Democracia em vertigem, de Petra Costa, é um filme épico e lírico ao mesmo tempo/Montagem: site oficial

Coluna da Cristiane Brasileiro

Democracia em vertigem: sobre a travessia do luto

Postado em 23/06/2019, 11:06

Porém hoje devemos estar convencidos de que, apesar dos lutos que o pensamento nos impõe, buscar o que há de real no real pode ser, e é, uma paixão alegre.

(Em busca de real perdido, Alain Badiou)

 

Fui assistir ao novo filme de Petra Costa com um certo medo: amigas vinham pela noite dizendo do quanto choraram assistindo às suas cenas. Foi por isso que, já depois de já ter visto o documentário, comecei a me perguntar intrigada por quê, afinal, eu tinha saído da sessão menos triste e mais bem disposta do que entrei.

Minha reação parecia estranha porque aquilo que o filme mostra, afinal de contas, traduz os meandros de uma decepção inequivocamente amarga.

Uma boa metáfora desse núcleo narrativo doloroso aparece logo no início, no modo como a voz da diretora adentra suave e incorpórea os salões vazios do Palácio da Alvorada para nos lembrar do sentido oculto da palavra que nomeia o próprio país: Brasil, a madeira vermelha que foi nossa primeira riqueza explorada e exportada até a sua extinção, até que não restasse dela quase mais nada do que um nome tornado oco.

Rememorando nossa história, Petra nos lembra então do país fundado em bases violentamente desiguais: foi aqui que isto que chamamos de “riqueza” se construiu, desde o início da colonização, sobre o trabalho de milhões de seres humanos escravizados. E foi este o país onde a história pareceu se desenvolver por tempo demais como um longo e tedioso borrão, com o poder passando de mãos de golpe em golpe, dos velhos pais pros velhos filhos, sempre massacrando qualquer insurgência popular, sempre aplaudindo e elegendo seus ricos herdeiros e seus generais genocidas.

Antes disso, não por acaso, assim havia sido a primeira cena do filme: um escuro caótico e confuso de gente se acotovelando até que se visse enfim a imagem de Lula sendo preso. A voz da diretora, nesse ponto delicada e sombria, registra a impressão de que aquele momento era como se o chão tivesse então se aberto e por isso lhe vinha o temor de que a nossa democracia “não tenha passado de um sonho efêmero”. É esse o fio da meada mais nítido que se retoma ou se constrói, a partir daí, ao longo do filme: em que consiste afinal isso que temos chamado de democracia?

Pra tentar desvendar o que de fato tem se ocultado dentro desse nome, Petra mescla e conecta com grande precisão e força criadora um conjunto precioso de cenas históricas, arquivos familiares, grandes planos quase impessoais. E assim entrelaça com engenho a grande fissura política que se formou no país com aquela menor que dividiu também a sua própria família, transformando um passado abafado numa ferida agora já mais aberta e mais capaz de revelar o tamanho do esquecimento que percorre a nossa história política nacional.

Trata-se, portanto, de um filme épico e lírico ao mesmo tempo, e que assim dá aos dois gêneros outro sentido e um novo alcance ao mostrar a política como problema público e dilema íntimo.

Considerando o tipo de narrativa requintada que ela constrói pra tentar responder a essa pergunta, chamo a atenção especialmente para o uso que faz dessa alternância entre os grandes planos das multidões gritando palavras de ordem e dos traçados arquitetônicos, por um lado, e por outro os closes muito íntimos, muito reveladores. É assim que vemos, por exemplo, tanto os discursos arrebatadores de Lula no meio da multidão apaixonada como o olhar altivo e grave de Dilma Rousseff durante a votação kafkiana do seu impeachment, ou a geometria da cidade de Brasília vista do alto seguida do olhar desvalido e atônito de um moço de repente preso no meio de uma manifestação por estar usando uma camisa vermelha.

É assim que vemos o povo ocupando com uma alegria poderosa os espaços públicos no dia da primeira posse de Lula e no entanto também, anos depois e cada vez mais, a emergência dos rostos cegos de ferocidade nas ruas e dos bonecos infláveis que passaram a retratar o ex-presidente como um presidiário na mira de reluzentes metralhadoras. É assim que vemos de perto expressões faciais tão discrepantes quanto os esgares nervosos de Janaína Paschoal e as lágrimas daqueles que pela primeira vez puderam entrar numa universidade.

Longe de soar confusa, essa estrutura narrativa não só se atém a uma cronologia bem organizada, mas também avança na busca de um real oculto procurando-o no meio de um mosaico sempre significativo de máscaras, discursos e fatos dissonantes. Isso é o que Petra faz, por exemplo, quando recorta e justapõe as justificativas evasivas e variadas dos que votaram pelo impeachment de Dilma, ou exibe a outra face dos mesmos sujeitos ao recuarem mansos e complacentes diante da possibilidade de liberarem investigações por conta de provas escancaradas contra Temer.

Ou quando a diretora exibe e repete com rigor as palavras vazadas dos áudios que descortinaram muito dos bastidores da política nacional, com que buscando acordar uma memória e um espanto de que não deveríamos ter deixado adormecer. Ou quando contrapõe sistematicamente as narrativas dos telejornais brasileiros àquelas que iam sendo divulgadas pela mídia internacional, ou a simplicidade do power point dos promotores ao discurso do advogado de Lula na ONU: a discrepância ostensiva entre essas peças esfrega na cara de todos nós os vícios e limites das narrativas que foram sendo impostas à população brasileira.

