A colunista levantou relatos de mulheres das artes que passaram por violência machista/Foto: Barbara Biscaro

Coluna da Barbara Biscaro

Estratégias polifônicas

Postado em 12/12/2019, 10:53

Caras colegas,

Desculpe tomar seu tempo precioso desse fim de ano ensandecido.

Fui convidada a escrever uma matéria sobre violência contra a mulher em uma campanha do Portal Catarinas, em um ciclo especial. A provocação foi: quais as violências/opressões que mulheres artistas passam no contexto profissional.

No desejo de ter uma escrita polifônica, peço que, se for do tempo e do desejo de cada uma, me enviem algumas linhas (mesmo que poucas) contando alguma situação concreta em que se sentiram discriminadas, abusadas, invisibilizadas enquanto artistas mulheres e professoras.

Não precisa citar nomes, datas ou locais. Este não é um canal para divulgar abusos. Meu objetivo é dar visibilidade a essas ações cotidianas que são fruto de uma cultura misógina no meio artístico e na docência das artes.

Apenas gostaria de saber de mais mulheres artistas quais situações já viveram e que podem relacionar com a violência de gênero.

Obrigada de antemão.

Seguimos.

um abraço em cada uma,

Barbara Biscaro.

Este e-mail foi enviado dia 28 de novembro de 2019, às 10h19 da manhã. Uma semana depois, várias mensagens depois, sento finalmente em minha mesa para costurar presentes, passados e futuros de mulheres em uma escrita comprometida. Como se, a partir de uma pergunta, uma miríade de imagens surgiu, de bocas diversas, de ouvidos diversos, de carnes diversas.

Há algumas igualdades que permeiam essa “diversidade” primeira: a maior parte das respostas vieram de mulheres brancas e que vivenciam uma realidade do Sul do país. Compreendo que o atravessamento dos discursos de mulheres negras, mulheres trans, mulheres de outras partes do país ou mulheres pobres não seja a marca maior desta reflexão, que não pretende, absolutamente, delinear dados e inferências universais no que concerne a realidade da mulher no campo artístico.

Não que a pergunta não tenha sido endereçada a elas: mas que a correria de um final de ano louco ou a ausência de desejo diante da pergunta lançada não produziram respostas. Não até hoje, 5 de dezembro, momento exato das 11h12 onde eu escrevo, sentada diante de minha janela.

Na minha completa ausência de precisão, busco aqui uma fala de artista: abro mão do estilo jornalístico, informativo ou pretensamente revelador de uma verdade sobre o mundo.

Eu escrevo de pulsos abertos, como se abriram generosamente as mulheres que me escreveram.

Espero sinceramente que nossas escritas animem conversas ao vivo, em mesas de bar, grupos de teatro, de música e escolas de todos os tipos.

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Mulheres ocupando espaços de poder

“Quando fui eleita para presidir uma Associação de Teatro em *** ocorreu uma reunião entre o poder público (SEPROT e Secretaria da Cultura e Turismo) e a presidência da instituição. O tema da reunião foi a ausência e o descaso do poder público e seus respectivos órgãos citados anteriormente, em relação a um importante espaço cultural da cidade.

Quando chegamos à reunião, um representante do poder público cumprimentou primeiramente todos os homens participantes da reunião e por último eu – por ser mulher. Me senti constrangida no momento, mas ao final da reunião quem fez a proposta da resolução das pendências sobre o tema da reunião foi a única mulher presente”.

“Durante anos sofri com o machismo de um colega de trabalho na universidade. Logo esse lugar, do qual eu esperava pessoas com discernimento e consciência. Nas reuniões de professoras e professores ele sistematicamente interrompia minhas falas, desfazia de minhas colocações, desqualificava minhas opiniões. Nos eventos, fazia questão de me ridicularizar com indiretas na frente dos alunos, em conversas em voz alta o suficiente para eu ouvir.

Suas atitudes tinham uma finalidade explícita: demonstrar poder e me coagir, por um dia ter sido sua orientanda de pós-graduação e agora ser sua chefe de departamento, da qual ele esperava submissão e adoração, e não algum tipo de cobrança ou autoridade. Enganou-se em ambas as expectativas. Após episódios reincidentes de atitudes machistas com diversas colegas professoras, chegando a proferir palavrões dirigidos a uma docente em reunião colegiada, ele viu algumas mulheres se unindo em uma linha de frente contra seu machismo. Resolvemos não nos calar. Ele recuou, mas o silêncio dos demais professores que não se posicionaram ao presenciar esses surtos machistas ainda ecoa. No fim, somos nós por nós mesmas”.

“Pensei, pensei, mas o que me ocorre mesmo é a reunião que tive com um pró-reitor, que diante de uma negativa e de um problema, começou a gritar e dizer que ‘só passando por cima do cadáver dele…’ isso e aquilo iriam acontecer etc…

Quando acabou a reunião, três pessoas vieram me dizer que tinha sido um assédio e que ele tinha sido extremamente machista na condução do assunto…mas ninguém conseguiu rebater na hora. eu sofri (e sofro) muito com isso: com a minha paralisação diante de posturas como essas”.

