Alerta de gatilho: esta reportagem contém relatos de violência política de gênero e raça contra candidatas, incluindo violência física, ameaças de morte e de violência sexual, perseguição e ataques misóginos, racistas, xenofóbicos e etaristas. Se esses são temas sensíveis para você, prossiga com cautela. 

Em Jaraguá do Sul, na região Norte de Santa Catarina, estado considerado o mais conservador do Brasil, Fernanda Klitzke, advogada e candidata a 2ª suplente de Décio Lima (PT) ao Senado, participava de uma confraternização com amigos depois de uma agenda de campanha. Após um desentendimento com uma vizinha do local, devido ao volume do som, a Polícia Militar (PM) foi chamada. Conforme registrado em vídeo, Fernanda foi agredida e levada no camburão para a delegacia.

“Mesmo me identificando como advogada e tentando estabelecer diálogo, fui imobilizada, agredida, derrubada, chutada e atingida por disparos de munição de impacto controlado. Fui algemada e mantida dentro de um camburão com um homem por cerca de uma hora”, relatou Fernanda ao Catarinas sobre o ocorrido na noite de 12 de setembro.

Caso Fernanda Klitzke

A candidata afirma que não pode antecipar a conclusão das investigações sobre a motivação dos agentes, mas considera fundamental que se esclareça por que uma ocorrência que poderia ter sido conduzida pelo diálogo alcançou aquele nível de violência. 

“Pelas circunstâncias daquele dia e por manifestações ocorridas durante e depois do fato, considero legítimo que também seja investigada uma possível conotação político-eleitoral. Estávamos em uma confraternização, comemorando os aniversários de pessoas identificadas politicamente e vivemos um período eleitoral marcado por forte polarização”, diz.

Fernanda registrou o caso formalmente. Em nota divulgada pela imprensa, a Polícia Militar informou que a atuação dos agentes seria apurada pela Corregedoria-Geral. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acompanha o caso e presta apoio institucional, especialmente quanto às prerrogativas profissionais da advocacia. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) também se manifestou, afirmando acompanhar os desdobramentos e ressaltando a necessidade de uma apuração célere e transparente.

“Desejo que haja uma investigação técnica, independente e transparente, capaz de individualizar as condutas e esclarecer exatamente o que aconteceu”, ressalta a candidata. Ela destaca que não espera que o ocorrido mobilize reações contra órgãos de segurança pública, mas que haja uma investigação com seriedade. 

“Segurança pública é uma política essencial, os policiais exercem diariamente uma função difícil e indispensável. O que eu espero é justamente o fortalecimento das instituições. E instituições fortes são aquelas capazes de olhar para os seus próprios atos, investigar eventuais excessos com transparência e, quando necessário, corrigi-los”, afirma.

A reportagem entrou em contato com a Polícia Militar de Santa Catarina. Em nota, a assessoria informou que “os fatos foram devidamente registrados e que o emprego da força será submetido aos procedimentos institucionais de análise e controle, conforme previsto na legislação e nas normas que disciplinam a atuação policial. Em razão da complexidade da ocorrência e da necessidade do emprego do uso da força, a Polícia Militar informa que os fatos serão integralmente apurados pela Corregedoria-Geral da Polícia Militar de Santa Catarina”.

Fernanda relata que o episódio causou impacto físico, emocional e também na rotina da campanha. “De repente, uma candidatura que deveria estar discutindo propostas e o futuro de Santa Catarina precisou dedicar tempo e energia para lidar com as consequências de um episódio de violência e com toda a exposição pública que veio depois dele”, conta.

Violência política de gênero atinge candidaturas 

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de processos por violência política de gênero aumentou mais de 11 vezes em 4 anos. Em 2022, foram encaminhados 15 processos à Justiça Eleitoral. Em 2026, até a metade de setembro, já eram 177 processos.

Shay Ferreira, doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e mestra em Comunicação, explica que a violência política de gênero reúne ações que buscam constranger, silenciar ou excluir mulheres dos espaços de participação e poder político. 

