A chantagem emocional pode começar com ações ou frases sutis, muitas vezes disfarçadas de carinho, mas é um tipo de violência psicológica que pode deixar marcas profundas na autoestima e na saúde mental de quem sofre. Situações de controle, culpa e manipulação podem ocorrer entre amigos, namorados ou até dentro da própria família.

Pensando nisso, e em experiências que fazem parte de sua realidade, um grupo de estudantes do Instituto Estadual de Educação de Santa Catarina (IEE), em Florianópolis, decidiu investigar o assunto: o que ela é, como se manifesta e de que forma afeta quem a vivencia.

Eles participaram do projeto Narrar para Transgredir, realizado pela Associação Portal Catarinas, que promove oficinas de comunicação e letramento em gênero com jovens de 16 a 18 anos. Nesta edição, a iniciativa conta com apoio do edital ELAS+ Cidadania Digital.

Na entrevista a seguir, a psicóloga Mari Luz, Diretora de Saúde da organização Me Too Brasil, explica como identificar a chantagem emocional, de que forma ela impacta a saúde mental e o que podem fazer a escola, a família e os próprios adolescentes para interromper o ciclo de manipulação e sofrimento. Confira. 

A chantagem emocional é um tipo de violência psicológica? E quais as diferenças para outros tipos de manipulação?

Sim. A violência psicológica é como um guarda-chuva, sob o qual existem vários subtemas. Uma das principais diferenças em relação a outros tipos de manipulação é que a chantagem emocional costuma vir disfarçada de cuidado e de afeto. Então, a pessoa diz: “Ah, se você me amasse, faria tal coisa”, “Você vai me deixar triste se não fizer o que eu quero”, ou “Estou pedindo isso porque gosto de você, porque te amo”.

No caso dos adolescentes, precisamos lembrar que eles ainda não têm tantas ferramentas, pois estão em formação. Já quando falamos de pessoas adultas, há mais recursos para lidar com esse tipo de situação. 

Existe também o peso da família, que no Brasil ocupa um lugar muito idealizado. Somos uma sociedade muito marcada pela culpa cristã, um país religioso e conservador. Nesse tipo de contexto, a família é vista como algo que não se pode romper, que não se pode contrariar. Vem daí aquela ideia dos Dez Mandamentos: “honrar pai e mãe”.

Por isso, a chantagem emocional tem um peso muito grande. Ela é uma forma de manipulação e está sob o guarda-chuva da violência psicológica.

Pode ser mais silenciosa do que outros tipos, mas é extremamente poderosa, pois leva o adolescente, ou qualquer outra pessoa, a duvidar de si, a se sentir responsável por atender às expectativas do outro, por garantir esse amor. Há um nível de crueldade muito grande nas chantagens emocionais.

Quais são os sinais de que alguém está sendo vítima de chantagem emocional em uma relação? É possível identificar?

Bom, existem alguns sinais muito importantes. O primeiro é a sensação constante de culpa. Então, a pessoa sente que está sempre fazendo algo errado, tem muito medo de desagradar e acaba abrindo mão das próprias vontades para evitar conflito.

Outro sinal bem característico, como eu mencionei antes, é esse disfarce de afeto: a ameaça de se afastar, de que a pessoa vai se decepcionar ou de que vai ser machucada, e usar isso como chantagem. O ponto central para identificar a chantagem emocional é o desconforto.

Por que algumas pessoas usam a chantagem emocional como forma de controle? 

Justamente por causa desse padrão de parecer carinho e afeto e, através disso, tentar garantir que as coisas aconteçam do jeito que a pessoa quer, que o outro faça o que ela deseja. O próprio objetivo da chantagem emocional é o controle. Esse, inclusive, é um dos principais sinais: ela vem revestida de muito controle, porque quem pratica usa as emoções como ferramenta para dominar o outro.

Não tem nada a ver com afeto, mas a pessoa usa o afeto, o medo, a culpa e o desconforto para exercer controle e manter o vínculo a qualquer custo. Precisamos lembrar que, onde há amor, não há dor desse tipo. Podemos até passar por sofrimentos, renúncias e adaptações, mas não existe esse tipo de dor, de medo. O amor é outra coisa e o controle é diferente dele.

Quais impactos esse tipo de violência pode ter na saúde mental, especialmente entre adolescentes e jovens? 

Nossa, gigantescos. Um dos principais impactos é o enfraquecimento da autoestima e do senso de valor pessoal. Quando, por causa do controle, da culpa e da chantagem emocional, o adolescente começa a duvidar de si mesmo o tempo todo, ele deixa de desenvolver uma ferramenta essencial: a capacidade de confiar no próprio julgamento, nos próprios sentimentos e opiniões. 

E se isso acontece há muito tempo, os impactos podem ser duradouros porque ele está justamente na fase de fortalecer essa autoestima. É algo muito sério. Além de abalar a autoestima, a chantagem emocional pode gerar ansiedade, tristeza, confusão emocional e até sintomas depressivos.

Por isso é fundamental que o tema seja discutido. A informação é uma ferramenta poderosa nesse sentido para que eles saibam que têm o direito de se proteger.

Qual a relação entre chantagem emocional e redes sociais para adolescência? 

As redes sociais são um espaço muito importante para os adolescentes. Eles se expressam, aprendem, se conectam e também se comparam. Nesse ambiente, a chantagem emocional pode surgir de novas formas, como ameaças de expor mensagens privadas, fotos íntimas ou o uso de curtidas e silêncios como forma de controle.

Também aparece disfarçada de “prova de amor”: exigir senhas, monitorar conversas, cobrar respostas imediatas ou fazer com que o outro se sinta culpado por ter amigos e uma vida fora da relação.

As redes podem amplificar essas dinâmicas de controle. Por isso, é importante reforçar que ninguém deve se sentir pressionado a abrir a própria intimidade para provar afeto. Pais, responsáveis e escolas têm papel fundamental em orientar o uso das redes com respeito, consciência e liberdade para que o amor nunca se confunda com vigilância.

De que forma a escola e a família podem contribuir para prevenir ou interromper situações de chantagem emocional entre adolescentes?

Eu usei muito o contexto familiar para explicar antes, mas aqui quero ampliar um pouco, porque o ideal seria que todos os adolescentes tivessem uma família cuidadora e protetora, um espaço de respeito, afeto e autonomia. Sabemos que nem sempre é assim. Por isso, a escola tem um papel fundamental. Ela é um espaço de diálogo que contribui para que crianças e adolescentes desenvolvam ferramentas socioemocionais.

No caso das famílias, quando esse é um espaço de segurança e a chantagem emocional ocorre em outro ambiente, é importante observar possíveis mudanças de comportamento, pois o adolescente pode não se sentir à vontade para se abrir.

Tanto na escola quanto no convívio familiar, é importante estar atento a alterações no humor, no sono, na alimentação ou na forma de se relacionar. Quando alguém está sofrendo algum tipo de violência, tende a se isolar, falar menos, demonstrar tristeza ou retraimento. Por isso, é essencial não banalizar mudanças de temperamento ou comportamento em crianças e adolescentes. Essa também é uma forma de validar o que eles sentem. 

Mas o primeiro passo é a informação: reconhecer o problema, criar espaços seguros para que o adolescente fale e ajudá-lo a se fortalecer emocionalmente.

É um processo desafiador, porque estamos falando de pessoas em formação. Por isso, é importante orientá-los a procurar um adulto de confiança — um professor, um parente, um educador — com quem ele possa conversar. Esse é o primeiro passo para romper qualquer ciclo de chantagem emocional. 

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