A eleição de Eduarda Campopiano, de 23 anos, como deputada estadual em São Paulo com quase dois milhões de votos representa um marco que o movimento feminista não pode ignorar. 

Autodeclarada publicamente como “a maior inimiga das feministas de São Paulo”, sua votação expressiva demonstra que a construção de uma identidade política baseada na oposição explícita ao feminismo possui forte apelo eleitoral. 

Tratar esse resultado apenas como provocação de internet ou reagir somente com deboche e indignação passageira é um erro perigoso. 

Pautas antifeministas

Entre as pautas que impulsionaram a parlamentar estão a oposição ao aborto, as críticas severas às cotas raciais e à criminalização da misoginia, além da defesa do porte de armas de fogo como suposta ferramenta de proteção para as mulheres. 

Tais posições não representam divergências teóricas, mas escolhas políticas com impactos diretos sobre a vida, a segurança e a autonomia de milhões de brasileiras. 

Discordar dessas propostas é o único caminho possível para quem defende a igualdade, mas essa discordância precisa vir acompanhada da capacidade de compreender as razões pelas quais esse discurso encontra tanta ressonância. 

Contradição antifeminista

Primeiramente, é preciso encarar uma contradição da nossa democracia. Milhares de mulheres ocupam hoje espaços de poder, trabalham, votam e exercem autonomia graças às lutas históricas do feminismo, mas rejeitam o movimento que tornou essa presença possível. 

Direitos civis, políticos e trabalhistas — desde o voto feminino até a ampliação da proteção contra a violência doméstica e a busca por independência financeira — foram consolidados por décadas de mobilização coletiva. 

Contudo, para uma parcela significativa da população, a palavra “feminismo” passou a ser percebida não como um instrumento de libertação, mas como uma ameaça contra a qual se deve lutar. 

Dinâmica das redes sociais

Parte dessa distância é amplificada pela dinâmica das redes sociais, onde a lógica das plataformas recompensa o conflito e a polarização. Declarações provocativas geram ondas de indignação, que, por sua vez, multiplicam comentários e engajamento, transformando a rejeição em capital político. 

Muitas vezes, quem repudia determinado discurso acaba, sem perceber, ajudando a espalhá-lo e a fortalecer sua relevância. Romper esse ciclo exige abandonar a reatividade das telas e redirecionar a discussão para a vida cotidiana. 

Resposta feminista

A resposta feminista ao crescimento do antifeminismo não passa por suavizar pautas, abandonar convicções ou buscar uma moderação para parecer mais palatável. O caminho é fortalecer a clareza do nosso projeto de sociedade, disputando as condições reais que afetam o dia a dia das brasileiras. 

A verdadeira pauta da igualdade se mede perguntando se as mulheres conseguem trabalhar e cuidar dos filhos com dignidade? Estão seguras dentro e fora de casa? Têm acesso ao mercado de trabalho, ao empreendedorismo, a salários justos e a oportunidades de liderança? Meninas têm o direito de praticar esportes e ocupar os mesmos espaços que os meninos? E quantas mulheres estão sentadas às mesas onde orçamentos públicos, poder e oportunidades são decididos? 

Uma mulher não precisa se declarar feminista para desejar segurança, liberdade, respeito e independência. O papel do feminismo não é patrulhar identidades ou exigir adesão, mas garantir que nenhuma mulher tenha seus direitos reduzidos, sua voz silenciada ou suas oportunidades ceifadas simplesmente por ser mulher. 

Quando a oposição aos avanços das mulheres passa a ser apresentada como uma proposta de futuro, a democracia se enfraquece.

Diante de quase dois milhões de votos que nos desafiam, a nossa tarefa é continuar defendendo, sem recuos, que o único futuro justo é aquele em que todas nós sejamos livres e iguais.

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  • Gabi Sabino

    Gabriela Sabino (Gabi Sabino) é mestre em Políticas Públicas e Governo e doutoranda em Economia na FGV. Como empreendedo...

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