos dias, o post de uma moça viralizou e ganhou matérias em vários jornais e revistas: concorrendo a uma vaga de alto escalão numa empresa, ela acabou sendo desclassificada por ser mãe de duas crianças pequenas. Justamente indignada, ela explicou que a empresa temia que ela não pudesse se dedicar ao trabalho como gostariam – embora ela tivesse demonstrado que era qualificada e tivesse garantido que contava com uma boa estrutura familiar e babá contratada pra cuidar dos filhos.

Lendo aquilo, pode parecer uma boa solução mentir nas entrevistas. Eu mesma já tive vontade de fazer isso. E certamente eu também já me dispus a garantir que conseguiria tornar o fato de ter filhos completamente imperceptível aos olhos dos meus empregadores.

E nem sei dizer quando foi que isso começou a mudar, mas deixe que eu conte uma coisa constrangedora. Houve um dia em que eu estava lá com meus 30 anos, tinha concluído o doutorado e coordenava um curso lotado de alunos. E trabalhava numa grande empresa na qual eu dava aulas pra 13 turmas cheias, de 9 disciplinas diferentes que estavam distribuídas em 5 campi de 3 municípios. Depois de uma palestra em algum lugar de que já nem me lembro, de repente uma moça na plateia levantou a mão e me perguntou assim, à queima-roupa: “Você tem filhos?”. Eu disse que sim. E ela insistiu, então: “Como é que você conseguiu dar conta de tudo?”

A pressão pra gente só aproveitar esse tipo de chance pra se autopromover é grande, e aí eu poderia ter repetido pra ela algo como “é preciso ter garra” ou “o segredo é ter foco”, e então ter arrematado com uma frase supostamente estimuladora na linha do “você pode, você consegue”. Eu poderia ter me apresentado como uma daquelas reluzentes campeãs que haviam alçado aquele pódio bem estreito. Eu poderia ter reiterado meu amor pela profissão que escolhi – que era verdadeiro e persistia, inclusive. Só que eu me lembro de ter ficado desconcertada, por alguns segundos sem saber o que dizer.

Porque se eu fosse ser sincera, eu teria que contar a ela algum dos meus segredinhos sujos: “Eu aprendi a não dormir”. “Eu amamentei minha filha somente por alguns dias”. “Tenho precisado deixar minha criança quase todo o tempo com baby sitters mais ou menos improvisadas que se revezam ao longo da semana”. “Eu tenho tido pesadelos em que entramos juntas num elevador que de repente despenca num abismo sem fim onde morremos abraçadas muitas e muitas vezes”. Eu teria que dizer o quanto sentia saudades dela, e também o quanto ela também sentia saudades de mim. Eu teria que dizer que muitas vezes só conseguíamos manter contato de madrugada, e que mesmo essa pobre solução insone não poderia durar eternamente porque em algum momento o corpo apaga.

Eu teria que dizer o que não disse naquele momento: “Essa conta não fecha”.

Eu não disse que as diferenças salariais já bem notáveis entre os gêneros era muito maior para as mães: pesquisas apontavam que nos EUA, por exemplo, mulheres sem filhos recebiam em média 90% do que os homens ganhavam, mas as mães apenas 73%, e as mães solteiras ficavam com 60%. Eu não disse que as chances de cair na miséria, naquelas condições, têm sido tão maiores. Nem disse que no Brasil a situação era ainda pior.

Também entendi que ser uma mãe sozinha numa cidade estranha era certamente o maior problema que eu tinha, nesse sentido – embora não o único. Uma avó que havia me criado e estava perdendo a memória a passos largos também seria vista como uma perturbação incômoda diante do grau de dedicação obsedante que eu deveria ter à empresa. Eu tinha irmãs mais novas com as quais tentava manter contato: mais problemas. Uma amiga muito querida realmente precisava de uma visita também – e se suicidaria tempos depois, desempregada e sozinha há tempo demais. No entanto, havia muitos homens vistos como vitoriosos à minha volta que haviam se desvencilhado com total desenvoltura daqueles embaraços e mostravam que coisas como cuidar de crianças e velhos eram trabalho pra pessoas “menos qualificadas”. E eles eram chamados frequentemente de “mestres”, e nenhuma nódoa jamais pesava sobre a biografia de nenhum deles só porque tinham escolhido se concentrar sobre o que “valia a pena”, e estavam mesmo muito perfeitamente acostumados a dizer “estou sem tempo” ou “não tenho saco”. E diante de quase todos, isso ainda parecia bastar. Ainda que na prática mal se lembrassem dos nomes dos filhos que eventualmente tivessem espalhado por aí, e ainda que também os pais e amigos deles por vezes morressem antes de receber uma última visita.

Mas eu não disse nada disso à moça que me perguntou como é que eu dava conta de tudo, porque tinha sido ensinada que esse era, simplesmente, o preço a pagar pra avançar na minha formação e ter uma carreira “bem sucedida”. Eu tinha entendido que havia uma certa parte da minha vida que eu sempre deveria ver como algum tipo de “entrave”, e que por isso eu deveria manter tudo ali ferozmente sob controle. E que essa esfera central da vida não interessava às empresas nem aos financistas donos do mundo, e justamente por isso havia toda uma estrutura para que ela fosse sendo repassada de mão em mão como uma batata quente: de homens pra mulheres, de mulheres com mais dinheiro pra mulheres com menos, de mulheres mais jovens para as últimas avós que por acaso estiverem com tempo disponível e saúde suficiente.

Talvez tenha sido necessário chegarmos a este ponto em que as jornadas de trabalho perigam se prolongar ainda mais e com contratos ainda mais precários pra que a gente entenda que o que podia antes parecer apenas um “problemas das mulheres” está transbordando pra todos nós. E que aquela parte menos visível e nada lucrativa do currículo que construímos era, afinal, importante demais, e por isso não deveria ser tratada sistematicamente como um lixo que precisamos esconder debaixo do tapete. E que não adiantará a gente tentar exorcizar essas questões só recomendando sessões particularíssimas de análise pra nos livramos dos incômodos da culpa. E que não adiantará só a gente tentar mentir nas entrevistas ou engolir em seco a revolta – acho que trata-se cada vez mais, bem ao contrário, de tornar as nossas revoltas ainda mais profundas, mais amplas e mais públicas.




Doutora em Literatura pela PUC- Rio, professora adjunta na UERJ. Coordena projetos na área de formação continuada para professores da rede pública do RJ e na área de educação a distância. Mãe solteira de uma filha grande e de um filho pequeno. Diariamente cozinha, lava pratos, varre a casa e tenta mudar o mundo.
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