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Ser uma mulher forte, inteligente e realizada profissionalmente pode ser uma pedra no sapato do ego de homens que cresceram junto conosco (irmãos, amigos, namorados, colegas).

“Certa vez, um colega de companhia de teatro, que eu já conhecia há muitos anos, veio me dizer, após algumas cervejas, que eu era pedante. Perguntei o porquê, e a resposta foi apenas um porque sim, assim jogado. Essa frase ficou anos martelando na minha cabeça, perseguindo-me como sombra. Somente após muito tempo foi que eu me dei conta que desde que nos conhecemos na escola, era eu quem passava cola pra ele, era eu quem explicava questões filosóficas e estéticas que ele desconhecia, era eu quem tomava iniciativas para montagens de peças, eu que fui estudar fora da cidade, que comecei a dirigir e escrever além de atuar, a viver de teatro, etc. Enfim, compreendi que se fosse ele a fazer tudo isso, não seria pedante, seria apenas homem. Minha pergunta é: será que hoje ele percebe isso?”

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Mulher-artista como objeto e não como autora consciente de sua linguagem artística.

“Ao longo de minha carreira, tenho ouvido muitos comentários distintos de homens artistas e críticos sobre meu trabalho. Alguns dizem que é complexo demais. Outros dizem que é simples demais. Há aqueles que julgam que minhas peças deveriam ser mais arriscadas, no sentido de colocar os corpos de atrizes em risco. A dramaturgia isso, a encenação aquilo, a atuação aquilo outro. Como medem meu trabalho artístico a partir de seus preceitos estéticos e políticos, e como eles acham que sempre estão certos, fico eu aqui feliz por não ‘me encaixar’.

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“Sim, passei por várias histórias. assédios de jurados em festival competitivo, apresentando em pernas de pau, no auge dos meus 28 anos e o jurado mais preocupado se eu e meu marido já havíamos realizados fantasias sexuais em cima da perna de pau.

Outra coisa é essa história de trabalhar sendo um casal, onde costumeiramente em entrevista de rádio sempre tem um comentário assim: Nossa é uma loucura viver assim desse jeito e sua esposa embarcou com você nessa loucura? Topou na hora?… como se fosse um ímpeto só dele e eu o “ajudasse” nessa história… na própria família já ouvi que sou ajudante, e por aí vai.

Tem a questão de ter filhos pequenos e alguns projetos não permitirem levar criança.

Mas assédio tive muitas histórias, em festivais… coisas que nunca nem contei…há pouco tempo, pela maturidade e algumas leituras consegui me empoderar e entender como agir. Hoje é mais raro”.

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Ter filhos e criar os filhos ainda é percebido como uma tarefa da mulher e não da sociedade em geral, mesmo em meios onde se proliferam discursos de valorização às mulheres.

“Estive refletindo sobre isso nos últimos tempos… sempre que paro para pensar nas minhas experiências, as mais duras, com certeza, são fora do meio artístico.

Mas estou no ramo desde sempre… desde meus 15 anos… profissionalmente desde os 19… minha percepção sobre as opressões que sofremos tem sido trabalhada bem recentemente, para ser bem sincera. Não quer dizer que não percebia algo estranho… quer dizer que, como todo mundo, eu achava natural. Hoje ainda tenho dificuldade para nomear algumas sensações e desconfortos. Ao me ligar a grupos composto somente por mulheres, sinto aquela suave sensação de maior liberdade, maior inserção e aceitação. Nessa comparação, vou ajustando minhas percepções nos grupos mistos.

Na minha experiência, no meio artístico, as opressões são aquelas mais sutis… olhando pra trás, lembro de já ter sido ‘cantada’, ou ter meu corpo ‘avaliado positivamente’ por um professor em plena oficina, diante de todos, no meio de um exercício.

Ao me tornar mãe, as opções que temos como díade mãe-bebê no contexto artístico também não são diferentes daquelas da sociedade em geral. Não há muitas opções de espetáculos ou cursos que de fato suportem as necessidades de uma mãe com filhos (e não acho que tudo deve suportar… só acho que deve haver mais opções, entendendo que crianças tem necessidades especiais e tem direito ao acesso à cultura).

Bem recentemente eu sinto que essa abertura de espaços para bebês e crianças tem ganhado expressão mais significativa”.

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A aceitação de que esta é uma pergunta paradoxal, plural e cheia de nuances.

“Fiquei durante estes dias, desde que recebi sua mensagem, pensando sobre o assunto. Te vi de relance aquele dia no centro e continuei matutando. O que comparto contigo são somente alguns pensamentos que surgiram depois da provocação de tua pergunta. Tentei lembrar contextos específicos enquanto mulher/artista onde tenha sofrido opressão.