Ela pode se manifestar de forma explícita, por meio de ameaças e agressões, mas também em práticas menos evidentes, como interrupções e deslegitimação de falas, comentários misóginos e tentativas de afastar mulheres de espaços de decisão.

“A gente está pensando em todo e qualquer ato sistemático de violência que visa excluir essa mulher do espaço político”, resume Shay. Quando atravessada pelo racismo, acrescenta, a violência assume outras formas e intensidades contra mulheres negras.

Carolina Russo Simon, candidata a deputada estadual em São Paulo pelo Psol, descreveu a violência política que tem sofrido ao responder um formulário publicado pelo Catarinas.

“Durante atividades de panfletagem, um homem pegou meu material e colocou dentro das calças, em atitude desrespeitosa e já fui encoxada em agendas de massa na rua”, descreveu. 

A candidata também teve os banners da campanha roubados, a placa de casa quebrada a socos e tem sido alvo de ataques misóginos. “Esses episódios têm gerado insegurança e desgaste emocional, mas sigo denunciando e buscando apoio para lidar com essas situações”, afirmou.

Destruição de materiais de campanha 

Ainda no formulário, Marisa Zanoni, do Coletivo Nós Juntas, que concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) pelo PT, relatou que materiais de campanha também estão sendo alvo de vandalização.

Casos monitorados pelo MEL – Mulheres em Lutas explicitam como a violência política de gênero se intensifica durante o período eleitoral. Vandalismo a materiais de campanha tem sido uma forma de ataque recorrente entre candidaturas feministas.

Em Minas Gerais, materiais da candidata a deputada federal Dandara Tonantzin (PT) foram incendiados. No Paraná, materiais de Miss Preta (PT), candidata a deputada estadual, também foram destruídos.

No Rio Grande do Sul, materiais da campanha de Manuela d’Ávila (PT) ao Senado foram cortados com lâminas em diferentes pontos de Porto Alegre. Em diversos casos, os cortes atingiram especificamente o rosto da candidata.

Ameaças de morte e de violência sexual 

No Rio Grande do Norte, Brisa Bracchi e Natália Bonavides, candidatas a deputada federal pelo PT, receberam ameaças de morte com conteúdo discriminatório. 

Em Minas Gerais, Ana Elisa e Bella Gonçalves, ambas candidatas à Câmara dos Deputados pelo PT, foram ameaçadas de morte e violência sexual. O comitê central da campanha de Bella, em Belo Horizonte, foi vandalizado e teve uma placa da candidatura arrancada.

Os ataques também ocorreram durante agendas de campanha. No Rio Grande do Norte, Thabatta Pimenta (PV), candidata a deputada federal, registrou boletins de ocorrência após dois episódios de perseguição.

O que explica o número alto de casos de violência política?

Marlise Matos, coordenadora executiva do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem/UFMG), explica que a violência política de gênero se intensifica nos períodos eleitorais, quando a disputa pelo poder institucional se torna mais direta.

Segundo a pesquisadora, espaços como parlamentos e governos ainda funcionam como uma “reserva masculina branca do poder”. Nesse contexto, a violência é utilizada como um recurso para tentar excluir mulheres da disputa política e impedir a ampliação de sua presença nos espaços de decisão.

A gravidade dos ataques também é atravessada por diferentes desigualdades. Mulheres negras, trans e pertencentes a outros grupos historicamente afastados do poder podem enfrentar formas ainda mais intensas de violência, explica Marlise.

Esse cenário ganhou novos contornos com as plataformas digitais e a atuação organizada de grupos de extrema direita. A pesquisadora aponta que redes de ódio e misoginia se articulam na internet para promover ataques coordenados, que tendem a se intensificar durante as eleições.

“Você soma um contexto de disputa e de competição e a violência é arbitrada como recurso de poder, como recurso estratégico para expulsar, excluir as mulheres do campo político em toda a sua diversidade”, afirma.

Violência política de gênero nas redes sociais 

Somente na rede social X, o MonitorA – observatório de violência política de gênero nas redes sociais mapeou 1318 ofensas contra candidaturas entre 16 e 24 de agosto. Marina Silva, candidata ao senado em São Paulo, foi o principal alvo na plataforma, com ataques à sua aparência, etaristas e xenófobicos. 

As candidaturas ao Senado foram as mais atacadas nas redes sociais durante o recorte analisado, mas não as únicas. Erika Hilton (Psol/SP) foi a candidata a deputada mais atacada no X no período, sendo que 75% dos ataques tinham cunho transfóbico.

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Período: 16 a 24 de agosto | Crédito: reprodução Núcleo Jornalismo.

Candidaturas feministas que responderam ao formulário do Catarinas relataram que têm sido alvo de ataques nas redes sociais. 

“São frequentes frases como ‘vai lavar a louça’ ou comentários dizendo que, por ser mulher, não sei do que estou falando. Não são apenas críticas políticas: são ataques que reproduzem a ideia de que mulheres não pertencem aos espaços de decisão e tentam nos intimidar e silenciar. Ainda assim, seguimos ocupando esses espaços e fazendo nossa voz ser ouvida”, descreveu Débora Camilo, candidata a deputada estadual em São Paulo pelo Psol.

Carla Ayres, candidata à deputada federal pelo PT/SC, relatou que recebe diariamente ataques nas redes sociais que podem ser enquadradas como violência política de gênero: “São ataques gratuitos, simplesmente pelo fato de eu ser uma mulher lésbica e do PT”. Os comentários são denunciados para as plataformas.

Como garantir que nenhuma pessoa seja alvo de violência política de gênero e raça? 

Fernanda Klitzke destaca que não é possível naturalizar que uma mulher tenha medo de participar de uma campanha, manifestar suas posições, exercer sua profissão ou ocupar o espaço público.

“Mulheres precisam poder atuar livremente, defender ideias e ocupar espaços de poder sem que a violência seja tratada como um custo natural da participação política. Democracia pressupõe que todas nós possamos participar dela com liberdade e segurança”, complementa.

O Brasil possui, desde 2021, uma legislação específica para prevenir, reprimir e combater a violência política contra as mulheres.

Para as especialistas ouvidas pelo Catarinas, no entanto, a existência da lei precisa ser acompanhada por políticas de prevenção, acolhimento e proteção, além da responsabilização dos agressores e da atuação dos próprios partidos políticos.

Laura Astrolabio, advogada e cofundadora d’A Tenda das Candidatas, destaca que a Lei 14.192/2021 representou um avanço ao criminalizar condutas e estabelecer garantias para a participação política das mulheres. A aplicação da legislação, porém, ainda encontra obstáculos.

Entre os 175 casos acompanhados pelo Monitor da Violência Política de Gênero e Raça, do Instituto Alziras, entre 2021 e 2023, apenas 7% das representações resultaram em ações penais eleitorais até janeiro de 2024. 

“Mais do que criar novas normas, precisamos fazer com que os mecanismos que já existem funcionem de forma efetiva e que a prevenção esteja no centro da resposta”, defende Laura.

Para ela, durante as eleições, é necessário ampliar os canais de denúncia e acolhimento, garantir respostas institucionais mais rápidas e melhorar a produção e o encaminhamento de provas. 

“Também é fundamental que partidos políticos, instituições públicas, meios de comunicação e plataformas digitais assumam responsabilidades na prevenção e no enfrentamento desse tipo de violência”, destaca.

Sistema de Justiça precisa reconhecer a violência política

Um dos principais obstáculos apontados pelas entrevistadas está no caminho percorrido pelas vítimas após uma denúncia. Amanda de Albuquerque, diretora executiva da Rede A Ponte, avalia que, embora existam canais formais, candidatas e mandatárias ainda encontram dificuldades para saber onde denunciar e como acompanhar os casos.

Para ela, os canais precisam estar integrados para evitar que a vítima tenha que buscar, sozinha, respostas entre polícia, partido, Justiça Eleitoral e Ministério Público.

“Hoje a ausência dessa informação prolonga a dor e a angústia e pode ser lida como uma forma própria de violência institucional”, destaca.

Outro problema é a tipificação incorreta: casos de violência política podem acabar registrados apenas como crimes de ameaça, calúnia, difamação ou injúria. Marlise Matos, coordenadora executiva do Nepem/UFMG, também aponta a necessidade de formação dos profissionais que atuam desde as delegacias até os tribunais.

“Há uma urgência de fazer um letramento do sistema de Justiça, desde a delegacia, do escrivão de polícia, passando pelo delegado, pelo Ministério Público, pelas defensorias, pelos tribunais”, descreve.

Segundo Marlise, além da responsabilização, as mulheres precisam encontrar uma rede preparada para acolher e acompanhar os casos. Uma possibilidade seria qualificar estruturas que já atuam no enfrentamento à violência doméstica para que também possam responder às violências sofridas pelas mulheres na esfera pública e política.

Prevenção e proteção precisam caminhar juntas

As entrevistadas também defendem que o enfrentamento não aconteça apenas depois da violência. Marlise propõe a criação de um programa nacional, com campanhas públicas permanentes, acompanhamento dos casos e formação continuada das redes de proteção.

Para a pesquisadora, dar visibilidade aos ataques também é uma forma de disputar publicamente o reconhecimento da violência política: “É importante que seja divulgado para que a gente possa trazer esse debate para a esfera pública. Esses casos são recorrentes e têm o mesmo objetivo, que é o silenciamento das mulheres nas esferas públicas.”

A proteção também precisa chegar rapidamente a quem está sob ameaça. Amanda defende suporte jurídico gratuito para candidatas e mandatárias e fortalecimento dos programas de proteção. 

“Inclui também o uso mais efetivo das medidas cautelares já previstas em lei, que importam não apenas para responsabilizar o agressor depois do fato, mas principalmente para impedir que a violência se repita enquanto o processo ainda tramita”, complementa.

Laura acrescenta que a transformação passa pela conscientização de toda a sociedade. É com esse objetivo que A Tenda das Candidatas criou a campanha Setembro Neon, voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência política de gênero e raça. A iniciativa inspirou um projeto de lei para instituir a campanha nacionalmente e já se tornou política municipal em Caçapava (SP).

“O objetivo é garantir, na prática, que o direito das mulheres de votar, serem votadas e exercerem plenamente seus direitos políticos seja assegurado e que nenhuma mulher precise escolher entre participar da política e estar segura”, destaca.

Partidos também precisam assumir responsabilidade

Parte das mudanças necessárias deve ocorrer dentro dos próprios partidos. Amanda de Albuquerque destaca que muitas violências acontecem nas legendas e casas legislativas. “É preciso que os partidos e mesas diretoras se responsabilizem e façam fiscalização efetiva sobre os casos, com mecanismos próprios de apuração e sanção”, defende.

Shay Ferreira, doutoranda em Tecnologia e Sociedade pela UTFPR, acrescenta que combater a violência política também significa garantir que as candidaturas de mulheres tenham recursos, participação política e condições efetivas de disputar eleições, em vez de serem utilizadas apenas para cumprir as cotas estabelecidas pela legislação.

Para ela, o enfrentamento ao problema não pode ser uma tarefa atribuída somente às mulheres que são atingidas por ele: “A gente precisa também conscientizar e responsabilizar os homens que historicamente ocupam os espaços de poder, para que eles tomem o lugar deles diante da violência política de gênero e raça”.

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  • Jornalista dedicada à cobertura de gênero. Mestranda em Comunicação na UFPR. Atuou como Visitante Voluntária no Institut...

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