Essa é a primeira entrevista da coluna semanal Chicas que escrevem/Arte: Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Thays Pretti

Postado em 08/05/2020, 16:39

A chica dessa semana é a querida Thays Pretti. Formada em Letras e Mestre em Estudos literários deu aula como professora e atualmente faz doutorado em estudos literários. Já trabalhou como revisora, redatora, e também, montou oficinas de escrita criativa. Hoje vamos conhecer um pouco do seu livro publicado recentemente pela Editora Patuá.

Fiz uma pequena entrevista com ela, vamos lá!

Chicas que escrevem: Para começar você poderia contar um pouco de sua trajetória como escritora? Por que começar a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Thays Pretti:
Eu comecei a brincar de escrever quando eu ainda era bem criança. Eu sempre gostei muito de arte, no geral, desenho, dança, música. Mas sempre gostei muito de ler, sempre tive livros em casa, então a vontade de escrever foi surgindo meio que naturalmente. Minha avó sempre teve muitos cachorros e acho que meu primeiro impulso narrativo foi decidir que eu queria contar as histórias de todos os cachorrinhos que ela tinha pelo ponto de vista da minha cachorrinha. Escrever, desde o começo, foi sempre uma diversão, um prazer, um modo de vida.

O impulso para continuar escrevendo vem da satisfação que a escrita me traz. Eu consigo significar meus sentimentos e minha visão de mundo a partir da escrita, eu consigo ser criativa, imaginativa, aprender e experimentar coisas novas. Acho que meu móvel é esse: sentir minha energia criadora em movimento. Acho que, no fundo, é essa sensação que faz com que toda pessoa que produz arte continue em frente, apesar de todas as dificuldades (internas e externas).

Você poderia nos contar um pouco sobre as suas influências. Quais nomes da literatura te marcaram?
O principal nome, a principal referência é certamente Clarice Lispector – por mais clichê que isso possa soar. Mas há outras influências importantes, como Katherine Mansfield, Kate Chopin, Virgínia Woolf, James Joyce, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, Gabriel García Marquez, Raduan Nassar, José Saramago, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles. E há ainda os poetas, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Leminski. Tem gente mais contemporânea, como Aline Bei, Luci Colin, Alice Sant’anna. E muitos, muitos outros. Aliás, este é o problema de listas: a gente sempre esquece nomes importantes.

Você está envolvida em várias atividades em torno a literatura, certo? Como o Coletivo Palavrão, a Revista Pluriverso e ainda o site Lendo Contemporâneos. Poderia falar um pouquinho desses projetos?
Destes citados, o Lendo Contemporâneos está em Stand-By, porque minha amiga que era responsável por ele, Estela Lacerda, estava em outros projetos e teve que priorizar. Um deles, do qual eu também participo, é o clube de leitura Leia Mulheres de Maringá. Acho clubes de leitura uma das iniciativas mais importantes que podem ser feitas em torno da literatura. Participo de dois deles aqui na cidade, o Leia e o Clube de Leitura Bons Casmurros, de organização do Victor Simião. Ambos são ótimos e estão no Instagram e Facebook também. Vale acompanhar.

Em relação à Revista Pluriverso é de organização do também escritor Luigi Ricciardi, e há a intenção de publicação de uma edição neste ano – mas não sei como vão ficar as coisas agora com o covid-19 e o isolamento social. De toda forma, a proposta da revista é publicar anualmente uma coletânea textos ficcionais, poéticos e críticos.

Em relação ao Coletivo Palavrão, é um coletivo de escritores que surgiu de uma oficina que eu ministrei durante o tempo em que fui professora temporária no curso de Letras da Universidade Estadual de Maringá. A ideia é que os participantes estudem a respeito de processo criativo, troquem textos, se ajudem e, ocasionalmente, também ofereçam oficinas para o público em geral. O Coletivo Palavrão também está no Instagram e volta e meia postamos algumas atividades de escrita por lá.

Seu último livro “A mulher que ri” é um livro de contos. Como foi a montagem e a escolha dos contos que iriam participar?
Eu inicialmente tive a ideia de montar um livro de contos, mas não havia necessariamente um critério que os reunisse. Com o tempo, eu senti necessidade de ter um fio que ligasse todos eles de alguma forma, e o fio que eu escolhi foi que todos eles deveriam ser protagonizados por mulheres. Assim, cortei os que não seguiam esse padrão, acrescentei outros que seguiam. E o livro foi tomando forma a partir disso. Uma curiosidade em relação ao livro e que o título foi a primeira coisa que surgiu. Depois criei um conto para usar esse título, e depois fui aos poucos produzindo os outros contos. Foi quase como se eu estivesse “tricotando” o livro, as coisas surgindo aos poucos, no decorrer do tempo.

Como foi sua experiência de publicação?
Eu já havia publicado 2 livros antes de A mulher que ri, mas nenhum deles tinha sido por uma editora convencional (foram autopublicações). É uma experiência bem diferente. Pegar o livro na mão, sentir o cheirinho. Eu não tenho filhos, mas quando peguei meu livro impresso pela primeira vez, senti uma emoção que acho que pode ser comparável com a de ver o filho pela primeira vez, depois de ele nascer.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Tenho algo a dizer para outras mulheres que escrevem, sim. É: escrevam. Escrevam sempre, independentemente das opiniões contrárias. Procurem outras mulheres escritoras, formem grupos, se ajudem. Troquem textos, façam críticas sinceras, aceitem receber críticas. Essas mini comunidades de escritores são excelentes para o desenvolvimento da nossa habilidade de escrita e, especialmente no começo, acho que mulheres escritoras acabam se sentindo mais seguras entre outras mulheres escritoras. Depois, vale trocar textos com homens também, claro. Mas acho que primeiro você precisa estar segura do que você faz, da sua habilidade. Porque culturalmente a gente acaba dando uma importância exagerada para a opinião masculina em tudo, e isso pode matar uma flor antes de ela desabrochar. Então, eu sugiro que encontre mais umas duas ou três mulheres que também escrevem e que vocês se fortaleçam juntas, para depois mostrar os textos ao mundo com mais segurança em si mesmas e tendo mais certeza do potencial dos seus textos. Comunidades de mulheres têm uma força gigantesca.

Além dessa entrevista, a Thays deixou também algumas indicações para os leitores. O livro indicado pela autora é O peso do pássaro morto da Aline Bei, e já para ver a indicação foi o recente filme Adoráveis mulheres. Não esqueçam de conferir as dicas!

Gostaria de agradecer a Thays Pretti por aceitar participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo on-line. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert