Se as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e as 81 do Senado refletissem quem realmente somos, mais da metade delas estaria ocupada por mulheres e pessoas negras. Haveria deputadas com deficiência, senadores indígenas, parlamentares de diferentes gerações.

Um Congresso com a cara das filas dos postos de saúde, das escolas públicas, dos ônibus lotados. E uma coisa é certa: não teríamos o Congresso que temos hoje. 

O Brasil tem mais de 203 milhões de habitantes, e é esse país inteiro que serve de ponto de partida aqui. Pegamos os dados do Censo Demográfico 2022, do IBGE, e imaginamos essa população concorrendo, proporcionalmente, às cadeiras do Congresso (respeitando só a idade mínima que a Constituição já exige para cada mandato, 21 anos na Câmara e 35 no Senado). 

A deficiência entrou depois, numa segunda camada, porque a base do Censo que traz esse dado cruza sexo e idade, mas não cor ou raça, então, em vez de inventar uma combinação que os dados não sustentam, preferimos deixar essa lacuna à mostra.

O território também ficou de fora, pois quem já garante que cada estado tenha sua fatia de cadeiras é a própria Constituição, não este exercício. 

E é isso que ele é, no fim das contas, um exercício de imaginação política, não uma proposta de reforma eleitoral nem um retrato fiel de como o Congresso deveria ser.

A pergunta por trás dele é simples: quem estaria sentado ali se o Congresso tivesse a cara de quem ele representa? 

Um Congresso do tamanho do Brasil

Na Câmara, das 269 cadeiras que seriam femininas, 144 seriam ocupadas por mulheres negras (pretas e pardas somadas), 123 por brancas e uma com uma mulher indígena e outra com uma mulher amarela. Cerca de 27 seriam mulheres com deficiência.

No Senado, das 44 cadeiras femininas, aproximadamente 23 seriam de mulheres negras e cerca de 5 de mulheres com deficiência.

A distância entre esse espelho e a política real aparece quando olhamos para quem consegue, de fato, percorrer o caminho até essas cadeiras.

O estudo “Participação das mulheres na política: uma análise por meio de modelos supervisionados de machine learning“, de Júlia Rios, identificou, em 2022, que, das 8 mil 679 candidaturas femininas no conjunto comparável entre eleitas e não eleitas, 311 chegaram à eleição, o que corresponde a uma taxa de sucesso de 3,5%. Entre os homens, foram eleitos 1.398 em 16 mil e 66 candidaturas, o que corresponde a 8,7%.

No Senado, das 27 cadeiras em disputa naquele ano, só quatro foram para mulheres, 14,81% do total de eleitos. E entre as mulheres que se elegeram, 61% eram brancas, 24% pardas e 13% pretas, uma desproporção que a conta demográfica, sozinha, não explica. 

Quem são as mulheres que chegam e as que ainda não chegaram

Contar cadeiras, porém, não basta. Não é suficiente saber só quantas mulheres estariam no poder. Precisamos perguntar quais mulheres, de onde vêm e com que apoio.

A Pesquisa Perfil da Mulher na Política, realizada pela Elas no Poder, ajuda a entender por quê.

Na edição de 2024, com 783 participantes, 85% nunca haviam sido candidatas, embora 26% pretendessem disputar um cargo e 21% ainda considerassem a possibilidade. Olhando só para as mulheres negras da pesquisa, 82% também nunca haviam sido candidatas, patamar semelhante ao do grupo geral. 

No entanto, quando a pesquisa pergunta se elas tinham algum familiar já eleito antes, a diferença racial fica evidente, pois 85% das negras nunca tiveram esse tipo de referência em casa, contra 77% das brancas.

Os números não provam que a falta de rede política seja a causa da sub-representação, mas ajudam a entender como diferentes trajetórias de acesso ao poder atravessam a entrada das mulheres na política. Para muitas, entrar na política não nasce de ambição, nasce de falta de alternativa.

Já na primeira edição da pesquisa, em 2020, uma participante resumiu isso em uma frase que ainda ecoa: “Não é uma motivação, é necessidade”.

Chegar, além disso, não significa permanecer em condições iguais. Na etapa qualitativa da pesquisa, 119 mulheres que já haviam sido candidatas relataram suas experiências com a violência política de gênero. Entre as situações mais mencionadas estão a desqualificação profissional, as interrupções e o descrédito durante discursos.

O dinheiro de campanha conta essa mesma história, já que entre as brancas, 17,2% receberam o valor prometido pelo partido; entre pretas e pardas, esse percentual cai para 5,2% e nenhuma mulher quilombola, indígena, preta ou parda entrevistada chegou a receber mais do que havia sido combinado.

Mulheres não são um bloco único

“Mulheres” não é uma categoria única, mas sim um conjunto de trajetórias, como mulheres do campo e da cidade, negras e brancas, cis e trans, com e sem deficiência, de diferentes gerações. 

O mesmo vale para o capacitismo. Quando o movimento feminista deixa mulheres com deficiência à margem, repete um apagamento parecido com o que historicamente empurrou mulheres negras para as margens da luta.

Incorporar deficiência a este exercício é lembrar que a pergunta sobre representação não se esgota na oposição entre homens e mulheres. Na verdade, ela se aprofunda na diversidade que existe entre as próprias mulheres.

Um Congresso parecido com o Brasil não seria só mais feminino; ele seria mais negro, mais diverso em idade e teria mais pessoas com deficiência.

Mais da metade das cadeiras femininas da Câmara seriam de mulheres negras e cada uma delas chegaria carregando não uma identidade isolada, e sim gênero, raça, geração e condição material atravessados ao mesmo tempo.

O exercício estatístico não decide quem deveria sentar em cada cadeira, nem substitui o voto. Mas ele torna visível a distância entre a diversidade de quem somos e a composição de quem decide.

E é justamente essa distância que sustenta o trabalho de organizações como a Elas no Poder, que cria mecanismos para o combate à violência política de gênero e raça e atua para que mais mulheres, em toda a sua diversidade, cheguem à política e, principalmente, permaneçam nela. 

Porque a pergunta que fica não é apenas quantas mulheres estão no poder, mas quais mulheres conseguem chegar, em que condições chegam e o que encontram e enfrentam quando finalmente ocupam esses espaços.

Nota de transparência: a produção deste artigo utilizou ferramentas de inteligência artificial como apoio na análise de dados estatísticos e na revisão do texto. A concepção, apuração, análise crítica, escolhas editoriais e redação final do artigo são de responsabilidade das autoras.

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  • Administradora, especialista em Data Science & Analytics e Diretora Financeira da Elas no Poder.

  • Jornalista, mestranda em Comunicação Digital e Cultura de Dados e Gerente de Comunicação da Elas no Poder.

     

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