Um exemplo especial desse esforço de desvelamento é, ainda, o exercício explícito e meticuloso de leitura que a diretora faz das imagens de Dilma descendo a rampa no dia de sua primeira posse: revê com lupa a cena da presidenta recém eleita caminhando alegre e firme ao lado de Lula e dona Marisa, enquanto que um até então obscuro Temer contorce discretamente as próprias mãos e, sempre tenso, contorna por trás a nova presidenta e seus companheiros mais próximos para tentar aparecer melhor numa foto da qual ele estava de fato muito fora do foco principal. “Um casamento arranjado”, diz a voz da diretora flagrando o ressentimento e o despeito ali recalcados. E ainda: “Os alicerces da nossa democracia começaram a rachar”.

Outro momento luminoso se dá no cuidado com que a diretora examina de repente duas grandes placas metálicas que se mostravam no escuro, no chão do Palácio da Alvorada, e flagra ali as linhas mais insuspeitas de continuidade entre os governos de presidentes tão díspares quanto Collor e Lula, logo depois de ter narrado um episódio didático e quase anedótico que expõe a presença permanente dos grandes empresários no poder, oculta sob a aparência de mudança que se cria a cada eleição. Uma cena que se dá quase no escuro, como que escondida, sóbrio sussurro de terror.

Destaco ainda, no meio desses exercícios mais detidos de leitura das imagens que vão sendo captadas pela câmera de Petra, a atenção plena com que a diretora ouve e registra uma conversa com as três faxineiras que limpavam as escadas do palácio depois do impeachment já votado. Ganham forma muito concreta e fascinante, ali, os movimentos muito humanos que variam entre a timidez, a repetição dos discursos pré-moldados e também o pensamento próprio que de repente se ergue e se transforma ao vivo, tateante, exibindo o mal estar e as dúvidas mais justas que, apesar de todas as pressões externas pra naturalização do estado de exceção, talvez sempre possam permanecer em algo ponto.

Ouvimos assim uma das mulheres, sentada sobre um degrau, baixando e desviando os olhos enquanto ousa dizer o que lhe ocorre no íntimo: “Eu não sei se ela foi tirada pelo povo. Não foi uma escolha do voto”. E ainda: “Na verdade acho que não existe democracia.”

Nesse sentido, uma das maiores belezas do documentário de Petra Costa está também nos pontos em que ela mesma se recusa a ocupar o lugar de quem irá explicar tudo, e assim se mostra corajosamente hesitante e atônita – não por acaso, se aproximando então daquelas mulheres tão distantes da perspectiva dos homens que costumam concentrar em suas mãos as narrativas oficiais. Como quando a diretora assume, num determinado ponto especialmente desconcertante da narrativa: “Eu não sei como isso deve ser contado”. Mineira, talvez tenha ecoado aí algo do maior poema épico já escrito sobre a Inconfidência Mineira, também aberto por Cecília Meireles com o exato contrário do que se esperaria de uma narrativa histórica tradicional: “Não posso mover meus passos por este atroz labirinto/ de esquecimento e cegueira/ em que amores e ódios vão.”

É nessa exibição de pontos cegos e impasses produtivos, enfim, que acredito ter encontrado o sentido último do meu ânimo reacendido, depois de ter visto o documentário de Petra. Como nos diz Alain Badiou, “talvez estejamos no ponto em que a história, tal como a conhecemos e praticamos, vá se dividir diante da prova de seu real, e assim se desfazer. Pode ser que a História – nossa história, a que sabemos contar – vá se abrir como a terra faz nos grandes sismos. Poderemos, então, começar de novo”.

É nessa “dialética afirmativa” que penso, ainda agora, quando me lembro da cena de Dilma dizendo que, no ponto da vida em que estava, depois de já ter sobrevivido a tantas torturas e a um câncer, só temia a morte da democracia brasileira. Ou da cena em que Lula, prestes a ser encarcerado, tenta animar a multidão afirmando que havia se tornado uma ideia que já não podia ser presa: algo que imagino como uma disseminação de repente incontrolável de uma reivindicação obstinada pra que a democracia como máscara e disfarce possa enfim dar lugar à democracia como realidade concreta, profunda, vivida e compartilhada.

Nas palavras de Badiou, “o heroísmo pode ser definido assim: manter-se sempre no próprio ponto real, manter-se ali onde o impossível vai ser afirmado ou confirmado como possível.”

Talvez por isso a cena final, em que a voz de Petra levanta a questão de como seguir adiante entre tantas ruínas, não tenha me parecido tão angustiante ou melancólica, mas lindamente desafiadora. E por isso mesmo tenha nos feito encarar, logo em seguida, a equação exata e eletrizante que encerra o filme, preto no branco, e nos cobra agora ainda mais uma decifração que seja enfim coerente: “O juiz Sérgio Moro é nomeado Ministro da Justiça de Bolsonaro. Lula permanece preso.”




Doutora em Literatura pela PUC- Rio, professora adjunta na UERJ. Coordena projetos na área de formação continuada para professores da rede pública do RJ e na área de educação a distância. Mãe solteira de uma filha grande e de um filho pequeno. Diariamente cozinha, lava pratos, varre a casa e tenta mudar o mundo.
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