O abandono paterno é um fenômeno expressivo no Brasil. Mais de 1,2 milhão de crianças receberam apenas o nome da mãe, entre 2016 e 2024, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil. Enquanto o país soma 11 milhões de mães solo, de acordo com pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) referente a 2022. 

Cientes desse cenário, um grupo de estudantes do Instituto Estadual de Educação de Santa Catarina (IEE), em Florianópolis, decidiu investigar como a paternidade também pode ser acompanhada de desejo e responsabilidades afetivas, e de que forma essa presença, quando deixa de ser exceção, transforma-se em um vínculo essencial na construção familiar.

A pauta surgiu durante as oficinas do projeto Narrar para Transgredir, iniciativa da Associação Portal Catarinas, que promove oficinas de comunicação e letramento em gênero com jovens de 16 a 18 anos. Nesta edição, a iniciativa conta com apoio do edital ELAS+ Cidadania Digital.

O grupo relatou experiências pessoais marcadas pela ausência paterna e quiseram compreender por que tantos homens ainda se afastam do cuidado e do vínculo com os filhos.

Entre as perguntas levantadas estão:

  • O que significa ter uma paternidade desejada?
  • Quais os desafios de ser um pai presente?
  • Como a ausência afeta filhos e mães?
  • O que muda quando o pai participa da criação dos filhos?

Essas reflexões dialogam diretamente com o podcast Paternidades Plurais, quarta temporada do Narrando Utopias, produzida pelo Catarinas. A produção reúne relatos de quatro pais que revisitaram suas masculinidades para se tornarem mais presentes, afetivos e conscientes das desigualdades de gênero.

Confira os episódios: 

Um pai solo no grupo de whatsapp de mães

O primeiro episódio narra a história de Rafael Stein, um pai solo, viúvo, que precisou rever a própria masculinidade para lidar com a perda da esposa, cuidar sozinho dos dois filhos e reconfigurar a própria vida. Um processo cheio de redescobertas, momentos de frustração e estranheza, mas também com muito amor e consciência da importância de exercer a paternidade.

Um pai preto que se permite sentir

No segundo episódio, o foco é a reconstrução da masculinidade, especialmente entre homens negros, e como ela se conecta à paternidade. Rafael Santos, produtor de conteúdo e pesquisador de história e cultura africana, conta como a ancestralidade lhe ajudou a romper padrões que não gostaria de repetir com os filhos e como ouvir a companheira foi fundamental nesse processo. 

Um pai que aprende muito com o filho

O filósofo e ativista Marcelo Zig narra como sua paternidade foi atravessada pelo racismo e pelo capacitismo: ser pai negro com deficiência lhe exigiu enfrentar barreiras de acessibilidade, estereótipos e ausência de referência. Essa história evidencia que a paternidade consciente passa por reconhecer limitações sociais e pessoais, e ainda assim exercer o cuidado, o vínculo e a presença, sem fugir das responsabilidades. 

Um pai trans que se descobriu ao 34 anos

Léo Medeiros, um pai trans que se descobriu aos 34 anos, conta como o reconhecimento da sua identidade de gênero, em 2018, desencadeou uma série de mudanças em sua vida e na forma de exercer a paternidade. Nesse processo, ele teve o apoio da filha Camila, que também se reconheceu como uma menina trans aos dez anos. O episódio mostra que existem múltiplas formas de viver a parentalidade e que esse exercício não se limita a um gênero fixo. O que realmente importa é a presença, o cuidado e o afeto genuíno.

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