Quantas de mim cabem neste país? Quantas de nós? Essa pergunta não é um lamento, é um desafio. Porque, para muitos, a mulher negra só é “representativa” quando está na dor, na pobreza ou na margem. Quando a gente sobe um degrau, estudando, trabalhando, ocupando espaços que antes eram inimagináveis, parece que incomoda. Parece que perdemos o “selo de autenticidade”.

Mas eu devolvo a provocação: quem foi que decidiu que a mulher negra só é legítima quando está no chão? Quem decretou que a mobilidade social nos descaracteriza? Que ascender é trair nossas origens?

A Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, reuniu milhares de mulheres de todo o país e deixou uma verdade escancarada: nós somos muitas! E somos profundas demais para caber na expectativa de quem só nos reconhece se estivermos cabisbaixas.

Ali estavam mulheres de todos os mundos: as que lutam para sobreviver e as que lutam para governar; as que batalham pelo básico, e as que tomam decisões estratégicas; as que sustentam o país e as que começam a redesenhá-lo.

E sabe por quê? Porque todas nós, sem exceção, vivemos sob o efeito do racismo. A ascensão não nos salva dele, apenas nos expõe a novas formas.

A mulher negra que sobe não deixa de ser negra. Ela continua sendo alvo de desconfiança, exotização, subestimação e vigilância. Só muda o CEP, o racismo não.

Por isso, dizer que mulheres negras com mobilidade social não representam o movimento negro é ignorar completamente a lógica do racismo no Brasil. É querer nos manter em um único lugar: o de sempre. E isso, sim, é violência.

Tem gente que prefere a mulher negra sempre na narrativa da dor porque isso a mantém controlável. A ascensão social, quando ela ocorre, abre uma brecha perigosa: mostra que sabemos ocupar, liderar, decidir. Mostra que somos capazes de disputar poder. E é exatamente isso que assusta.

Só que nós não estamos aqui para confortar ninguém. Nossa existência é múltipla, e nossa representação também. Somos as avós que abriram caminho na faxina e somos as netas que hoje defendem teses, comandam projetos, administram empresas, disputam eleições. Somos as duas coisas e tudo que existe entre elas.

A pergunta então não é “por que a mulher negra que ascendeu ainda representa o movimento negro?”. A pergunta real é: quem se beneficia quando tentam nos dividir?

Quando nos colocam umas contra as outras, as que têm diploma e as que não têm, as que ascenderam e as que batalham pelo básico, estão tentando nos fragilizar. Estão tentando reduzir nossas possibilidades. Estão tentando nos enfraquecer exatamente quando estamos mais fortes e plurais do que nunca.

O Brasil precisa entender que não existe apenas um tipo de mulher negra. Nunca existiu. Nunca vai existir. 

Quantas de mim cabem neste país?

Todas. Até as que vocês não esperavam ver. Até as que vocês não queriam que chegassem.

E a verdade é uma só: a gente não só cabe, a gente transborda!

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  • Bia Vargas

    Catarinense de 38 anos começou a empreender quando foi mãe. Voluntária social desde os 13 anos passando por grupo de jov...

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