“Isso não terminará nunca”. Assim teria escrito John Adams, em 1776, sobre o efeito cascata das reivindicações por direitos em Massachusetts, nos Estados Unidos. Ele temia que, ao estender o direito ao voto a homens sem propriedade, logo todos os grupos sociais minoritários iriam reivindicar o mesmo. “Surgirão novas reivindicações. As mulheres exigirão o voto”, conta a historiadora Lynn Hunt no livro “A invenção dos direitos humanos”

E ele tinha razão: a cada inclusão, uma reação em cadeia fazia com que minorias religiosas e étnicas, entre outras, passassem a ser consideradas sujeitos de direitos. Mas, além disso, também foi preditivo: “isso” ainda não terminou.

No Brasil, as mulheres representam 51,5% da população brasileira, segundo dados do Censo Demográfico 2022. Somente 18% das cadeiras na Câmara Federal são ocupadas por deputadas mulheres. As candidaturas de 2026 mostram que o cenário não melhorou.

Considerando todos os cargos, o total é de 18.736 candidaturas deferidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no dia 15 de setembro de 2026, das quais apenas 6.675 (ou seja, 36%) são de mulheres. (O TSE atualiza diariamente os deferimentos das candidaturas, portanto, o número total provavelmente mudará entre a escrita deste texto e sua publicação).

Em 2026, são 8.988 candidaturas de pessoas negras, o que corresponde a 47,97% do total. A porcentagem se aproxima do que representa a população negra, numericamente, em relação à população total do país, que corresponde a 56%, segundo o IBGE. Porém, entre os eleitos em 2022, apenas 26% eram negros.

Entre as candidaturas de 2026, 1% são quilombolas, ainda segundo dados do TSE. Indígenas representam apenas 0,98%, apenas 184 em todo o país, de 20 etnias diferentes. Quanto à orientação sexual, são 368 gays, lésbicas e bissexuais, correspondendo a apenas 1,97%. 

É importante pontuar que esses números se referem às candidaturas que optaram por declarar sua orientação sexual, o que significa apenas 56,22% do total de candidaturas. Em relação à identidade de gênero, que somente 58,97% informaram, 0,53% (ou 99 pessoas) são transgênero. Dessas, 55 usaram nome social.

A conquista de direitos não acontece sem luta. Se a diversidade da população brasileira não é representada na política institucional, multiplicam-se instituições e campanhas da sociedade civil para reverter esse cenário.

Instituto Alziras, Instituto Marielle Franco, Elas no Poder, Eu Voto em Negra, Mulheres Negras Decidem, Quilombo nos Parlamentos (da Coalizão Negra por Direitos) e Vote LGBT+ são algumas delas. Nas eleições de 2026, somaram-se a elas mais uma iniciativa: a campanha Vote em Indígena, da rede de comunicação Mídia Indígena.

Mulheres na política, mulheres nas notícias

A representação das mulheres na mídia exerce um papel importante na dificuldade de inserção desse grupo na política. 

O Global Media Monitoring Project (GMMP), que monitora a presença de mulheres na imprensa em diferentes países, utiliza o conceito de “aniquilação simbólica”, formulado pela pesquisadora Gaye Tuchman na década de 1970.

Segundo Claudia Lago, uma das coordenadoras nacionais do GMMP no Brasil, o termo descreve processos pelos quais as mulheres são ignoradas ou invisibilizadas pela mídia ou, quando aparecem, têm suas ações, opiniões e questões tratadas como pouco importantes.

“Ou condenadas, quando seu comportamento, opinião, de alguma forma questionam os estereótipos de gênero. Infelizmente, este conceito ainda é válido”, afirma. 

A “aniquilação simbólica” também é percebida pela população LGBT+. Para Alciana Paulino, líder de Inteligência do Instituto Plena Cidadania (IPC), que desenvolve o projeto Vote LGBT+, “há ainda uma barreira menos visível, mas muito importante: a possibilidade de se imaginar naquele lugar. Se partidos, parlamentos e governos continuam sendo espaços onde pessoas LGBT+ são minoritárias, sub-representadas, e onde aquelas que alcançam projeção frequentemente se tornam alvo de hostilidade, a mensagem transmitida é de que a política institucional não foi feita para elas”.

Em pesquisa realizada em 2025, o GMMP analisou, no Brasil, 683 notícias veiculadas em dez jornais impressos, oito emissoras de televisão, doze sites noticiosos e oito emissoras de rádio. Verificou-se que apenas 20% das fontes referidas como políticas ou parlamentares são mulheres. Já em ocupações tradicionalmente associadas ao cuidado, como profissionais de saúde, assistentes sociais, cuidadores/as de crianças, as mulheres representam 100% das referências.

