Foto: Márcio Martins

Coluna da Barbara Bíscaro

Carta a uma jovem atriz de Florianópolis no futuro

Postado em 12/09/2016, 12:20

Ilha de Santa Catarina, setembro de 2016.

Cara colega,

Esta carta lhe encontra no futuro, no ano de 2086. Escrevo sentada em minha mesa de trabalho, em casa, no bairro da Trindade, que ainda é povoado de casas residenciais e uma relativa porção de mangue e área verde. Minha carta é uma tentativa de explicar a você o porquê lhe parece impossível viver de sua profissão na cidade de Florianópolis no tempo em que você vive. Pareceu-me que eu lhe devia uma explicação, já que vivi décadas antes e compreendo ao menos o contexto de onde partimos nos idos das primeiras décadas de nosso século.

Primeiro gostaria de lhe dizer que sinto muito. Gostaria de explicar que nos primeiros anos dos anos 2000 vivemos um vislumbre de estruturação de uma série de ações que apontavam para o fortalecimento de uma política pública para as artes e para a cultura. Nos organizamos em setoriais, fortalecemos associações e lideranças, participamos ativamente de uma série de ações que pareciam que dariam um resultado concreto. Havia recursos financeiros e uma aparente vontade de diálogo entre artistas, produtorxs e o poder público. Vivemos uma época conhecida como Era dos Editais, em que companhias teatrais ou artistas como você entravam em concorrências públicas com projetos e poderiam ganhar recursos para montar espetáculos, fazer circulações, estudar e pesquisar teatro. A cidade começou a ferver com peças, festivais, oficinas, espaços de grupos. Tudo era gratuito ou a preços populares, pois o fomento servia para que o público tivesse acesso a arte e a cultura. O fomento servia para manter vivas tradições e inovações no campo artístico que nunca seriam sustentadas por uma lógica de mercado. Nosso setor movimentava dinheiro, gerava renda e qualidade de vida. Havia liberdade de pensamento na época, e as lutas sociais e políticas entraram nas discussões das artes. Pode lhe parecer estranho, mas ninguém tinha medo de opinar e discutir. Cada unidade monetária (no caso, nesta época, o real) investida em cultura tinha um grande retorno tanto social quanto financeiro para a cidade.

Mas gostaria de lhe explicar que nossa cidade possui uma história social terrível. Nossa ilha sempre foi controlada por uma minoria racista, elitista e estúpida. Só para você entender o contexto, neste período apenas uma família controlava o principal canal de televisão e dois dos maiores jornais do Estado. Os outros meios de comunicação de maior vulto eram guiados por grupos religiosos. A televisão ainda era o maior meio de difusão de informação e de manipulação das opiniões populares. Cinco ou seis famílias controlavam e distribuíam entre si os lucros em cima de serviços básicos da população e incentivavam uma feroz especulação imobiliária. Foi nessa época que destombaram as orlas de bairros tradicionais da cidade, como Itaguaçu ou Ribeirão da Ilha: o que hoje você conhece como um bairro cheio de arranha-céus já foi um aglomerado de casas centenárias portuguesas que remontavam nosso passado, mas foi tudo destruído. O pensamento de Florianópolis sempre tendeu a uma valorização do privado e, com o acirramento das disputas políticas que culminaram com o Golpe de 2016 (você deve ter aprendido sobre isso nas aulas de História), nosso panorama viveu uma grande crise.

Uma crise não só financeira, mas ética. Foi entre os anos de 2012 e 2016, sob o comando de um prefeito que nem nome próprio tinha (já que o seu era um plágio, marca de linhagem familiar de políticos profissionais), que a situação da sua cidade encaminhou-se para um triste destino. Com certeza você não ouviu falar dele, já que a nulidade de suas ações não reservou algum lugar na história dessa ilha. Mas esta administração freou todo o processo de concretização de ações para fortalecer a arte a cultura da cidade. Parou todos os programas, suspendeu todas as verbas, infringiu leis e conseguiu diminuir o que parecia já minúsculo. Ninguém o responsabilizou, ninguém levantou a voz.

Essa administração desastrosa conseguiu concretizar o desmonte por culpa nossa. Passamos alguns anos construindo e corroborando um pensamento de Mercado Cultural na produção artística de nossa cidade: fomos ensinados que deveríamos entender de contabilidade, administração, concorrência pública e estratégias de venda para sermos bem sucedidos em nossa arte. O mito do self-made man estava entranhado em nossa formação: a sua capacidade de venda e seu estômago para questões burocráticas viraram atributos bem mais importantes e valorizados do que seu ofício como atriz. Nós passávamos horas e horas em frente a computadores, em cartórios, em reunião com contador e organizando papeladas para concretizar um projeto artístico. Mas ainda valia a pena nos idos de 2010, porque isso realmente viabilizava alguma coisa.

