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Coluna da Barbara Bíscaro

Distopia anti-feminista

Postado em 18/10/2018, 7:56

Distopia: qualquer representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis, com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual, ou parodiar utopias, alertando para os seus perigos; antiutopia [Famosas distopias foram concebidas por romancistas como George Orwell 1903-1950e Aldous Huxley 1894-1963.].

*atenção, este texto contém alto grau de ironia.

Estamos em 2020. Após acirradas lutas pelo poder e embates ideológicos ferrenhos, as mudanças foram finalmente concretizadas após ondas de violência e de pânico. O feminismo, uma espécie de ideologia de esquerda-marxista-petista-demoníaca é completamente erradicado de nossas famílias. Finalmente livres daquilo que nos incomodava tanto e que atravancava a existência plena da família brasileira, vivemos hoje em uma sociedade perfeita, que acreditamos ser a melhor para as nossas crianças. Voltamos cinquenta anos na História, assim como prometido por nosso herói salvador. Agora somos felizes.

Somos felizes porque todas as mulheres saíram do mercado de trabalho, finalmente dando o devido espaço aos homens que andavam sem competência nem qualificação para ocupar as posições. Restituímos o seu orgulho macho, e agora somente os homens trabalham e são muito felizes fazendo isso. Cada homem, sozinho, sustenta uma família inteira, e é muito feliz por trabalhar muitas horas para dar conta desta tarefa tão natural ao seu sexo. Claro, essa tarefa tem tido algumas dificuldades, mas nada é perfeito: com o aumento de número de filhos por família, agora que as mulheres voltaram à sua tarefa natural de parir os filhos da nação, somada às dificuldades econômicas (o décimo terceiro salário, segurança no emprego e essas bobagens foram todas extintas junto com os comunistas-petistas) os homens andam um pouco estressados.

Mas claro, eles podem exercer sua masculinidade agora sem medo do feminismo, por isso eles podem bater a vontade em suas mulheres e filhos, pois não existem mais leis que os impeçam de fazer isso. Também podem abandonar suas famílias ou não reconhecer filhos de uma ou outra gravidez indesejada com alguma amante ou prostituta, afinal é natural da masculinidade “desopilar” sua sede sexual por aí.

Não haverão mais pesquisas, debates ou memes da internet incomodando esse santo direito de poder abandonar filhos, fazer sexo com menores de idade ou não respeitar o direito das mulheres. Também podem dormir tranquilos porque suas filhas estão em casa, castas e virgens, esperando a idade de ter um marido. Claro que elas podem estudar, mas somente até um nível que as faça serem mais educadas e minimamente inteligentes. Depois elas são incentivadas a casar e continuar a ter filhos, assim como suas santas mães e avós.

Os filhos homens, por outro lado, são os herdeiros do mundo. Podem portar armas, assassinar todos os gays, travestis e outras aberrações sociais a fim de assegurar que a sociedade está no caminho certo, podem falar qualquer coisa sem nenhuma consequência e têm assegurado o seu lugar no mundo por um direito natural.

Nada de ficar disputando trabalho, reconhecimento intelectual ou social com mulheres: a comunidade voltou a ser guiada pelas decisões de quem naturalmente as pode tomar, os homens brancos. Claro, pois nessa nova sociedade, os negros e negras voltaram apenas à sua posição natural de empregados e serventes, pois está no sangue deles servir aos brancos, é sua predisposição biológica.

Caso algum homossexual surja na família, esse caso é escondido como um segredo a ser enterrado no quintal. Primeiro, a tentativa de cura. Depois algumas opções mais inteligentes: banir este filho ou filha para sempre, sem encarar a situação. Não banir, mas infligir sofrimento e dor a essa pessoa até que ela naturalmente se afaste e toda a família poderá dormir tranquila porque o culpado desse desvio imperdoável é o outro, e não nós. Afinal, como diria o nosso salvador, melhor um filho morto do que gay.

Não temos mais que conviver com homossexuais andando de mãos dadas na rua, com artistas se vestindo de mulher, discutir direitos civis e humanos dos gays. Se algum homem branco macho o matar por aí, tanto melhor, pois uma vida de sofrimento foi poupada. A família vai chorar o seu morto discretamente e ninguém ficará com cartazes na porta do velório com dizeres como “genocídio gay”, etc. Uma vida muito mais tranquila.

