Arte: Duda Nas

Coluna da Coletivo Valente

A sociedade não aceita a mulher exausta

Postado em 29/04/2021, 10:21

Por Taiana Bubniak. 

A pandemia, o governo, as notícias, a pressão estética, o mundo do trabalho, os filhos, as relações pessoais, os prazos. Não necessariamente nessa ordem e com certeza existem outros itens para incluir neste lista de coisas que deixam as mulheres absolutamente exaustas, cansadas e desanimadas.

Acontece comigo e vejo muitas mulheres à minha volta com a mesma angústia. Estamos cansadas e não é permitido a nós o tão afamado autocuidado (que na atual situação seria ficar em completo silêncio por duas semanas em uma caverna sendo alimentadas por uma sonda), nem aquele que o marketing cosmético quer nos empurrar goela abaixo.

As mulheres não têm tempo.

Não têm privacidade.

Não têm emprego.

Não têm dinheiro.

Não têm segurança.

Não têm direito à vida, afinal, basta existirmos para sermos alvo de homens criminosos que nos machucam, matam ou estupram pelo simples fato de existirmos.

E ainda precisam manter uma atitude positiva perante à vida, o universo e tudo mais, afinal… ninguém aguenta uma mulher “reclamona”, não é?

A mulher tem que estar feliz, tem que sorrir, estar constantemente cheia de ideias criativas e inovadoras, esbanjando bom humor e energia.

Porque a sociedade não suporta as mulheres exaustas. Mas, alto lá! As mulheres exaustas não suportaram a sociedade, como fazem há tantos anos. Estamos cansadas, mas não a ponto de não ensinar nossas filhas, sobrinhas e meninas que elas devem gritar.

Ouvi uma menina de 4 anos dizer: “sabe, quando eu crescer quero ser homem, é tão mais fácil”, influenciada um pouco pela mãe feminista e outro tanto pela observação genuína da realidade.

Além de todo o cansaço, ainda temos que ter nossos próprios negócios. Afinal, o mercado de trabalho é duro com as mulheres e muitas enxergam no empreendedorismo uma luz no fim do túnel (que não é um trem desgovernado).

Aliás, o empreendedorismo é tão ocupado pelos homens e toda a sua masculinidade mas ele deveria ser intitulado como uma herança claramente feminina. Foram as mulheres viúvas jovens ou abandonadas pelos maridos medíocres que inauguraram esse tipo de trabalho: num cantinho da casa, transformando o aprendizado em oportunidade, sem muitos recursos, fazendo das tripas, coração.

De acordo com o Sebrae, em 2019, já éramos 24 milhões de mulheres empreendedoras no Brasil. Mesmo sendo sobreviventes e exaustas há tantos anos, ainda precisamos mostrar nosso valor. E sabe como isso acontece? Através da imagem, da roupa, do sorriso que não pode sair do rosto. Da exaustão da jornada tripla mais uma vez varrida para debaixo do tapete, formando uma montanha de sujeira e cansaço que é solenemente ignorada, assim como o elefante azul na sala.

Queria continuar o texto com metáforas, mas vamos à realidade:

– As mulheres têm, em média, escolaridade 16% maior que os homens e 34% a mais de chance de se formar no ensino superior.

– No entanto, 59% dos brasileiros não se sentem confortáveis quando veem uma mulher no cargo de CEO de uma empresa. Tadinhos.

– Mas as empresas comandadas por mulheres performam 59% melhor do que as chefiadas por homens.

– No Brasil, de cada 10 homens empreendedores, 7 viram donos de negócios de fato. Para mulheres, a dura realidade: apenas 3 mantêm os negócios ativos.

As mulheres estão exaustas, mas nós continuamos lutando para sobreviver, inventando negócios reais, suficientes, autossuficientes, inovadores e de fato necessários, diferente dos homens que, por exemplo, lançaram uma “genial” luva cor de rosa para as mulheres realizarem a troca de absorventes menstruais de forma “discreta”. É claro que faliram.

Um dia ainda estaremos descansados como merecemos e vamos dominar o mundo. Aguardem.

Fontes:

http://datasebrae.com.br/wp-content/uploads/2019/03/Empreendedorismo-Feminino-no-Brasil-2019_v5.pdf

https://www.oecd.org/education/education-at-a-glance/EAG2019_CN_BRA.pdf

http://10years.firstround.com/

Taiana Bubniak é jornalista, escreve sobre cultura e maternidade no portal @aescotilha e cria muitas coisas na @acuradoriadeconteudoparte do Coletivo Valente.




O coletivo Valente nasceu em 2018 da vontade de um grupo de trabalhadoras do judiciário catarinense de Santa Catarina de unirem esforços não apenas em torno do debate das nossas especificidades, mas também da luta por vida digna e livre para todas as mulheres, a partir de uma perspectiva emancipacionista, antirracista e classista.
Veja a coluna da Coletivo Valente