“Estamos há décadas praticamente estacionadas/os na progressão da equidade de gênero na mídia: as mulheres são metade do mundo, mas aparecem apenas em 26% (praticamente ¼) das notícias. E isso piora nas chamadas hard news (campos da política, economia), consideradas hierarquicamente mais relevantes, e que se afastam ainda mais da presença de mulheres”, completa Claudia Lago. 

Ou seja, quanto mais “importante” é um campo, menos ele terá mulheres. Ao mesmo tempo, Claudia destaca que a violência política de gênero, tipificada pela Lei 14.192/2021, “é pouco narrada midiaticamente, apesar de afetar mulheres na política em todos os espectros, mas especialmente as racializadas”.

Segundo Stephane Ramos, coordenadora de desenvolvimento de lideranças do Mulheres Negras Decidem, “é um custo maior para mulheres negras do que para qualquer outro grupo que disputa a política institucional. Um levantamento do Instituto Marielle Franco com candidatas negras de todo o país mostrou que 78% delas sofreram violência. Entre parlamentares, mulheres negras relataram violência política de gênero e raça em proporção bem maior do que mulheres brancas e concentram a grande maioria dos episódios de violência intrapartidária”.

As mulheres em geral e, mais especificamente, as mulheres negras, ainda encaram uma barreira estrutural para sua entrada na esfera pública: elas são bem mais demandadas nas tarefas domésticas do que os homens. 

No Brasil, dados do Ipea de 2022 apontam que o fato de ser mulher acrescenta, em média, 10 horas semanais no trabalho doméstico e de cuidado não remunerado em relação aos homens. Em 2022, as mulheres despenderam semanalmente 21h36min, e os homens 11h48min neste trabalho.

Além disso, entre as mulheres negras, 34,5% dedicam mais de 20 horas semanais a atividades domésticas e de cuidado dentro do domicílio, percentual maior que o observado entre mulheres brancas.

“Um país só tem a ganhar tendo as mulheres, que historicamente são vistas nesse lugar de cuidado, ocupando espaços políticos institucionais. A mídia também precisa abraçar melhor nossas candidaturas e entender que temos um projeto de país, e esse projeto passa justamente por redistribuir o trabalho de cuidado. Políticas de creche, de assistência à pessoa idosa e de saúde comunitária que tirem parte desse peso das costas das mulheres negras são, elas mesmas, uma forma de ampliar sua presença na política”, defende Stephane.

Violência política ameaça candidaturas e representação LGBT+ 

A violência contra mulheres na política é marcada pela interseccionalidade, não apenas no que diz respeito à raça/etnia, mas também à orientação sexual. A vereadora Brisa Brachi (PT/RN), atualmente candidata a deputada federal, denunciou ameaças de “estupro corretivo” e assassinato, que seriam transmitidos online. A intimidação, recebida por e-mail na primeira semana de setembro, incluía data para acontecer, descrição detalhada da violência e informações pessoais da candidata e de seus familiares. O material foi encaminhado à Polícia Civil. 

“Eu quero dizer para esses criminosos que nós vamos encontrá-los. Todas as medidas estão sendo tomadas, nós não vamos abaixar a cabeça. Isso é uma tentativa de nos aterrorizar, de nos parar, de nos interromper. O objetivo é causar medo, terror, fazer com que nós saiamos das ruas, da nossa agenda política. E nós não vamos parar”, afirmou a candidata, que se identifica como bissexual.

Para Alciana Paulino, do Instituto Plena Cidadania (IPC), “a violência tem um efeito que vai além de atingir uma candidatura específica: ela pode desencorajar novas pessoas a se candidatarem e, assim, funcionar como um filtro informal de quem chega aos espaços de poder”. 

Assim, Alciana defende que “ampliar a bancada LGBT+ é fundamental porque a representação política, nesse contexto, também é uma questão de proteção da vida. Em um país marcado por níveis extremos de violência contra pessoas trans e LGBT+, não basta que essas populações sejam reconhecidas como eleitoras: elas precisam participar dos espaços em que leis, orçamentos e políticas públicas são definidos”.

O IPC organiza o projeto Vote LGBT+, que mapeou 263 candidaturas deste grupo em todo o Brasil. Dessas, 58 são de pessoas trans. Para o Senado Federal, foram apenas três: Fabiano Contarato (PT/ES), Fernanda Lopes (UP/PA) e Monica Benicio (PSol/RJ). 