As mulheres finalmente são felizes, livre do feminismo. Elas são limpas e asseadas, se depilando sempre (no intervalo de uma mamada ou outra, feita na castidade do lar). Elas só podem frequentar os locais acompanhadas de seus maridos, ou no máximo de familiares próximos. Reuniões de mulheres são estritamente proibidas, para impedir que elas formem a célula feminista mais nefasta, as chamadas “redes de apoio” ou evitar o mal chamado “empoderamento”.

As mulheres são isoladas umas das outras, competem entre si e ouvem cegamente e sem críticas a tudo que os maridos, pastores, padres, governantes e filhos homens falam para elas fazerem. Pois voltaram ao seu papel natural de submissão, próprio do seu sexo. Não há mais necessidade de estudar ou trabalhar, e as artes são permitidas somente de acordo com os bons costumes.

Também ficam em casa sonhando com seu príncipe encantado que lhes proverá, já que uma mulher que sustenta a si mesma, vive sozinha e faz suas próprias escolhas é obviamente feminista, e por isso não é aceita em nossa sociedade. Qualquer mulher que tenta empreender este caminho hoje é considerada uma puta, uma louca, uma pessoa perigosa que deve ser vista com desconfiança e eliminada de nosso meio, como uma laranja podre.

Quando isso acontece, mesmo que ninguém saiba quem ela é ou o que ela faz, imediatamente saímos às ruas e a desmoralizamos, atiramos pedras, a impedimos de entrar em nossas casas. Dizemos publicamente que elas devem ser sujas, lésbicas, mal-comidas, criminosas e corrompedoras de criancinhas. Agora sim podemos dormir tranquilas porque não somos essas mulheres, somos limpas e não queremos ter o controle da nossa própria vida, na verdade não precisamos de liberdade.

Outra grande conquista que conseguimos é que nossos filhos não precisam ir mais para a escola, aquele aparelho comunista-marxista-petista que ensinava ideologias de esquerda e de gênero. Passamos o dia todo em casa, olhando as crianças. Nas famílias que podem pagar por computadores e internet, eles assistem vídeo-aulas no youtube com todas as informações necessárias para adquirirem conhecimento.Nada mais de amiguinhos inconvenientes, professores doutrinadores, convivência com outras pessoas, criação de laços de afeto com pessoas de outras classes sociais, compreensão da vida em sociedade.

A sociedade é a família de bem, e agora nossos filhos aprendem a defender a sua própria família, sem saber conviver com os outros. As famílias que possuem posses e dinheiro podem mandar seus filhos estudar no exterior e viver novas experiências, mas isso não anda dando muito certo: esses voltam com ideias novas, estranhas ao nosso modo de vida e à nossa ideologia. Também as mulheres hoje não podem mais votar. Essa medida foi recebida com grande alívio, já que não precisamos ter que escolher nada: os homens sabem o que é melhor para nós, como era antes do feminismo chegar e nos dar a incômoda tarefa de poder escolher.

Nessa nova sociedade, em que eliminamos tudo aquilo que não sabíamos o que era, mas que nos disseram que nos fazia mal, agora somos muito felizes. O retorno a essa vida correta, com os papeis de homens e mulheres definidos, é infinitamente melhor, pois não causa nenhum medo. Claro, apanhamos e morremos caladas em nossas casas, não temos liberdade individual, não podemos fazer escolhas ou ocupar os lugares designados aos homens, mas qual mulher de bem não concorda com isso?

Sabemos o que podemos ou não fazer e não precisamos fazer nenhuma escolha por nós mesmas, não precisamos aprender a pensar ou analisar as situações do mundo. Afinal para que precisamos ser críticas, para que precisamos ter empatia ou tentar modificar o nosso entorno? Isso são consequências de doutrinas maléficas como o feminismo, que, ainda bem, está erradicado de nossa sociedade. Foi por isso, por essa sociedade perfeita para mim e para as minhas filhas, que eu fui às urnas em 2018 e votei 17.

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Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
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