Imagem do espetáculo Provisoriamente não cantaremos o amor (Traço Cia. de Teatro)/Foto: Diogo G. Andrade

Coluna da Barbara Bíscaro

Equilíbrio precário

Postado em 05/04/2018, 9:21

Podemos nos dar ao luxo de mergulharmos em nossos universos individuais sem levantar a cabeça e vermos o contexto em que estamos? Poderemos continuar assim tão míopes a uma conjuntura que nos abarca? Eu pesquiso teatro e música, mais especificamente voz em cena há mais de quinze anos. Gostaria muito de aprofundar cada vez mais esse trabalho, mas me sinto continuamente assaltada e atravessada por diversas questões ligadas à coletividade, aos modos de organização, ao papel social do artista e do professor, às barbáries que andam ocorrendo a cada dia. Ignorar tudo isso me pareceria agir como um avestruz e esconder a cabeça para poder fazer somente aquilo que mais me dá prazer (tentando evitar a dor que é me confrontar com coisas que não entendo, que não gostaria de ter que lidar, que nem sei se tenho preparo emocional para entender). Mas, talvez, não estejamos vivendo um momento em que nossos prazeres e desejos individuais estão em alta, mas sim nossas responsabilidades e as consequências de nossos atos na sociedade. Você pode escrever o que quiser? Emitir sua opinião, se posicionar, produzir artisticamente? Claro. Mas vai viver de forma acentuada as consequências de certas escolhas, que no momento parecem oscilar entre compor um pensamento na coletividade ou mergulhar a cabeça de avestruz em seu próprio umbigo.

Esse equilíbrio precário é algo que nós atores e atrizes lidamos duplamente na vida. Na arte teatral, nas tradições recuperadas pela antropologia teatral, o equilíbrio precário é um dos princípios levantados por Eugenio Barba para proporcionar um alto nível de presença cênica do ator e da atriz em cena. É mais ou menos como se pudéssemos produzir um estado corporal limite, em que estamos o tempo todo prestes a perder o equilíbrio e em constante atenção psicofísica. Esse estado garantiria um corpo dilatado e vivo que o espectador sentiria como um foco de energia e potência. Mas era para durar apenas o tempo do espetáculo…e no nosso caso dura mais ou menos a vida inteira. Uma vida em eterno equilíbrio precário, sem saber se vai dar para pagar as contas, se vai conseguir dar continuidade ao trabalho, se alguma nova reviravolta não vai acabar com projetos lindos e potentes que já duram anos e anos. Uma vida em equilíbrio precário, exatamente igual à grande maioria dos brasileiros e brasileiras que não sabem se conseguirão chegar ao fim do mês.

Nesse sentido, as pessoas que acham que não temos grandes artistas em nossa cidade e nosso país esquece que aquele mesmo artista que você vê no netflix ou na televisão e que pode passar o dia inteiro cuidando do seu ofício, treinando sua voz e seu corpo, contratando os mais diversos profissionais para ajudar em suas criações são uma esmagadora minoria. A grande maioria dá oitocentas aulas por semana, não consegue se alimentar direito, tem que saber produzir, cantar, sapatear e fazer prestação de contas (tudo no mesmo dia), produzindo uma arte muitas vezes considerada “pobre” por seus conterrâneos que arrotam “mas quando eu fui para novaiorque eu vi o que é arte de verdade”. É claro que uma pessoa com oportunidades de investimento em seu trabalho vai produzir com cada vez mais qualidade… mas a questão é que a imensa maioria dos artistas no Brasil produz com o mínimo de recurso, fazendo diariamente verdadeiros milagres.

Um exemplo nas últimas semanas que me comoveu foi o lançamento do curta-metragem “Almofada de Penas” de Joseph Specker Nys e uma numerosa equipe de amadores no mais alto nível: profissionais incríveis que amaram o projeto e se doaram das mais diversas formas para que o filme ocorresse. No lançamento plateia cheia, filme se projetando internacionalmente, todo mundo perfumado e feliz, uma lindeza. O que não se fala é que o esforço das pessoas para que o filme tenha sido feito foi quase inversamente proporcional ao orçamento arrecadado: pouco dinheiro e muito trabalho, como sempre. Cenários, figurinos, câmeras, bonecos, todas essas coisas custam (fazer cinema é caro!). As coisas não são gratuitas, nunca são. Mas as pessoas muitas vezes são, porque amam os projetos e querem fazer dar certo. Um pouco abusiva essa lógica de amor, não é mesmo? Porém é bastante recorrente no ramo artístico. O mais triste é perceber que um núcleo de pessoas como esse, com uma capacidade de realização tão incrível (que vai projetar a cultura feita em Santa Catarina para o mundo) teve que fazer das tripas o coração durante seis anos para conseguir sobreviver porque o que eles fizeram ali não é considerado um trabalho digno, mas apenas um hobby, um típico caso do “artista que ama a sua arte”.