O levantamento, no entanto, não E significa o total de candidaturas LGBT+ no país. “O mapeamento do Vote LGBT começa na fase de pré-candidaturas. Nesse momento, fazemos uma busca ativa para identificar pré-candidaturas LGBT+ e convidá-las a se cadastrar na plataforma.

Esse trabalho de mobilização também contou, em 2026, com a participação da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), do coletivo Tymbyras e do Transmasc no Poder. As informações publicadas no site, porém, são sempre fornecidas pelas próprias candidaturas. Todas as pessoas que aparecem na plataforma preencheram o cadastro, se autodeclararam LGBT+ e autorizaram a divulgação de suas informações”, explica Alciana Paulino. 

O Instituto divulga as candidaturas em votelgbt.org.

Indígenas por direitos coletivos

A raça/etnia indígena é uma das mais invisibilizadas na política institucional brasileira, ficando atrás apenas da amarela, numericamente inferior também quando se olha para o total da população. 

O “esquecimento” dos povos originários não é exclusividade das candidaturas: vale lembrar que, em 2021, os estados do Piauí e do Rio Grande do Norte ficaram inicialmente de fora da vacinação prioritária para a população indígena. A justificativa? Como não havia terras demarcadas, o Plano Nacional de Imunização desconsiderou a existência desses povos.

Erisvan Guajajara, coordenador nacional da rede de comunicadores Mídia Indígena, afirma que “muitas das decisões que afetam diretamente os povos indígenas ainda são tomadas em espaços onde a presença indígena é muito pequena. Questões como demarcação de terras, saúde, educação, proteção ambiental, orçamento público, enfrentamento ao garimpo e mudanças climáticas passam pelo Congresso, pelas assembleias e por outros espaços de decisão”.

Pensando nisso, a Mídia Indígena desenvolveu, neste ano, a campanha Vote em Indígena, criada para dar visibilidade às candidaturas indígenas em todo o Brasil. A campanha “busca fortalecer especialmente candidaturas conectadas com a defesa dos territórios, dos direitos coletivos, da vida e das pautas históricas construídas pelos povos e organizações indígenas, mais do que olhar apenas para a identidade declarada pelas candidaturas”, completa Guajajara.

Normas para superar barreiras

Para diminuir a sub-representação de mulheres na política institucional, foi estabelecida uma cota de gênero na Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997). A norma exige que partidos assegurem o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada sexo. 

O TSE considera alguns elementos para identificar se os partidos estão burlando a regra: “votação zerada ou inexpressiva; prestação de contas zerada, padronizada ou ausência de movimentação financeira relevante; ausência de atos efetivos de campanha, divulgação ou promoção da candidatura de terceiros”.

Mas um dado que não se encontra nas estatísticas mostra as dificuldades cotidianas depois de chegar lá: apenas em 2016, o plenário do Senado Federal passou a ter banheiro feminino, mais de 55 anos depois de sua inauguração.

Em 2021, a Lei nº 14.192 reconheceu outra barreira para a entrada e permanência das mulheres na política: a violência política de gênero. Segundo essa lei, “constitui crime assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidatas ou detentoras de mandato com menosprezo ou discriminação de gênero”. 

Veio da população LGBT a ação que levou à primeira condenação por violência política de gênero (VPG) no país, em 2024: a do deputado estadual Rodrigo Amorim (União Brasil) por ofender a vereadora Benny Briolly (PSOL/RJ), primeira travesti eleita em Niterói. 

Segundo a doutoranda Bárbara Nascimento (PPGCOM ECA/USP), esse é hoje o principal instrumento legal para enfrentar esses casos. Mas “há ainda discussões no Congresso Nacional que visam a aperfeiçoar a legislação, endurecendo as penas para os agressores e garantindo maior celeridade nos processos éticos e judiciais”, afirma.

Para Stephane Ramos, do Mulheres Negras Decidem, “o descumprimento das regras de distribuição de recursos e de tempo de propaganda já é, em si, uma forma de violência política de gênero e raça, e isso afeta sobretudo mulheres negras porque as candidaturas proporcionais costumam ser sua principal porta de entrada. Hoje boa parte dos estatutos partidários sequer prevê qualquer dispositivo de combate à violência política de gênero”.

O lado positivo é que já existem mecanismos que podem ser acionados para fortalecer a presença de mulheres na política:

“repasse por meio fundos partidários, qualificação e investimento nas lideranças, fiscalização, maior atenção e proteção aos episódios de violência política de gênero e raça, sendo este muitas vezes o causador da desistência de candidaturas negras antes mesmo de chegarem às urnas”, explica Stephane.

Senado Federal, a casa estratégica

“Representatividade sem representação substantiva não altera a estrutura.” Assim Stephane resume a presença de mulheres e pessoas negras que não defendem a pauta da redução das desigualdades de gênero e raça/etnia. 

Como o Senado Federal é considerado uma casa estratégica nestas eleições devido à sua prerrogativa de destituir ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), mapeamos no Intervozes as candidaturas de mulheres racializadas para a Casa.

A maioria das candidatas negras (pretas e pardas) integra federações do campo progressista: Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e PSOL Rede, formada pelos dois partidos que dão nome à federação. Não identificamos nenhuma candidatura de mulher indígena ao Senado Federal.

Candidaturas femininas negras ao Senado por federação

Federação Brasil da Esperança: 3

Federação PSDB Cidadania: zero

Federação PSol Rede: 7

Federação Renovação Solidária: 1

Federação União Progressista: 1

Recursos de campanha revelam desigualdades

Para ter uma ideia da relevância que está sendo dada a essas candidaturas, verificamos os recursos destinados para as dez candidaturas de mulheres negras de federações progressistas para o Senado Federal e qual percentual veio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, mais conhecido como Fundo Eleitoral. Além dele, as candidaturas podem receber recursos próprios, de fundos partidários e de doações.

Federação Brasil da Esperança

Eliziane Gama (PT/MA): Total: R$ 4.477.031,54 (99,66% vieram do Fundo Eleitoral)

Marília Campos (PT/MG): Total: R$ 5.566.824,86 (95,93% vieram do Fundo Eleitoral)

Benedita da Silva (PT/RJ): Total: R$ 5.377.391,86 (99,24% vieram do Fundo Eleitoral)

Federação Psol Rede

Professora Evany (Psol/AM): Total: R$ 50.000,00 (90% vieram do Fundo Eleitoral)

Professora Delliana (Psol/BA): Total: R$ 100.000,00 (100% vieram do Fundo Eleitoral)

Cintia Dias (Psol/GO): Total: R$ 168.913,32 (94,72% vieram do Fundo Eleitoral)

Áurea Carolina (Psol/MG): Total: R$ 2.498.735,67 (91,59% vieram do Fundo Eleitoral)

Gizelle Freitas (Psol/PA): Total: R$ 104.000,00 (95,85% vieram do Fundo Eleitoral)

Maria Madalena Nunes (Psol/PI): Total: R$ 47.250,00 (100% vieram do Fundo Eleitoral)

Marina Silva (Rede/SP): Total: R$ 2.891.225,20 (75,45% vieram do Fundo Eleitoral)


Esses dados revelam que, entre um baixo número de candidaturas de mulheres pretas e pardas ao Senado, há um abismo entre candidaturas com grandes recursos destinados e outras com financiamento pífio, o que torna a disputa eleitoral ainda mais desafiadora. 

Apenas metade dessas candidaturas receberam recursos “competitivos”, superando R$ 2 milhões. Por um lado, isso revela a força dessas candidatas, que conquistaram protagonismo dentro do próprio partido. Por outro, as candidaturas com poucos recursos traduzem a realidade da grande maioria das mulheres negras que se candidatam, sobretudo às vagas para a Câmara e ao governo.

Se há uma desigualdade gritante entre candidaturas masculinas e femininas, o desequilíbrio do apoio partidário também se observa quando comparamos candidatas brancas e negras.

Nada sobre nós sem nós?

Em relação às pessoas com deficiência (PCDs), há apenas 510 candidaturas em relação ao total de candidaturas (ou 0,36%), incluindo as não deferidas. O sistema de busca de candidaturas do TSE não permitiu que fossem filtradas apenas as deferidas.

De acordo com dados do TSE, existem apenas seis candidaturas de pessoas com deficiência (PCD) no país para o Senado Federal em 2026. Diferente dos demais grupos minoritários que abordamos neste artigo, não encontramos campanhas ou projetos que visem o aumento da representatividade desta população na política institucional.

No Brasil, 7,3% da população com mais de dois anos de idade (ou 14,4 milhões de pessoas) têm alguma deficiência, segundo o Censo 2022 do IBGE.

A participação desta população na política institucional é tão invisibilizada que até campanha desenvolvida pelo TSE para incentivar diversidade nas candidaturas não incluiu as PCDs.

A campanha Representatividade, lançada em maio de 2026, focou apenas em candidaturas de mulheres, negras e negros e indígenas. 

A senadora Mara Gabrilli (PSD/SP) enviou ofício ao TSE questionando a exclusão. “Sei que existe muita gente com deficiência cheia de potencial para transformar, para fazer política, para transformar a realidade, mas a barreira ainda é enorme”, afirmou Gabrilli à Rádio Senado.

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