Realmente que não lembrei nada até o momento que tenha sido um “corte” enquanto artista mas mais por ser mulher. Fiquei pensando nas opressões mínimas do dia-a-dia que já vivenciei e percebi. Mesmo com pessoas bem queridas, como por exemplo, ser interrompida numa fala dentro de uma roda composta por maioria homens, coisa bem comum.

Minha mente vagueia por outros abusos que vivi. Graças à Deusa, nunca fui estuprada. Uma vez estava bêbada dormindo e um conhecido tentou me agarrar. Pedi para ele parar e ele parou. (emoticon gelinho). Levei dois tapas na bunda dentro do ônibus, em contextos diferentes, uma vez com 14 anos e outra com 21.

Outra vez também dormindo, o ex-namorado de uma amiga, entrou na casa dela à noite nos viu dormindo e tirou minha calcinha pra sacanear. Imagina meu susto ao acordar no outro dia! Imagina se eu tivesse acordado enquanto ele tirava a peça do meu corpo?

Nem sei…Enfim, ufa. Fiquei pensando no meu ‘lugar de fala’ e agora o que é que eu sou? como diria Wally Salomão talvez eu seja privilegiada em diversos pontos, dependendo do ponto de vista.

Sou uma mulher, mas não sou negra. Vivo com meu companheiro, mas não tenho filhos; tenho o terceiro grau em andamento. Tenho casa própria, e apesar de morar na periferia, não sou uma pessoa periférica.

São camadas e camadas que interferem e constroem a mulher. e mais algumas que perfazem a artista. A mulher enquanto artista ainda tem um respiro (penso eu, e isso é mais um privilégio, será?)”.

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“Oi Barbarela, vou responder por aqui o teu e-mail sobre o texto para o Catarinas. Acho que o que eu teria pra compartilhar sobre o mundo da arte e a opressão sobre as mulheres, é que a imagem de que este mundo, por ser da arte, é um mundo mais justo, empático, mais igualitário faz com que nós, mulheres sejamos enganadas, acabando acreditando num tipo de conto de fadas. O mundo da arte sempre foi tomado por figuras de poder, figuras masculinas.

Na minha experiência o que mais me impressiona é como o poder, mesmo nesse mundo de conto de fadas é fundamental pra taxar as mulheres como malucas (!), principalmente se elas falam o que pensam e se desafiam essa imagem dos mestres (você sabe que pra mim, que se fodam os mestres, e isso sempre foi um problema), em geral eu ficava como a maluca ou ainda, e isso acontece, sou ignorada. Completamente ignorada.

Na minha experiência de grupo dos últimos anos, em um grupo com 3 homens (sendo 2 gays) eu conseguia sentir a misoginia com mais força. Porque aí, quando a gente imagina que homens homossexuais seriam mais cuidadosos com a misoginia, pura ilusão. O que é mais triste é que, frente à figura de heteros mais velha, os três se juntava pra me silenciar ou pra me fazer parecer louca ou descontrolada quando eu me revoltava com alguma atitude.

Lembro-me de sempre conversar com atrizes que passaram pelo grupo, de como em muitíssimas situações, por nos colocarmos com força, a sensação era de que estávamos doidas. Sempre foi assim, ainda é e por algum motivo acredito que tem um acordo genético entre os homens, mesmo os homossexuais, que em face a uma mulher, não pensam duas vezes sobre ignorar suas experiências ou opinião, ou simplesmente taxar essas mulheres de descontroladas.

Eu sinto que esta última configuração do grupo foi a mais difícil, foi a que me fez mais sentir ignorada e maluca. Foi bem difícil. Porque quando haviam mulheres, haviam conflitos, mas eu não me sentia ignorada, silenciada e muito menos a doida. Mas senti isso com muita força e foi bem triste, porque me dei conta de que é pura ilusão, o mundo da arte se desvia da imagem de machista, mas cai com tudo na misoginia. É triste”.

Eu, Barbara

Já sofri muitos assédios e situações similares às das minhas colegas por parte de homens em minha trajetória como artista. Mas o que eu tenho pensado é como, estando nós mulheres em maior número que os homens, ainda não conseguimos estabelecer uma nova ordem mundial?

As estruturas do machismo e da misoginia estão entranhadas também em minha percepção do que é bom, interessante e necessário para o mundo. Eu já agi diversas vezes de maneira competitiva e não solidária com outras mulheres, sentindo ciúmes, inveja e desprezo que é construído por uma lente misógina da nossa cultura.

Já imprimi em figuras masculinas de mestres, professores e referências artísticas masculinas uma importância enorme, eclipsando mulheres que estavam, ao mesmo tempo, lutando para ocupar os mesmos lugares. Já perdoei ou normalizei atitudes péssimas de amigos homens no trabalho.

Por isso continuo achando que o fortalecimento de laços entre mulheres é uma das estratégias mais poderosas e ternas de nosso tempo.




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
Veja a coluna da Barbara Biscaro