As relações familiares costumam ser o primeiro espaço de afeto, educação e convivência de qualquer pessoa e exercem um papel determinante na formação da identidade e da autoestima. Mas o que acontece quando esse espaço se transforma em fonte de medo, insegurança e violência?

Essa questão motivou os/as estudantes Ana Beatriz Nohaus Castilho, Mirella da Silva, Alisson Luiz Brito, Juliana Pereira Fernandes, Ester Capistrano, Arthur Krauss dos Santos, Isabeli Corrêa Cardoso e Kayke Fernando de Oliveira a investigar como se formam e se perpetuam os ciclos de violência psicológica dentro de casa e de que forma eles afetam quem os vivencia.

Os alunos e alunas estudam no Instituto Estadual de Educação de Santa Catarina (IEE), em Florianópolis (SC), e realizaram as entrevistas no âmbito do projeto Narrar para Transgredir, promovido pela Associação Portal Catarinas. A iniciativa oferece oficinas de comunicação e letramento de gênero para jovens da capital catarinense e, nesta edição, conta com o apoio do edital ELAS+ Cidadania Digital

A pauta foi inspirada pela experiência e pela percepção do próprio grupo: muitos já testemunharam ou viveram dinâmicas familiares marcadas por conflitos.

“É muito importante para nós porque esse padrão de violência foi e é vivenciado por nós, e queremos romper esse ciclo”, escreveram na justificativa do trabalho.

Para a investigação, entrevistaram a psicóloga Larissa Guedes e o psicólogo Pedro Becker Athayde Ciqueira, do Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (Nepre).

A identidade se constrói a partir das primeiras relações

De acordo com Larissa, quando uma pessoa cresce em um ambiente tóxico, marcado por negligência, rejeição, críticas constantes ou gritos, tende a internalizar essas experiências e acreditar que é, de fato, tudo aquilo que ouve. Essa marca, observa, acaba se refletindo nas escolhas pessoais e nos vínculos afetivos futuros, muitas vezes repetindo de forma inconsciente os padrões vividos na infância.

A especialista explica que a repetição é um conceito central na psicologia: filhos e filhas podem reproduzir as dinâmicas familiares que vivenciaram, mesmo sem perceber.

“Por isso, é necessário tomar consciência desses comportamentos e quebrar esse ciclo, buscando ajuda terapêutica e refletindo sobre suas atitudes”, acrescenta. 

Trabalhando dentro da escola, Pedro observa que a vida familiar atravessa todas as dimensões da existência e inevitavelmente se reflete no comportamento escolar. Embora reconheça que a escola tenha limites, especialmente em questões que envolvem a privacidade das famílias, ele destaca a importância de compreender essas influências para acolher os estudantes de forma mais humana e efetiva.

Segundo Pedro, o trabalho pedagógico não pode se isolar da realidade de cada aluno. Ele explica que os limites da escola “são permeáveis”, já que a vida das pessoas “é uma só — inclui a escola, a família e tudo o que as atravessa”.

Quando a escola entra na conversa

Na escola, as demandas familiares têm sido acolhidas pelo Nepre, núcleo criado para atender casos de violência no ambiente escolar, como bullying, racismo e transfobia. Como essas situações muitas vezes se estendem a outros aspectos da vida dos e das estudantes, o núcleo também realiza acompanhamento junto às famílias. 

Segundo Pedro, muitas vezes a equipe se depara com situações que extrapolam os limites da escola, mas que não podem ser ignoradas. Nessas circunstâncias, a equipe multiprofissional realiza encaminhamentos conforme a gravidade do caso: aciona o Conselho Tutelar ou o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) quando identifica risco, e, em situações menos graves, busca o diálogo com a família ou orienta o estudante diretamente.

O psicólogo ressalta, no entanto, que o ideal seria fortalecer o caráter preventivo da atuação do Nepre, com maior presença em sala de aula e em atividades coletivas. Para ele, o núcleo ainda é muito demandado por casos individuais, o que limita a realização de projetos, oficinas e rodas de conversa que poderiam evitar a escalada da violência.

Romper o ciclo é possível

Reconhecer que as relações familiares não estão saudáveis é o primeiro passo para buscar ajuda. Entre os sinais de alerta, Larissa cita a culpabilização constante, a sensação de medo, o controle excessivo, os conflitos repetitivos, a desvalorização e a ausência de escuta. Esses comportamentos, segundo a psicóloga, muitas vezes são naturalizados por quem os vivencia desde cedo. 

A terapia, acrescenta, ajuda a construir novas formas de se relacionar e, quando há reconhecimento coletivo do problema, a terapia familiar pode ser um caminho importante para a reconstrução dos laços.

Para Larissa, para romper com esses padrões é preciso buscar espaços onde seja possível se expressar e receber acolhimento.

“É necessário se afastar de certas dinâmicas prejudiciais. Além da terapia, que é crucial nesse processo de autoconhecimento, também é importante contar com amigos, grupos de apoio e outras pessoas de confiança”, orienta.

Portanto, romper ciclos não é apenas uma responsabilidade individual, é uma construção coletiva que envolve outros núcleos, além do familiar, como a escola e a comunidade.

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