Quando uma menina entra em campo, há muito mais em jogo do que a partida. Existe a possibilidade de permanência ou abandono ao esporte, de encontrar um ambiente seguro ou enfrentar situações de violência, de ter acesso a estrutura e profissionais qualificados ou depender de oportunidades que quase nunca chegam para todas. Mas, essas escolhas não acontecem apenas a nível individual, muitas delas são resultados dos nossos votos nas eleições. 

É por isso que em períodos eleitorais precisamos falar sobre mulheres no esporte. E, principalmente, sobre quem estará ocupando os espaços onde são definidas leis, orçamentos e políticas públicas que afetam a vida de todas nós. 

As mulheres são maioria da população brasileira, mas continuam sub-representadas no Congresso Nacional. Segundo dados da ONU Mulheres e da União Interparlamentar, elas ocupam apenas 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 18,5% das vagas no Senado. Quando determinados grupos estão ausentes dos espaços de decisão, determinadas experiências também podem ter mais dificuldade para chegar à agenda política. 

Não significa dizer que toda mulher na política defenderá as mesmas pautas ou que apenas mulheres podem defender os direitos das mulheres. Significa reconhecer que a democracia também depende de diversidade nos lugares em que as prioridades são definidas. E no esporte essa discussão fica ainda mais evidente. 

O esporte também se decide na política 

Durante décadas, meninas foram ensinadas, de diferentes maneiras, que determinados espaços esportivos não eram para elas. O futebol talvez seja o exemplo mais conhecido, mas a questão vai muito além dele.

A desigualdade aparece no acesso à prática esportiva, na infraestrutura, na formação de base, na profissionalização, na remuneração e também na segurança.

Uma menina que deixa de praticar esporte porque não tem um equipamento público próximo de casa está diante de uma questão de política pública. Uma atleta que precisa escolher entre estudar, trabalhar e treinar porque não consegue se sustentar também está diante de uma questão de política pública. Uma profissional que deixa o esporte porque sofreu assédio ou discriminação também.

Por isso, só comemorar quando mulheres chegam ao alto rendimento não basta, precisamos também olhar para todo o caminho que existe antes disso. 

É justamente por isso que a discussão sobre representação feminina precisa ir além da presença nos espaços de poder. Não basta aumentar o número de mulheres eleitas se as desigualdades de gênero continuarem sendo tratadas como questões secundárias. O esporte também precisa entrar nessa agenda como uma política pública capaz de promover autonomia, educação, saúde e oportunidades.

E isso vale para diferentes modalidades e para diferentes lugares ocupados pelas mulheres no setor. Atletas não são as únicas que enfrentam barreiras. Treinadoras, árbitras, jornalistas, gestoras e dirigentes também encontram um mercado em que os principais espaços de decisão ainda são majoritariamente masculinos. Ampliar a participação feminina significa também criar condições para que essas mulheres possam chegar e permanecer nesses lugares.

Nas eleições de 2026, portanto, vale olhar para além da quantidade de mulheres que estarão nas urnas. Precisamos observar quais candidaturas têm propostas concretas para reduzir desigualdades e ampliar a participação feminina, inclusive no esporte.

Que compromissos assumem com o financiamento público? Como pretendem ampliar a presença de mulheres na gestão esportiva? Que medidas propõem para enfrentar a violência e a discriminação?

No fim, votar também é escolher quais temas terão espaço na agenda de quem toma decisões. O esporte feminino não deveria depender apenas de momentos de grande visibilidade para ser discutido. Se queremos uma sociedade em que meninas possam ocupar todos os espaços, inclusive aqueles que historicamente foram negados a elas, essa construção também passa pela política.

E talvez essa seja uma das perguntas que deveríamos fazer antes de escolher nossos candidatos e candidatas: quando essas pessoas tiverem poder para decidir, as meninas estarão entre as prioridades?

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  • Gabi Sabino

    Gabriela Sabino (Gabi Sabino) é mestre em Políticas Públicas e Governo e doutoranda em Economia na FGV. Como empreendedo...

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