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Coluna da Ana Maria Veiga

40 anos de Mar de Rosas

Postado em 18/04/2017, 19:27

O ano era 1977, final do governo militar-repressivo do general Ernesto Geisel, aquele que havia tomado posse prometendo abertura alguns anos antes. No entanto, os métodos da ditadura impregnavam as próprias relações sociais e as páginas da história não podem ser viradas tão rapidamente. Entendemos isso hoje, com a mais dura clareza.

A cineasta era Ana Carolina Teixeira Soares, ou simplesmente Ana Carolina, como ficou conhecida. Já vinha de outras poucas experiências cinematográficas quando resolveu fazer um filme que questionasse aquilo que foi denominado “condição feminina” – uma temática acalorada dos anos 1970, levantada e discutida pelo movimento feminista. Uma maior complexificação das diferenças dessa condição teria início naqueles anos.

Ana Carolina fugiu, durante muito tempo, de qualquer identificação com o feminismo, mas admitia em entrevistas que estava tratando da “condição feminina” em sua trilogia, que começa com Mar de Rosas (1977), passa por Das tripas coração (1982) e termina com Sonho de Valsa (1987). Nos anos 1970, as feministas eram atacadas amplamente, chamadas de lésbicas, feias e mal-amadas, ressentidas por não terem encontrado o “homem certo”. Este tipo de tratamento, de cunho machista, apoiado na defesa “da moral e dos bons costumes”, chega até os nossos dias, perpetuando certo policiamento de condutas e reiterando padrões pré-estabelecidos.

Mesmo prezando um distanciamento seguro do feminismo, Ana Carolina (a cineasta) não teve como evitar a apropriação de seus filmes pelo debate feminista, pois com eles trouxe à cena a mais contemporânea das discussões. Qual era, afinal, a situação das mulheres na sociedade? O que elas não queriam mais?

Mar de Rosas começa com uma briga de casal, dentro de um Fusca, a filha adolescente sentada no banco de trás, sem muita paciência, talvez já acostumada com aquele tipo de conflito entre o pai e a mãe, que nunca se sente ouvida ou acolhida pelo marido em seus desejos, dentro da relação. O trio de atores é composto por Norma Bengell, Hugo Carvana e Cristina Pereira (a jovem Betinha).

Na continuação da briga, num quarto de hotel, a mulher, chamada Felicidade, corta o pescoço do marido com uma lâmina de barbear. Pegando a filha pela mão, as duas fogem pela estrada, onde logo começam a ser perseguidas por um homem bastante peculiar. Interpretado pelo ator Otávio Augusto, o “capanga” do marido, Orlando Barde, usa terno preto, gravata, óculos escuros, leva um revólver no porta-luvas e se comporta de modo violento. Despeja frases feitas enquanto “caça” sua presa – Felicidade. Aos poucos, ele vai adquirindo os traços de um torturador, um policial à paisana, com métodos próprios e obtusos.

A fuga adentra uma pequena cidade do interior, possivelmente em São Paulo. Felicidade, além de fugir da morte do marido e do homem que a persegue, tem de escapar às tentativas de homicídio da própria filha. Betinha incendeia a saia da mãe, usando gasolina e um palito de fósforo, dentro de um posto de combustíveis. Em outra cena, manda despejar um caminhão de terra pela janela da pequena sala onde havia trancado a mãe, na expectativa de vê-la morta, soterrada. Na última tentativa, Betinha coloca uma lâmina de barbear dentro do sabonete com o qual a mãe vai se lavar. Quando Felicidade se corta, assistimos ao prazer do torturador diante do sangue que escorre do corpo de sua vítima.

Se por um lado nos deparamos com uma denúncia velada contra os métodos subterrâneos do regime militar – que incluem hinos da pátria tocados por uma banda desafinada de palhaços e o apoio ufanista de um casal do interior ao governo conservador -, por outro vemos as ações que querem acabar com aquele tipo de mulher, que aceita padrões e os reproduz na criação da filha, com toda a normatividade dos bons modos para uma moça de boa família: “não fale palavrão”, “feche as pernas ao sentar”, “coma direito”… blá blá blá…

Para o feminismo (assim como na psicanálise), “matar a mãe”, simbolicamente, era a primeira coisa a ser feita, num tipo de libertação de uma corrente que vem de um passado longínquo. Betinha representa a jovem irreverente, deseducada, às suas próprias custas.

A personagem Felicidade, interpretada por Norma Bengell, foi construída no encontro da atriz com o feminismo. Em entrevista que acompanha os DVDs da trilogia, a atriz reconhece: “Eu li de uma forma feminista. Eu tava na Europa, foi o primeiro filme que eu fiz na volta e eu tava emprenhada de feminismo”.

A alegoria foi a estratégia utilizada para que se pudesse falar aos que quisessem entender uma linguagem cifrada, uma forma de resistência. O pesadelo sem fim, vivido em 21 anos de ditadura, era minado e combatido a cada nova cena, até o momento final, em que a jovem por fim se livra, ao mesmo tempo, da mãe e do homem que as perseguia, mandando uma “banana” para a câmera, dizendo um “que se dane” ao público espectador. A metáfora do poder ditatorial é rompido, no mais puro ato de rebeldia, de agência.

“Simplesmente coloquei para fora o horror que nossa realidade me inspira. Acredito que seja um modo bem atual de falar da vida, a vida urbana dentro de um Volkswagen, diante de um aparelho de televisão. É preciso que as plateias entendam a modernidade do exorcismo” (Veja, 15.02.1978, p. 87).

Entendemos com isso que sua crítica vai além dos clichês. O “horror” que ela menciona está diretamente relacionado ao contexto de opressão do regime militar, que é inserido ironicamente no filme, mas de maneira radical.

Ana Carolina acabou sendo uma das cineastas mais conhecidas naquele momento por suas realizações, já que soube à sua maneira contornar os obstáculos da censura, por meio de alegorias, metáforas e ironias – matérias-primas de sua estética e linguagem cinematográfica. O filme ficou em cartaz durante dois meses no Rio de Janeiro, tendo sido visto por cerca de 400 mil pessoas e seguiu para festivais internacionais, tendo ganhado destaque na imprensa europeia.

Sobre Betinha, ela continua viva, sempre jovem e debochada. Sorrindo ou de cara fechada, não leva desaforos nem aceita o controle que lhe impõem. É de sua coragem que precisamos todos os dias, de suas estratégias, tentamos nos apropriar. Vale a inspiração para pensarmos nas rupturas e permanências pelas quais temos passado nas últimas quatro décadas, renovando estratégias de ação e resistência àquilo que insiste em retroceder e fazer de nós, mulheres, autômatas reprodutoras de um social que convém. Mas a quem?

O filme Mar de rosas, em toda sua atualidade, pode ser visto nesta quinta-feira, dia 20, no projeto Cinema Embarcado, a mulher com a câmera, com curadoria de Rosana Cacciatore. A exibição acontece na Pracinha da Lagoa, em Florianópolis.

 




Ana é historiadora, professora, roteirista, videomaker, jornalista, coordenadora de programação do Fazendo Gênero/Mundos de Mulheres, preta e feminista, entre outras possibilidades.
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