Esse exemplo me ajuda a ilustrar a ideia de que quem subsidia a arte em nosso país não é o Governo ou o público, mas sim, o artista. A manutenção de projetos importantes, a constante busca por formação, a resiliência para realizar projetos impossíveis em parcerias improváveis vem do desejo de homens e mulheres de que a arte exista e resista. Porque em Santa Catarina, se dependesse do público pagante de ingressos ou do Estado, a arte já estaria extinta há muito tempo. Quem subsidiou financeiramente a exibição do filme semana passada não foram os editais: foram dezenas de profissionais que mergulharam de cabeça para que um filme ocorresse. A arte é feita de pessoas para pessoas. Se todos os artistas apenas realizassem aquilo pelo qual eles são estritamente pagos, não existiria dança, cinema, teatro, música ou artes visuais em nosso Estado. Assim como tenho certeza que não existiria mídia independente, permacultura, hortas comunitárias, arquitetura sustentável, vegetais orgânicos, serviços de apoio social. Mas vai tentar ir ao médico e não pagar a consulta, consertar o encanamento da sua casa e alegar que o pagamento é a divulgação do trabalho do encanador… porquê insistimos em valorizar as coisas e ou apenas certas pessoas? Porque não hesitamos em pagar dez reais pela cerveja gelada e achamos que dez reais para ver uma peça é um preço impossível? O quê nosso dinheiro financia?

A arte é uma coisa muito importante na vida das pessoas. Ela é um canal que supre o pensamento simbólico de uma cultura, sua história, seu imaginário, suas formas de expressão, seus desejos e seus paradoxos. A partir do momento em que não cultivamos uma cultura própria, mas sim “importamos” modos de ver o mundo de outros países e principalmente, modos de ver o mundo subsidiados por interesses econômicos geralmente perversos, vamos perdendo o senso de identidade e de singularidade. Perdemos nossas histórias pessoais, perdemos o fio da meada que nos conecta com a realidade que está em nosso entorno. Muito mais fácil manipular um povo sem cultura própria, é como manipular uma pessoa sem memória: como ela nem sabe quem é e o que deseja, pode aceitar sem questionar o “caminho correto” apresentado por outrem. A arte dá sentido de propósito na vida e nos ajuda a lidar com questões humanas básicas, como a dor, a perda, a violência, o prazer, a angústia, a culpa. Não me admira o crescente exército de pacientes devidamente dopados por medicamentos psiquiátricos: uma sociedade sem arte e sem senso de pertencimento não consegue lidar com o humano, com os sentimentos, com o paradoxo inerente à vida.

Último domingo, assistindo o espetáculo da Traço Cia. De Teatro, me emocionei com meus colegas de ofício: palhaços e palhaças que não cantarão o amor mas sim me ajudarão a lidar com o medo. Pessoas que aceitando o tamanho de sua tarefa no mundo se tornam imensas naquela uma hora de espetáculo em que doam para mim, olhando nos meus olhos, seu ofício, seu tempo, seu estudo, sua maestria. Pessoas que já viajaram o mundo e voltaram para me contar como foi, não se interessando por virar celebridades ou ter um tapete vermelho estendido na frente para passar. Apenas lutam para que outras pessoas possam passar por uma experiência profundamente humana como é o teatro. Artistas que me proporcionam uma experiência transformadora por dez, quinze reais…o preço de uma empanada em Santo Antônio de Lisboa. A bilheteria do espetáculo, tenho certeza, nem deu o suficiente para pagar a gasolina para voltar para casa.

Essa é a situação da esmagadora maioria de ações artísticas que vemos em Santa Catarina, encabeçada pelos artistas catarinenses. Casa Vermelha, Círculo Artístico Teodora, Teatro da Dona Bilica, Nau Catarineta, espaços em Florianópolis, por exemplo, administrados e bancados financeiramente por artistas que ainda vivem a utopia de que o teatro e a arte podem transformar o mundo. Até quando aguentarão? Não se sabe. O equilíbrio precário cobra seu preço: corpos cansados, mentes exauridas, contas bancárias negativas, ausência de público, ausência de reconhecimento na sociedade. A lista de motivos para abandonar o barco não é pequena. Mas tem aquela centelha da paixão bandida, que tantas vezes faz com que pisemos no próprio calo. Mas é que quem vive uma vida preenchida por arte não quer viver um cotidiano sem ela.

Para saber mais sobre os artistas citados:

http://almofadadepenas.tumblr.com/

http://tracoteatro.blogspot.com.br/

Os espaços:

https://www.casavermelha.art.br/

http://circuloartisticoteodora.blogspot.com.br/

https://www.casadopalhaco.com.br/

https://pt-br.facebook.com/NauCatarineta/

 




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
Veja a coluna da Barbara Bíscaro