Havia no ar, implícito no pensamento da cultura de massa, que ser bem sucedidx como artista e viabilizar a arte como profissão significava ser famosx ou ricx (o que na época o caminho mais direto era aparecer na televisão), e para isso deveríamos tratar de temas e formas artísticas que pudessem dar dinheiro e conquistar o “público médio”. Nessa lógica, sua arte deveria ser rentável e agradável. Se não era, é porque significava que você era incompetente. Quem insistiu em seguir pelos caminhos de resistência, quem apostou no teatro como uma arte do encontro e da discussão ética e estética viveu vidas duras nesse período, com dificuldade. Muitxs desistiram. Mas o pior mesmo, e isso é uma reflexão pessoal minha cara amiga, é que xs próprixs artistas compraram este discurso do privado: ao invés de batalhar por uma pauta em comum que exigisse estruturação de base de recursos públicos para o fomento das artes, pelo fortalecimento de instituições sólidas e com um pensamento mais complexo sobre o fazer artístico e seu contexto, nós queríamos apenas garantir nosso quinhão individual.

Gastei tempo da minha vida em reuniões políticas que tentavam pensar formas de mobilizar a classe teatral da cidade. Assisti a movimentos como a Ocupação do MinC de 2016, os debates públicos do Erro Grupo, ou ações como as do coletivo ETC serem frequentados por poucas (e quase sempre as mesmas) pessoas. Vi atrizes serem perseguidas e processadas por suas ações artísticas de cunho crítico. Vi coletivos de arte e cultura negra, de lutas LGTB e feministas surgirem e começarem a reivindicar pautas vitais para que pensássemos quem éramos e para onde queríamos caminhar. Vi cineastas sendo processados por excesso de liberdade de expressão. Vi a cidade perder espaços culturais importantes como a Casa das Máquinas. Espaços que talvez você nem chegou a frequentar. Para ter uma ideia, não tínhamos nem mesmo uma casa de cultura ou centro cultural municipal em nossa cidade, nenhum ponto de encontro e convívio entre artistas e público. Os espaços privados eram mantidos com muito esforço e os próprios artistas não os frequentavam ou fortaleciam, quem dirá o público médio. Muita coisa acontecia em nossa cidade, mas eram ações pulverizadas e esvaziadas, que não conseguiam ter força. As pessoas não queriam frequentar os encontros umas das outras: queriam promover o seu próprio encontro.

O que era estranho é o fato de que ninguém parecia se importar. Mas não nos culpe: estávamos cansadxs e confusxs minha amiga. Em um contexto esvaziado e sem recursos, muitxs de nós tivemos que viajar, virar garçonetes, tocar em casamentos, fotografar formaturas, abrir um bar e tentar a sorte. Não tínhamos tempo, nem energia. Ninguém podia em horário ou dia nenhum. A vida nos comia pelos calcanhares. Começamos a perceber que quando as reuniões ou pautas políticas envolviam o assunto de dinheiro, como o iminente lançamento de um edital, todos se interessavam e apareciam para discutir. Quando o chamamento vinha na direção de se posicionar e tomar uma atitude mais enfática, que demandava comprometimento com ações, o esvaziamento era dolorido.

Olhando para trás, agora, avalio que tínhamos que ter pensado outras formas de nos encontrar. As reuniões, o blábláblá político era realmente muito desgastante. Mas nessa altura já éramos poucos, e precisávamos pagar nossas contas. Olhando para trás vejo que nós estávamos cegxs: eu também era branca, elitista e estúpida, na busca pelo espetáculo perfeito ao invés de olhar para o que ocorria ao meu redor. Ao invés de ir em direção aos movimentos de comunidade ou periferia, ao invés de ir ao encontro dessa grande maioria que foi chamada de minoria pelo meu tempo, de encontrar outrxs modelos de mundo que não o meu self made woman show, o meu mito de artista-intelectual-bacaninha.

A face opressora da cidade foi se tornando cada vez mais sufocante: viver em Florianópolis era caro. A elite, não só empurrava negrxs, imigrantes e pobres para as periferias: empurrava qualquer iniciativa de ocupar as ruas, os espaços públicos, de pensar a coletividade como processo de organização de nossas vidas. Eram ações empurradas para a marginalidade, atiçando o medo e o preconceito das pessoas. Não frequente a rua, ela é perigosa. Compre seu apartamento minúsculo por um preço exorbitante, não conheça seus vizinhos, fique em casa vendo televisão. Ache normal que a praia em frente a sua casa seja imprópria para banho. Forme a família do comercial de margarina. Trabalhe muito e cale a boca. Compre. Odeie todo o resto. Venda ingressos para o seu espetáculo. Ganhe o edital, faça algo que se apresentará em São Paulo, Madri ou Nova Iorque e só aí vão começar a te reconhecer em sua própria cidade. Faça sucesso. Não envelheça. Ganhe, sempre ganhe.

Cara amiga, lamento muito. Lamento que não tivemos a força necessária para olharmos nos olhos uns dxs outrxs, não tiramos tempo do nosso cotidiano para empreender alguma resistência nesse processo de esvaziamento. Talvez esse relato explique um pouco porque você, nos idos de 2086, não veja perspectivas ou um ambiente interessante para criar e habitar artisticamente a Ilha de Santa Catarina. As instituições públicas e ações de base que já mal existiram em meu tempo, no seu, apenas lhe aparecem em relatos. É lamentável que um tempo tão longo nos separe e ainda vivamos questões tão parecidas. Espero que esta carta ao menos lhe encontre com boa saúde, que no final das contas, parece ser mesmo o essencial. Boa sorte




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
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