“8 de março une lutas feministas e anticapitalistas porque não podem ser concebidas separadamente”

Entrevista com Silvina Font, Cotidiano Mujer, Montevidéu – Uruguai

CATARINAS – Por quê se rebelam as mulheres uruguaias neste oito de março?

No Uruguai, nos rebelamos porque estamos cansadas ​​de ser tratadas como pessoas de segunda classe, como os “outros”. Porque queremos transformar relações de poder e ser realmente iguais. Nós nos rebelamos porque eles não param de nos violar, estuprando e matando-nos. Mais de 30 mulheres foram assassinadas em 2017 (em Montevidéu) devido à violência sexista e este ano já existem seis. As mulheres são assediadas, espancadas, maltratadas. Não podemos habitar o espaço público em silêncio, não podemos viver além do medo. Nós nos rebelamos contra aqueles que pensam que são nossos donos. Nós nos rebelamos porque continuamos a cobrar menos pelo mesmo trabalho e porque o trabalho de cuidados ainda é invisível (e exercido) principalmente por mulheres. Nós nos rebelamos porque não queremos que outras pessoas nos digam como devemos nos comportar, o que temos a dizer, o que devemos fazer. Nós nos rebelamos contra toda a discriminação que sofremos como mulheres LGTBI, afro, indígenas, migrantes, deficientes, pobres, encarcerados. Nós nos rebelamos porque não temos representação paritária no parlamento, nos partidos políticos ou nos sindicatos, apesar de ser metade da população. Nós nos rebelamos porque as mulheres são as mais afetadas pela pobreza, o que nos torna vulneráveis ​​a sofrer mais violência. Nós nos rebelamos porque os avanços legislativos não são acompanhados pelo orçamento necessário para garantir às mulheres uma vida sem violência de gênero. Nós nos rebelamos porque queremos um mundo no qual possamos ser livres e iguais, e não vamos nos calar até que isso aconteça.

CATARINAS – Como as mulheres estão se organizando para as ações do 8 de março?

Tudo está encaminhado para haver uma grande mobilização em Montevidéu. Foram formados três espaços de articulação: uma das feministas intersociais, outra coordenadora de feminismos e outra específica para a greve internacional feminina. Mais de 40 organizações independentes e feministas participaram das assembleias. Reuniões também estão sendo realizadas em outras cidades do país. A maior energia é colocada em marcha: queremos que a massa de 2017 seja repetida. Também pedimos a todas as mulheres que usem roupas violetas, que pendurem tecidos violetas em suas casas, nas ruas. Queremos que o país inteiro coloque a cor da luta feminista.

CATARINAS – Haverá greve?

Sim, estamos pedindo a paralisação internacional das mulheres de todas as organizações e coletivos para tornar visível que, se pararmos as mulheres, paramos o mundo. O PIM (Paro Internacional de Mujeres) está realizando assembleias abertas todas as sextas-feiras em Montevidéu para articular as ações da greve. Além disso, fomos capazes de coordenar com o centro sindical para que eles apoiem uma greve parcial, começando a partir das 16horas, que daria mais segurança aos trabalhadores. Vários sindicatos se juntaram à greve de 24 horas.
Queremos um movimento cada vez maior e inclusivo que atinja todas as pessoas. No ano passado, superamos todas as expectativas: 20% da população de Montevidéu se juntou à rua principal da cidade para sair. Foram 13 anos desde que tantas pessoas se reuniram em uma manifestação, já que a esquerda chegou à Presidência pela primeira vez. Quanto mais vozes somos, mais nossos gritos de luta serão ouvidos.

CATARINAS – Que papel vem cumprindo a mobilização das mulheres em torno do 8 de março para a luta anticapitalista, na sua opinião?

O feminismo, na minha opinião, tem que ser anticapitalista para ser coerente. Não podemos acabar com as desigualdades de gênero se não terminarmos também com desigualdades de classe e raça. O patriarcado e o capitalismo alimentam-se e se intensificam, gerando uma interseção de opressões que viola ainda mais as pessoas que estão mais fora da norma. Não podemos esquecer a origem desta data, escolhida como Dia Internacional da Mulher, que lembram os eventos ocorridos em 1908 na fábrica de têxteis de algodão em Nova York, quando 146 mulheres foram queimadas até a morte por se recusem a deixar o prédio, ocupando em protesto contra salários baixos e condições de trabalho precárias. 8 de março é o que é graças às trabalhadores, que até hoje, 110 anos depois, somos menos valorizadas do que os homens. As mobilizações de 8 de março unem lutas feministas e anticapitalistas, porque não podem ser concebidas separadamente.

 

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