Imagem: Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Morgana Kretzmann

Postado em 21/08/2020, 17:25

A chica que escreve da semana é Morgana Kretzmann que nasceu no interior do Rio Grande de Sul e vive atualmente em São Paulo. Ela é atriz, roteirista e produtora cultural tendo recebido já prêmios nacionais e regionais. Além disso, é formada em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Santa Catarina.

Vamos à entrevista! 😊

Como de costume, para começar você poderia contar um pouco de sua trajetória como escritora? Por que começar a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Sou antes de tudo uma contadora de histórias. Tanto na minha carreira como atriz, são quase 20 espetáculos realizados, como escritora e roteirista, sempre tentei contar boas histórias.

Por volta de 2003, comecei a escrever em blogs. Escrevia poesia e algumas crônicas. Eram blogs pessoais, então deixava os textos lá algum tempo, depois apagava.

Trabalhei também com dramaturgia. Adaptei, por exemplo, o livro “Big Jato”, do Xico Sá, para os palcos, no Rio de Janeiro, onde ganhamos prêmios de fomento as artes cênicas. Viajamos pelo Brasil com esse espetáculo, foi uma bonita experiência.

Mas em relação à escrita do “Ao Pó” demorei muitos anos para mostrar os primeiros rascunhos para alguém. Havia insegurança da minha parte. Sabemos que o meio literário é pouco aberto para novos nomes. Percebi que para mulheres era ainda pior. Numa pesquisa conduzida pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB (Universidade de Brasília), entre 1965 e 2014, 70% dos livros publicados por editoras brasileiras foram de homens, e 90% deles, homens brancos do eixo Rio/São Paulo.

No meu caso, além de ser mulher, sou do interior do Rio Grande do Sul. Eu digo sempre que numa sociedade machista, um homem, quando erra, ele é ruim, uma mulher quando erra, todas as mulheres são ruins. Quando uma mulher acerta, é exceção.

Então, esse tipo pensamento que algumas pessoas (homens e mulheres) ainda têm, me trouxeram receios por muitos anos. Por isso, escrevi esse livro completamente em silêncio, na distância, no isolamento. A única pessoa que sabia dele era o Paulo Scott (meu marido). Depois de alguns anos, mandei para algumas amigas do meio literário, depois para alguns amigos, até que numa oficina do Professor Assis Brasil, em São Paulo, no ano de 2019, eu falei dele em público pela primeira.

Sigo escrevendo, pois como disse, sou uma contadora de histórias e vou continuar utilizando todas as ferramentas que eu me sentir apta a usar, teatro, cinema, literatura para contar essas histórias. Inclusive já estou trabalhando num romance novo, chamado “Água Turvo”, um livro de ação, com perseguições, suspense, tiroteios, protagonizados por duas mulheres, uma guarda-parque e uma jornalista. A história se passa na fronteira com a Argentina, às margens do Rio Uruguai, numa pequena cidade onde fica uma Reserva Florestal e o maior salto d’água longitudinal do mundo, ambos ameaçados pela construção irregular de uma hidrelétrica.

Você poderia nos contar um pouco sobre as suas influências. Quais nomes da literatura te marcaram? O que você anda lendo ultimamente?
Sou fã da Andréa del Fuego, como sempre falo. “Os Malaquias” foi um livro que mudou minha vida. Willian Faulkner também me influenciou e me influencia muito.

Tenho lido muito novas autoras, como Monique Malcher, e seu “Flor de Gume”, ou os livros das coleções da editora Venas Abiertas, da Karine Bassi, como por exemplo o primeiro livro da Dalva Maria Soares, “Para diminuir a febre de sentir”.

Agora, para citar outros nomes que me marcaram, e a lista é grande, eu poderia ir de Machado de Assis e Clarice Lispector até Elena Ferrante e Marcelino Freire.

Seu primeiro livro foi publicado pela Patuá Editora, o romance “Ao pó”. Pode nos contar um pouco sobre o livro? Como foi o desenvolvimento da obra?
“Ao Pó” é um livro de vingança, de traumas e recomeços. Ele trata de temas fortes, fala de violência infantil, de violência contra mulher. São temas que podem ser difíceis para algumas pessoas, mas que precisam ser escritos e lidos.

O livro foi sendo concebido de forma natural, nunca quis fazer dele um romance panfletário – e pelas resenhas e retornos que tenho recebido as pessoas têm percebido isso.

Penso também que não se trata de literatura regional, já que sou do interior do Rio Grande do Sul e grande parte da história se passa nesse local há um contexto que poderia levar a esse rótulo, mas não é o caso. É preciso, a propósito, repensar esse termo “literatura regional” no Brasil.

Continuar escrevendo sobre esses locais desconhecidos pela grande maioria das pessoas, sobre cidades do interior, sobre localidades rurais do interior do Brasil, é um projeto literário que me interessa bastante. O Brasil tem muitos brasis e ele está no Norte, no Centro-oeste, no interior profundo dos estados do país.

 Além de livros você também escreve roteiros, certo? Poderia nos contar um pouco sobre essa sua outra forma de escrita?
Há muitas diferenças entre escrever roteiro e escrever um texto literário. São linguagens diferentes.

Roteiro é ação. Além disso a história contada num roteiro pode andar, se mover, através dos diálogos dos personagens. Saber escrever bons diálogos é essencial. E é um trabalho coletivo, o que fica no papel não é a obra final.

Já o texto literário é um trabalho solitário, tem uma linguagem própria, tu cria teus métodos, tua maneira de contar aquela história e tu precisa apenas da imaginação, da adesão do teu leitor, não de um aparato por trás, como numa série ou num filme.

Mas, no fim tanto um como o outro só funciona se houver uma boa história.

Como foi sua experiência de publicação?
Bem, o livro foi além das minhas expectativas. O trabalho do Eduardo Lacerda, da Editora Patuá e de todos que trabalharam para a edição dessa obra, desde a revisão até a capa e o trabalho editorial, foram impecáveis.

Sobre o dia do primeiro lançamento, senti como se estivessem tirando algo de mim e que aquilo nunca mais voltaria para minhas mãos, nunca mais seria só meu. A sensação de vazio, quando tudo acabou, foi grande. Não sei muito bem explicar o sentimento que ficou. Não pude pensar muito nisso, pois logo em seguida veio a pandemia, o isolamento social.

Tudo que tem acontecido com a vida do livro até aqui é uma grande surpresa. Não esperava que fosse ser assim, as resenhas, a primeira impressão do livro que se esgota tão rapidamente, a recepção, a aceitação e o retorno entusiasmado de leitoras e leitores. Só tenho a agradecer.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Que o mercado editorial precisa se abrir mais para novas autoras, principalmente novas autoras negras, novas e novos autores LGBTGI+. Tem muita gente nova, e muita gente talentosa escrevendo, produzindo e que merece ser vista, merece ser lida. Tem muita coisa boa sendo produzida no nosso país.

Além dessa entrevista a Morgana fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:
Livro: “Por cima do mar” da Deborah Dornellas.
Filme: “Azougue Nazaré”.
Série: Black Earth Rising

Gostaria de agradecer imensamente a Morgana Kretzmann por ter aceitado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!

 

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert