A vereadora de Florianópolis, Manu Vieira (PL), publicou um artigo sobre o fim da escala 6×1 e parte de uma preocupação recorrente: os impactos dessa mudança no mercado de trabalho. Mas há uma ausência central nesse debate e ela não é pequena. Precisamos ir além da superfície.

Falta perguntar: de qual mercado estamos falando? E, principalmente, de quais trabalhadores? Porque o Brasil real não é homogêneo. E a escala 6×1 também não é. O mercado de trabalho tem rosto e ele não é neutro.

Quando se fala em jornada de trabalho de forma abstrata, apaga-se o fato de que são majoritariamente mulheres, especialmente mulheres negras, que ocupam os postos mais precarizados, onde a escala 6×1 é regra. Estamos falando de trabalhadoras do comércio, da limpeza, da alimentação, do cuidado.

E aqui está o ponto que precisa ser enfrentado: a defesa da escala 6×1, ainda que indireta, sustenta um modelo que depende da exaustão desses corpos.

O que não aparece no cálculo econômico!

O debate sobre produtividade costuma ignorar que a jornada dessas mulheres não termina quando o expediente acaba. Existe uma segunda – e muitas vezes uma terceira – jornada: trabalho doméstico; cuidado com filhos; cuidado com familiares. 

Não remunerada. Não reconhecida. Mas que é absolutamente central para o funcionamento da sociedade. 

Então, quando se argumenta contra a redução da jornada, é preciso dizer com honestidade: está se defendendo a continuidade de um modelo em que essas mulheres não descansam.

Descanso não é privilégio: é direito!

Parte da resistência ao fim da escala 6×1 se ancora na ideia de que reduzir a jornada seria inviável, ou até “idealista”. Mas o que é, de fato, inviável? Uma sociedade em que pessoas trabalham seis dias por semana e, ainda assim, não conseguem acessar qualidade de vida? Ou uma mudança que redistribua o tempo e permita que mais gente viva com dignidade?

O tempo sempre foi o marcador da desigualdade. Afinal de contas, tempo é a única coisa que não podemos pegar de volta. Quem vai devolver o tempo perdido longe dos filhos? Quem vai devolver o tempo gasto no ônibus? 

Para os operadores do poder a máxima sempre foi “tempo é dinheiro”. Mas para os trabalhadores, e mais precisamente para as trabalhadoras, o tempo é dignidade.

No filme “Que horas ela volta”, a nossa protagonista Val, brilhantemente interpretada pela Regina Casé, vive o drama de uma trabalhadora que não teve tempo de conhecer a própria filha. Que criou uma relação maternal muito maior com o filho da patroa, do que com a menina que gestou. O debate sobre o fim da escala 6×1 é, no fim das contas, sobre o direito das “Vals” da vida real.

Vivemos um momento em que o bem-estar virou tendência global. Fala-se em saúde mental, autocuidado, equilíbrio. Mas essa conversa não chega a todos. Enquanto uma parcela da população discute autocuidado, terapia, yoga e alimentação saudável, outra sequer tem tempo para dormir o suficiente. Porque existe um filtro silencioso: o tempo.

Ter tempo para cuidar da saúde, praticar atividade física e descansar é, hoje, um privilégio de poucos. E a escala 6×1 é um dos mecanismos que sustentam essa desigualdade. O debate não é apenas econômico. É político.

É sobre decidir quem pode descansar; quem pode cuidar de si e quem continuará sustentando esse sistema sem direito ao básico.

Reduzir a jornada não é sobre trabalhar menos. É sobre permitir que mais pessoas vivam para além do trabalho. O fim da escala 6×1 não deve ser analisado apenas pela lógica do mercado, e sim  pela lente da justiça social.

Porque manter tudo como está é, na prática, escolher quem continuará sem tempo e sem escolha. Talvez essa seja a pergunta que deve orientar esse debate: quem, hoje, pode se dar ao luxo de descansar e por quê?

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  • Bia Vargas

    Catarinense de 38 anos começou a empreender quando foi mãe. Voluntária social desde os 13 anos passando por grupo de jov...

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